Brasil

‘Bolsonaro tentou mudar bula da cloroquina’, diz Mandetta na CPI


SÃO PAULO, 4 MAI (ANSA) – O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou nesta terça-feira (4) que o presidente Jair Bolsonaro pediu para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alterar a bula da cloroquina, medicamento com ineficácia cientificamente comprovada, para que fosse indicado no tratamento contra o novo coronavírus Sars-CoV-2.   

No entanto, Mandetta revelou que o pedido foi negado pelo presidente da agência sanitária, Antonio Barra Torres. A declaração foi dada durante depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, onde ele foi ouvido na condição de testemunha, quando existe o compromisso de dizer a verdade.   

“Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião com vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca tinha conhecido. Quer dizer, ele tinha esse assessoramento paralelo”, contou.   

De acordo com o ex-ministro, “nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não-timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus”.   

“E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa, Barra Torres que disse não”, afirmou.   


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Mandetta ainda contou que o presidente brasileiro sempre questionou o uso da cloroquina para o tratamento precoce, mesmo sem a comprovação científica. Para ele, Bolsonaro deveria ter outras fontes de informação – como por exemplo o próprio filho Carlos Bolsonaro, que participava de reuniões -, principalmente porque o Ministério da Saúde não recomendava o remédio.   

“Me lembro do presidente sempre questionar a questão ligada a cloroquina como a válvula de tratamento precoce, embora sem evidência científica”, acrescentou.   

O ex-ministro também disse se lembrar que Bolsonaro falou algumas vezes que adotaria o chamado confinamento vertical, que era também algo não recomendado.   

Além disso, Mandetta ressaltou que a orientação do uso da cloroquina não foi feita pela pasta. “A única orientação sobre cloroquina que partiu do Ministério foi sobre o uso compassivo, ou seja quando não há outro recurso, para pacientes graves em ambiente hospitalar. É um medicamento com margem de segurança estreita. Tem uma série de reações adversas e cuidados que devem ser feitos antes de ser administrada”, afirmou.   

Líder da pasta entre janeiro de 2019 e abril de 2020 e demitido após divergências com o presidente Bolsonaro, Mandetta contou ainda que todas as recomendações feitas durante o período que esteve à frente do ministério foram feitas com base “na ciência, na vida e na proteção e em análises técnicas que eram passadas ao presidente mas não eram seguidas”.   

“Nossas orientações eram verbalizadas por mim para combatermos teorias de que, por exemplo, cidades quentes não teriam problema. Eu alertava Manaus, Cuiabá. Tínhamos teoria de isolamento vertical, não era verdade. Nossas orientações foram assertivas. Pela ciência. Tivemos todas as nossas afirmações comprovadas no decorrer da doença”, alegou.   

Durante seu depoimento, o ministro também afirmou ter tomado as medidas necessárias para a compra de insumos, mas que enfrentou dificuldades por causa da alta demanda no mercado internacional.   

“Fizemos a lista de tudo que era necessário. Sabíamos sobre kit intubação. Esses materiais tiveram aumento expressivo na Europa e nos Estados Unidos”, declarou.   

Conforme revelado, ele fez um monitoramento e procurou “antecipar os problemas”, mas tinha “dificuldade de ter os kits”. “O mercado estava convulsionado, mas as medidas foram tomadas. Iniciamos o processo de compra de 24 milhões de kits, mas não pudemos fazer. Fui exonerado e não pudemos fazer todo o plano: testagem, reparar, monitorar, evitar a transmissão”.   

Questionado sobre o fato de o Brasil não ter realizado testagem em massa no início da pandemia, Mandetta disse que em março de 2020 iniciou um processo de compra de 24 milhões de testes, mas logo depois foi exonerado e não soube que essa estratégia não foi utilizada.   

“Iríamos testas, bloquear contágios e tratar na atenção primária ampliando a rede de atendimento hospitalar. Vimos pararem muitas coisas e não colocarem nada no lugar. A testagem é uma delas”, acrescentou.   

Durante sua gestão, Mandetta alega ter visto Bolsonaro duvidar, no início da emergência sanitária, de uma estimativa de 180 mil mortos até dezembro de 2020 caso o país não adotasse medidas rígidas de combate a Covid-19.   

“Era constrangedor para o ministro da Saúde ficar explicando que estava indo por um caminho e o presidente por outro”, afirmou.   

Na sessão de hoje, o senador Randolfe Rodrigues chegou a questionar se houve pressão do presidente para ele se manifestar contra as medidas da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Não.   

Mas o Ministério foi confrontado publicamente. Isso dava uma informação dúbia à sociedade. O vírus ataca a educação, a cultura, o lazer, o sistema de saúde ao ponto de derrubá-lo”, afirmou Mandetta. “O Brasil poderia mais. Poderíamos estar vacinando desde novembro passado.” Carta a Bolsonaro – Em seu depoimento, Mandetta leu um trecho de uma carta que escreveu para Bolsonaro na tentativa de convencê-lo a seguir as orientações para a condução da emergência sanitária provocada pelo coronavírus.   

“Alertei o presidente. Tudo que eu podia fazer de alertar, foi feito”, disse.   

O documento foi entregue a Bolsonaro em março de 2020: “Tendo em conta que a atuação do Ministério da Saúde fundamenta-se nos fatos apurados, nas evidências científicas e na observância dos princípios e regras que alicerça os diretos e garantias fundamentais de todos os cidadãos brasileiros, recomendamos expressamente que a Presidência da República reveja o posicionamento adotado, acompanhando as recomendações do Ministério da Saúde, uma vez que adoção de medidas em sentido contrário poderá gerar colapso do sistema de saúde e gravíssimas consequências à saúde da população brasileira”.   

Mandetta é o primeiro a ser ouvido dos últimos quatro ministros da Saúde convocados para depor na comissão, que investiga ações e omissões do governo Bolsonaro no combate à pandemia, além do repasse de verbas a estados e municípios. (ANSA)

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