Fábio Porchat

Entrevista

Fábio Porchat Ator, roteirista e comediante

Bolsonaro não governa, ele se vinga

Divulgação

Bolsonaro não governa, ele se vinga

Felipe Machado
Edição 29/05/2020 - nº 2629

Nem o coronavírus é capaz de parar Fábio Porchat. Em vez de reduzir a quantidade de projetos durante a quarentena, o ator, roteirista e comediante pisou no acelerador. Está em cartaz com a segunda temporada da série “Homens?”, no qual ridiculariza o machismo na TV a cabo e no streaming. Entrevista famosos e anônimos no programa “Que História é Essa, Porchat?” e promove lives com personagens que vão da Sandy ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no seu perfil pessoal do Instagram. Produz conteúdo sobre a pandemia e conversa com idosos em “Que História é Essa, Vovó?” para os canais digitais do Porta dos Fundos. E ainda encontra tempo para dar entrevistas e participar das lives de outros artistas. Porchat estreou em 2005 com a peça “Infraturas” e participações no grupo “Comédia em Pé”, pioneiro do stand-up no Brasil. Um diretor viu o show e o convidou para ser roteirista do programa “Zorra Total”, da Rede Globo. Começava ali o sucesso popular de um dos artistas mais conhecidos do País. Hoje, aos 36 anos, Porchat ainda tem um sonho: quer fazer sucesso no exterior. Que história é essa, Porchat?

Essa entrevista por videoconferência me obriga a iniciar com uma pergunta óbvia: como tem sido esse período de quarentena para alguém com tantos projetos como você?
Estou conseguindo viver bem, sou privilegiado, logicamente. A empresa conseguiu manter os funcionários trabalhando de casa, e mesmo aqueles que ficaram em casa estão recebendo salário. Estou trabalhando muito, não só em propostas para a quarentena, mas também para transformar os projetos que funcionavam de um jeito em ideias que vão ter que funcionar de outro. Tenho escrito muita coisa, gravado Porta dos Fundos, feito minhas lives com convidados de todos os tipos. Já entrevistei Luciano Huck, Cid Moreira, Fernando Henrique Cardoso, Xuxa, Sandy, Fernando Haddad. No Porta dos Fundos a gente tem vídeos gravados até o final de agosto, mas achamos que valia abordar essa pandemia. Temos criado esquetes específicos e tem dado muito resultado.

Dá para fazer humor com a pandemia? Qual é o segredo para fazer piadas com uma coisa que é tão negativa para a população?
Dá para fazer humor em qualquer momento. O italiano Roberto Benigni nos mostrou que dá para fazer humor com o Holocausto. “Jojo Rabbit” faz humor com o Hitler. Dá para rir em todos os lugares, em todas as situações. No Porta dos Fundos, no entanto, não acreditamos no humor em cima do oprimido, a gente gosta de rir em cima do opressor. Jamais vamos fazer piada com uma vítima de Covid-19 ou de alguém que está em casa com a família infectada. Isso não tem graça para a gente. Mas dá para fazer humor porque as pessoas precisam rir. Está todo mundo passando pela mesma situação, trabalhando em casa, fazendo reunião pelo Zoom, daí trava tudo… As pessoas se identificam e pensam: “cara, é isso mesmo!” Imediatamente, ela ri.

Você está na segunda temporada da série “Homens?”, com o programa “Papo de Segunda”, os vídeos do “Porta dos Fundos”, as lives… Como você está fazendo para manter tudo isso com as restrições de mobilidade e contato entre os profissionais?
Eu tenho sorte: sou muito metódico, muito certinho. Até que, de vez em quando, para usar uma palavra curiosa, eu “escapulo”. Eu me organizo muito bem, sei exatamente a hora em que vou fazer, a hora em que vai acabar. Na verdade, essa coisa de não ter deslocamento só faz com que sobre tempo para trabalhar mais.

De onde surgiu a ideia de tratar de política e outros temas mais sérios nas suas lives?
Hoje no Brasil qualquer assunto termina em Bolsonaro, né? Está muito difícil a gente não falar de política. Qualquer coisa que se fale, o cara leva para direita, leva para esquerda. Acho ótimo, ficamos muito tempo sem falar de política. É bom para amadurecer a nossa democracia e até para a gente aprender a votar. Infelizmente, o ser humano precisa passar por percalços para aprender. É uma pena ter que passar por um percalço tão grande como o Jair Bolsonaro no meio de uma pandemia, onde ele é responsável por tantas mortes, por tanta gente se contagiando. Eu não entendo de tudo, tento me manter informado, mas sou muito ignorante.

Você deve entender mais do que a Anitta, pelo menos…
Mais ou menos. Porque no fim das contas a Anitta entende de uma política do dia a dia de onde ela vem que eu não entendo. Eu não vim de Honório Gurgel, vim do triste Morumbi, bairro de altas posses e tal. Acho ótimo que ela fale “eu não sei”. A Marília Gabriela, que é nossa maior apresentadora, me falou uma coisa muito legal: “Se o entrevistado falar uma coisa que você não entende, não finja que entendeu, pergunta o que ele quis dizer. Se você não entendeu, provavelmente o público também não.” Pensei: “Caraca, a Marília Gabriela, uma mulher cultíssima, inteligente, entrevistando gente há décadas”… Ela me disse para não ter vergonha de dizer “não sei”, “não li”, “não ouvi”, porque aí o público que está assistindo também pensa: “que bom, não sou o único…”

Para tocar tantos projetos ao mesmo tempo você precisa estar ligado em tudo, consumindo informação de todos os lados. Como você passa o seu tempo livre? Com séries, livros, revistas? Com que tipo de conteúdo você se abastece?
Eu consumo tudo. Lícito [risos] Leio muito, adoro ler. Estou lendo “Dom Quixote” e a, ao mesmo tempo, a autobiografia do Woody Allen em inglês, para treinar. Assisto a séries de todos os tipos, não só as cômicas, e várias ao mesmo tempo. Estou vendo “After Life”, “Dead to Me”, que é uma “dramédia” (drama e comédia ao mesmo tempo) para entender como se faz isso. Tenho visto muitos filmes antigos que foram citados nas aulas de roteiro que fiz no início do ano na UCLA (Universidade da Califórnia), em Los Angeles. Vejo em média um filme por dia e dois episódios de série, desde “Nada Ortodoxa” até produções brasileiras, como “Um Contra Todos”. Leio jornais, revistas, sites. O cérebro vai guardando tudo e fazendo as sinapses conscientes e inconscientes que acabam gerando ideias.

Muitos artistas preferem ter uma abordagem intuitiva, autodidata, mas você gosta de valorizar esse lado mais acadêmico. Você faz cursos no exterior, é formado em Artes Cênicas. É importante ter uma preparação mais formal para fazer humor?
Totalmente. Acho importante. Não dá para ser guiado só pela teoria, mas é bom ter a teoria como ponto de partida. Dou muito valor a ler, aprender, ouvir quem sabe mais. Uma das coisas de que mais me orgulho nessa minha breve carreira é de ter me juntado a gente muito boa. Tento fazer parcerias com profissionais que admiro, como a Tatá Werneck, Dani Calabresa, Miá Mello, mulheres engraçadas, inteligentes, rápidas. Quando você se junta aos bons, você absorve o que essas pessoas têm.

Você participou do grupo “Comédia em Pé”, em 2005, uma turma pioneira do stand-up no Brasil. O formato, no entanto, existe há séculos, contar histórias para uma platéia é provavelmente a forma de entretenimento mais antiga da história. Por que o stand-up demorou tanto para chegar no Brasil? E por que você optou por começar por ele?
O stand-up nos Estados Unidos já existe há 70 anos. Aqui a gente tem stand-up desde Jô Soares, Chico Anysio, Zé Vasconcelos, mas há uma diferença: o texto. Eles contavam piadas, textos deles e dos outros. Isso não tira o mérito, era genial. Mas essa geração de 2006 e 2007 passou a ser muito autoral, só apresentava textos próprios. Aí que foi a virada do stand-up. Novas cabeças fazendo novos textos, piadas que você nunca ouviu. Porque a piada do Joãozinho, do português, da loura, todo mundo já tinha visto. É engraçado, o pessoal ri. Mas as piadas que eu conto, só eu fiz. E aí veio essa geração poderosa, avassaladora, com Marcelo Adnet, Tatá Werneck, Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Dani Calabresa, Porta dos Fundos. Teve também uma ajudinha importante do YouTube, que estava surgindo e foi fundamental para que se tomasse conhecimento dessa nova geração. A TV estava careta, o próprio “Casseta & Planeta”, que sempre foi vanguarda, estava começando a cair na mesmice.

Você fez parte do Zorra Total, mas ficou mais conhecido na internet com os vídeos do Porta dos Fundos. Qual a diferença entre o humor na TV e na internet? O que aconteceu com os humoristas da TV, eles não perceberam que aquele tipo de humor estava ficando velho?
Tem duas TVs, a TV fechada e a aberta. Pensando em TV aberta, estava funcionando. O “Zorra Total” dava 30 pontos de Ibope. A “Praça É Nossa” às vezes ainda é líder, dá 12 pontos dnuma quinta-feira à meia-noite. Tem atores muito bons, comediantes da nova e da velha geração misturados. Os bordões funcionavam, eram populares: “ Olha a faca!”, “Isso é uma bichona!”. Mas a televisão acabou não saindo da própria bolha. Como estava dando dinheiro e audiência, foi ficando. E no mundo lá fora havia uma demanda por outro tipo de comédia, além de comediantes que queriam fazer outro tipo de humor. Estava iminente que isso ia estourar, mas a TV recusou isso. O “Junto e Misturado”, programa na Globo que fiz com o Bruno Mazzeo, Gregório e Ian SBF, diretor do Porta dos Fundos, teve uma temporada escondida depois do Globo Repórter e foi cortado no meio da segunda temporada: “Ninguém vai entender, é humor de nicho”, diziam. Saímos de lá e fizemos o “Porta dos Fundos”, que se tornou um projeto muito popular, hoje temos mais de seis bilhões de visualizações.

Os humoristas do passado não precisavam se preocupar com o politicamente correto, como acontece hoje. Fica mais difícil fazer humor quando você tem que pensar que nas coisas que não pode dizer?
Não é mais difícil, mas dá mais trabalho fazer um humor inovador, que olhe para o futuro, não para o passado. Pode-se fazer humor com qualquer tema, de qualquer jeito, com qualquer pessoa, do mais proibido e agressivo ao mais leve e bobalhão. Mas fazer piada rindo que “mulher é burra”, a “bichinha”, o “crioulo”, esse é o tipo de humor que se fazia nos anos 1970, 1980 e que já acabou. Quero fazer o humor que se faz em 2020 e que não se faz ainda em 2022. O politicamente correto vem para ajudar a gente enquanto artistas. Não adianta ser hipócrita e dizer: “isso não pode, não tem graça”. Tem. Você pode fazer as piadas mais maldosas do mundo e ter graça. Mas você pode falar: não quero mais rir disso. Tanto é que as pessoas faziam piadas racistas e era engraçado. Lógico, para os brancos, não para os negros. A pior coisa que você pode fazer é falar assim: “Não vou fazer piadas com os gays, com os cadeirantes, coitados deles”. Ninguém é coitado. Se você falar para um cadeirante que ele é coitado, ele te dá um tapa na cara. Temos que incluir as pessoas, elas gostam de estar na piada. Claro que não gostam de ser humilhadas, de ter o ódio incitado contra quem elas são. E é isso que está acontecendo hoje em dia.

Você está com 36 anos e já fez muitas coisas: séries, filmes, essa história das lives, entrevistas. O que se imagina fazendo no futuro? O que ainda poderia despertar algum desafio na sua vida profissional?
Eu quero escrever para fora, produzir nos Estados Unidos. Quero que o meu conteúdo chegue ao exterior, que o “Porta dos Fundos” se espalhe pelo mundo. Me vejo ainda como comediante, mas também como apresentador. Acho que tenho como galgar esses espaços. Não sei ainda que tipo de programa, mas quero ficar atento ao que está acontecendo para poder cada vez mais mudar formatos, lançar coisas diferentes. Meu futuro é não ser mais do mesmo.

O que você acha da forma com que o governo do presidente Jair Bolsonaro trata a questão da Cultura?
É uma pena que o Bolsonaro não governa, ele se vinga. A indústria do entretenimento traz lucro. Seria muito burro da parte de qualquer governante prejudicar uma indústria que traz dinheiro. De cada R$ 1 investido na cultura, volta R$ 1,6 para o governo. Se você está ganhando dinheiro, gerando emprego e cultura, me parece um tipo de lugar onde é melhor não mexer. Mas mexeu. O governo imagina que cultura é o Antônio Fagundes, o Fábio Porchat e o Tony Ramos pegando dinheiro da saúde, colocando na Kombi e dando risadas diabólicas enquanto fumam charutos. Isso é uma ilusão que eles querem criar para incitar o ódio. A cultura é muito mais do que isso. A gente se vê no momento em que tem que explicar para as pessoas por que a cultura é importante para um país. Isso é uma loucura. Quando você lida com a estupidez, ela não é racional. Você não tem muito como argumentar. O idiota acredita no que fala e fica impossível dialogar. É muito desesperador. O que os profissionais de teatro e de cinema têm passado é muito duro. Eu tenho condições de me manter, mas estou falando dos outros 95% da classe, bilheteiros, camareiros, atores. Essas pessoas estão desassistidas, são famílias que não têm como ter esse sustento.
E esse governo está, para usar uma expressão bonita, “cagando baldes”. No fim das contas, ele está matando essas pessoas.

Você fala de uma maneira bem organizada no sentido de classe. Já pensou em ter uma função pública nesse sentido? Não no governo atual, mas você se imagina colaborando de alguma maneira no futuro?
Em princípio, não, porque, no final das contas, é quase como arranjar sarna para se coçar. Gosto de estar envolvido, colaborar, pensar cultura. Acho super legal, fundamental, entrevistar pessoas do meio, ouvir o que elas têm a dizer. Agora, publicamente, com 36 anos, eu diria que não tenho esse interesse. “Ah, mas com 60 anos você vai querer?”
Eu não sei se o Gilberto Gil sempre quis ser ministro da Cultura, mas quando foi, foi um excelente ministro. Tem gente mais preparada que eu. Prefiro apenas dar meus pitacos, é melhor ser torcida do que ser técnico.

O brasileiro tem motivo para continuar rindo hoje em dia? Você consegue pensar em algum?
Não parece, mas a gente está evoluindo. Nossa democracia está amadurecendo, as pessoas estão debatendo, conversando. Independente do lado, as pessoas estão falando mais sobre política, entendendo como funciona essa democracia tão jovem que é o nosso país. Acho isso positivo. Infelizmente, estamos tendo que passar pelos “Bolsonaros” da vida, o que é muito ruim. Ficou provado que despreparo, burrice e ignorância são tão nocivos para o país quanto a corrupção. E tudo isso aliado à milícia potencializa ainda mais. Temos que entender que não existe salvador da pátria. Quando o país passa por uma crise como essa e tem um débil mental no governo, o que resta é um país desgovernado. Precisamos aprender, daqui a pouco teremos eleições. Vamos votar, tirar esse cara, pensar em formas de melhorar, botar outra pessoa. “É preciso estar atento e forte”. É a frase que tem que nos reger.

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