Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

As audiências que acontecem no congresso norte-americano para investigar o que realmente aconteceu no fatídico dia seis de janeiro do ano passado – uma espécie de CPI para apurar a tentativa do golpe de Donald Trump – mostram detalhes cada vez mais assustadores do evento que marcou a negativamente a história da democracia mais antiga do mundo. O então presidente, sem aceitar o resultado das urnas, quis usurpar o poder, tentando impedir que o nome de Joe Biden fosse ratificado como o grande vencedor do pleito.

A última revelação da “CPI”, de que Trump teria tentado dispensar seus seguranças para marchar junto com os invasores, coloca mais uma pá de cal na estratégia do ex-presidente em defender que seus atos naquele dia não tinham relação nenhuma com a invasão em si. Porém, o ex-presidente não só incentivou os crimes de seus apoiadores, como queria se juntar a eles.

Cassidy Hutchinson, assessor de Mark Meadows, ex-chefe de gabinete, revelou que o presidente havia exigido marchar até o congresso americano junto com seus partidários mesmo quando o motim já estava em andamento, tentando até mesmo assumir o volante da limusine presidencial à força, quando lhe disseram que não poderia ir por questões de segurança. Se por lá, o serviço secreto pode falar mais alto para preservar a vida do mandatário, por aqui, caso Bolsonaro resolva seguir a mesma cartilha, as coisas podem ser bem diferentes.

Quando receber o resultado de sua possível derrota, o presidente tentará fazer alguma coisa. Se fará um protesto pacífico, escreverá uma carta de repúdio ou pedirá para que os apoiadores invadam o parlamento é ainda é algo puramente especulativo. Mas, mesmo que não consiga reunir apoio para um golpe, acreditar que ele aceitará democraticamente o resultado das eleições é cada dia mais difícil.

Em suas entrevistas sobre o tema, Bolsonaro costuma dizer que só acreditará na lisura do processo caso seja o vencedor. Segundo ele, o “data povo”, o público que o acompanha em motociatas e comícios pelo país, é maior e mais credível do que as pesquisas de intenção de votos realizadas por diversos institutos de pesquisa. Se o presidente nunca acreditou na ciência, por que acreditaria em estatística?

Sua presença na Marcha para Jesus, realizada em Santa Catarina, rendeu uma série de imagens que poderiam mostrar um líder nacional em uma praia lotada. Porém, quando as imagens aéreas do evento foram reveladas, mostraram apenas uma pequena área da orla de seis quilômetros ocupada. Cadê o “data povo”? Enquanto nas mesas de bar e em grupos de mensagens a população se divide, com uns defendendo que ele virá a dar um golpe e com outros afirmando que isso não acontecerá, a certeza de todos parece ser a de que, independente de quem seja o futuro presidente do País, dias intranquilos estão no meio do caminho da democracia brasileira.

Nos Estados Unidos, quatro pessoas morreram por causa da tentativa de golpe, outras cometeram suicídio em decorrência do evento e diversas foram presas e investigadas. O presidente Donald Trump sofreu um impeachment simbólico. A pergunta que fica é: e por aqui, qual será o roteiro que Bolsonaro escolherá?