Bolsonaro pede socorro até aos EUA

Crédito: Anna Moneymaker

(Crédito: Anna Moneymaker)

É deprimente assistir ao grau de apelação a que recorre o mandatário para tentar anular o resultado eleitoral. De maneira vexaminosa, colocando o Brasil quase na condição de uma colônia subordinada ao império, o presidente Bolsonaro chegou a pedir ao governo americano que o ajudasse no intento de derrotar o arquirrival Lula nas urnas. Em que termos se daria essa ajuda? Agora imagine emissários do Tio Sam interferindo na soberania nacional. Havia testemunhas e, supremo embaraço, Joe Biden teve de reiterar o óbvio: que os EUA prezava por eleições independentes e livres, em prol da democracia. Recado direto, mostrava ao interlocutor que ali não se compactuava com seus métodos, obviamente golpistas, de quem sonha com fuzileiros armados, em linha, tentando fazer valer os seus desejos. O capitão das bananas perdeu mesmo o senso. Convoca até empresários para o sonhado crime eleitoral, propondo congelamento de preços e redução artificial de lucros como forma de abrandar a plebe rude, derrubar resistências e, assim, conquistar os votos que lhe faltam. Um descalabro atrás do outro. A Organização das Nações Unidas (ONU) já soou o alarme contra o perigo de sabotagem na corrida presidencial brasileira e está pedindo a atuação conjunta de 30 instituições independentes para evitar o pior. A representante da entidade para os Direitos Humanos, a chilena Michelle Bachelet, se diz demasiadamente preocupada com o que classifica como risco de interferência indevida do Estado na escolha popular. Como alta comissária da ONU, ela fez um apelo a favor do processo democrático e, para desalento geral, colocou o Brasil numa lista de cerca de 30 países cuja situação de atentados às liberdades está numa escala considerada “temerariamente alta”. Não deixa de ser um retrocesso inaceitável para uma Nação que até bem pouco tempo liderava o desenvolvimento na América Latina e era referência no campo dos direitos sociais. Na mesma toada da ONU, o vespertino americano The New York Times resolveu estampar uma reportagem de destaque em suas páginas alertando para o ataque dos militares brasileiros às eleições. Não ecoou nada bem o comunicado do Ministério da Defesa reclamando que não era ouvido e se sentia “desprestigiado” nas discussões sobre o sistema – muito embora tenha sido formalmente convidado a participar do comitê de debates, com parte de suas contribuições acatadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Fato curioso a recordar é a súbita atenção da caserna pelo escrutínio. Em 25 anos de funcionamento das urnas eletrônicas, jamais antes as Forças Armadas manifestaram interesse. Ao contrário. Silenciaram. Agora, com a disputa envolvendo o capitão do Planalto, nada menos que 88 questionamentos foram levantados. É o pior dos mundos ver a esfera militar, que é de Estado, submetida às vontades de um governante. Macula de maneira vergonhosa a imagem de credibilidade erigida nos últimos anos. No mundo inteiro, a reação ao quadro de campanha por aqui é de surpresa e de receio com a escalada autoritária empreendida pelo “mito”. Ele em pessoa pôde sentir parte dessa repulsa com as mensagens e painéis exibidos durante sua viagem aos EUA, dias atrás. Nos redutos tradicionalmente mais fiéis, como o da comunidade evangélica, Bolsonaro tem falado em “urgência apocalíptica” (apesar da maioria não enxergar as coisas como ele vê). O terrorismo narrativo está em voga, e centra carga no opositor Lula como uma espécie de Belzebu, capaz das maiores maldades. Na prática e na ponta do lápis, o que tem contado mesmo para a preferência da maioria é a acelerada perda de qualidade de vida. A miséria explodiu. A fome, idem. O dado mais dramático do atual quadro foi lançado recentemente revelando que mais de 33 milhões de brasileiros enfrentam insegurança alimentar extrema. Traduzindo em miúdos: não têm o que comer. É quase o dobro do universo que estava nessa situação há dois anos. A estatística deve ainda subir vertiginosamente com a volta avassaladora da inflação. A economia desastrosa da gestão Bolsonaro não dará trégua aos planos de reeleição do candidato Bolsonaro. O medo ronda desassistidos, carentes em geral, cidadãos de baixa renda, que compõem a maioria absoluta da população. E o presidente enxerga somente o caminho do tapetão para fazer vingar o objetivo pessoal de permanência no poder. Mesmo a reiterada defesa da liberdade de expressão, que tem professado em suas falas, não passa de um ardil para enganar e distorcer a realidade. É a forma de pressionar pelo uso desenfreado das redes sociais como canal de fake news, especialidade da sua tropa, que vem sofrendo investigação e controle sistemático por parte das autoridades. Bolsonaro apela como pode e a quem tiver pela frente.


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