Bolsonaro não vai parar

Bolsonaro não vai parar

Ainda no início de seu mandato, em março de 2019, num jantar na embaixada brasileira em Washington, Jair Bolsonaro prometeu “desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa” antes de dar início aos seus planos para o País. Sentado à sua direita estava o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, que faleceu recentemente. Quem conhece as normas do cerimonial público sabe que esses lugares não são ocupados de forma aleatória. Simbolicamente, depois de Bolsonaro, Olavo era a pessoa mais importante naquele salão. À esquerda do presidente, como segundo mais importante, estava ninguém mais, ninguém menos do que Steve Bannon, ideólogo da extrema direita americana e estrategista de Donald Trump.

Desde então, pelo menos nesse ponto Bolsonaro vem cumprindo à risca o que prometeu: passamos os últimos três anos sobressaltados diante de um incessante avança-e-recua sobre as instituições – que a cada ataque se esgarçam mais um pouco. O STF tem sido o alvo preferencial. Para quem achava que o auge do avanço de Bolsonaro havia sido a convocação para os atos antidemocráticos de setembro último, com uma pauta que incluía a deposição dos ministros da Corte, a graça concedida ao deputado Daniel Silveira veio para mostrar que ele parece desconhecer o conceito de limite.

Nesta semana, o deputado voltou à Câmara, sem a tornozeleira eletrônica, e foi indicado como membro titular da Comissão de Constituição e Justiça. Parece um deboche. E é. Ainda mais acintoso foi vê-lo ao lado de Bolsonaro, no Palácio do Planalto, com um quadro emoldurado do indulto individual que recebeu do presidente. Assim como fez em 2018 com uma placa de Marielle Franco, executada por milicianos no Rio de Janeiro, ele simbolicamente arrebentou mais um pouco as instituições democráticas.

Algo dessa natureza, um indulto individual a um aliado condenado pela Corte máxima, seria impensável num passado recente. Assim como parecia fora do espectro de possibilidades que vândalos pudessem invadir o Congresso americano, como ocorreu no apagar das luzes do governo Trump. Quem poderia imaginar uma cena daquelas?

Depois daquela invasão, a normalidade foi restabelecida, assim como se espera que aconteça no Brasil em relação ao absurdo perdão de Bolsonaro a Silveira.
Mas esses processos vão desgastando e deteriorando as instituições democráticas. Algo ali foi violado, conspurcado.

Em tempo: assim como Bolsonaro fez com Silveira, Trump também indultou aliados enquanto estava na presidência. Um dos beneficiados foi Steve Bannon. Aquele mesmo que se sentou ao lado do presidente brasileiro no jantar da Embaixada. Os governos de Bolsonaro e Trump, aliás, são exemplares para que se possa compreender a estratégia da extrema direita – da qual Bannon é um dos principais expoentes. Para a construção de seu projeto totalitário, trabalham pelo enfraquecimento das instituições democráticas, protegem os seus e perseguem os opositores. E fazem valer a máxima “aos amigos tudo; aos inimigos, a lei”.