Bolsonaro ganha tempo

Quando Fiori Gigliotti, sempre no segundo tempo — e já próximo do final do jogo —, dizia, com sua voz inconfundível: “O tempo passa torcida brasileira!”, uma angústia tomava conta do torcedor que estava ouvindo seu time ser derrotado. O “passa” era alongado, significando que o fim da partida estava chegando e a derrota se avizinhava. Este é o sentimento em relação ao atual momento político brasileiro. O tempo passa e Jair Bolsonaro ganha uma sobrevida. Quer, a todo custo, chegar a 2022 no cargo de presidente da República. Sabe que aí ganhará uma espécie de salvo-conduto — faça o que fizer — para as eleições de outubro. E sua permanência no cargo, associada à sua candidatura à reeleição, vai transformar o processo eleitoral em um cenário de guerra, de guerra civil. Essa é a sua estratégia: chegar a 2022 e impedir que o País possa encontrar nas eleições um caminho democrático e civilizatório para enfrentar na terceira década do século XXI os graves problemas nacionais.

Jair Bolsonaro sabe que não tem nenhuma chance de se reeleger. A cada dia fica mais claro seu isolamento político. O Sete de Setembro foi seu dobre de finados. Lá ficou patente que conta com o apoio de apenas um grupo de fanáticos, extremistas, nazifascistas, e que isto não basta para que possa ser reconduzido à Presidência da República. As ameaças golpistas também não impactam mais o cenário político. Depois de tanto falar, propagar aos quatro ventos que iria confrontar os outros Poderes, especialmente o STF, que as Forças Armadas estavam a serviço do seu projeto golpista, teve de se sujeitar a assinar um pífio documento, intitulado Declaração à Nação, que desagradou seus mais fiéis seguidores. Se o recuo permitiu ganhar tempo, por outro lado demonstrou que a virulência verbal não se coadunou com a ação política.

O presidente sabe que não tem nenhuma chance de se reeleger. A cada dia fica mais claro seu isolamento político. O Sete de Setembro foi seu dobre de finados

Nada indica que a relativa timidez discursiva de Bolsonaro deva permanecer. Tudo depende de variáveis que ele não tem controle. O relatório da CPI da Pandemia pode elevar a temperatura política — e, neste caso, teremos um final de mês bastante agitado. A piora progressiva dos indicadores econômicos deve aumentar a impopularidade presidencial e novos acessos autoritários vão estar presentes nos discursos de Bolsonaro. Além das investigações sobre ações criminosas da família, principalmente no Rio de Janeiro. As manifestações de 15 de novembro poderão servir como termômetro do que o País poderá aguardar até o final do ano. Mas cada dia que Bolsonaro se mantém no poder, quem perde é o Brasil.


Sobre o autor

Marco Antônio Villa é historiador, escritor e comentarista da Jovem Pan e TV Cultura. Professor da Universidade Federal de São Carlos (1993-2013) e da Universidade Federal de Ouro Preto (1985-1993). É Bacharel (USP) e Licenciado em História (USP), Mestre em Sociologia (USP) e Doutor em História (USP)


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