Bolsonaro faz um governo das sombras

Está ganhando corpo na CPI da Covid a convicção de que Bolsonaro criou um “gabinete das sombras” para lidar com a pandemia. Isso explica o desmanche no Ministério da Saúde, que já está no quarto titular — e Marcelo Queiroga começa a balançar. Ou seja, a condução da maior crise sanitária em um século foi repassada a aloprados sem qualquer qualificação técnica que trabalham longe dos olhos da opinião pública e à revelia do corpo institucional. Vem daí a “estratégia cloroquina”, placebo destinado a enganar a população e manter a aparência de controle sobre a situação.

É o mesmo modus operandi do gabinete do ódio, que faz na prática a comunicação oficial do mandatário. Além de ignorar qualquer prática civilizada de diálogo com a sociedade, o grupelho se volta contra a própria imprensa, transformada em “inimiga”. Opera nos subterrâneos das redes sociais, com o uso de robôs, verbas suspeitas e fake news, uma armação que está na mira do STF.

Nas sombras também está o Orçamento. A revelação de que o presidente desviou uma fatia bilionária das receitas públicas para influir na eleição da cúpula do Congresso elucidou uma passagem oculta. O escândalo é uma nova versão do Mensalão e do Petrolão, ou seja, mais um esquema para desviar dinheiro público e comprar o apoio de parlamentares. Esse Orçamento secreto já estava em andamento enquanto o “oficial” era negociado, com o “inconveniente” de passar pelo crivo dos órgãos de controle, do Congresso, do STF e da população. Até uma Abin paralela, o “sistema particular” de informações de Bolsonaro, formado por um grupo de figuras sinistras espalhadas pelo País, já opera ao arrepio da lei.

A condução da pandemia foi repassada a aloprados que trabalham longe dos olhos da opinião pública, como em outras áreas da administração

O presidente investe num Estado paralelo para evitar as restrições do arcabouço constitucional. Confrontado com a operação subterrânea, ele desconversa ou mente. O gabinete do ódio, para ele, é o “gabinete da liberdade”. A revelação das verbas clandestinas é coisa de “jornalistas canalhas”. Gerou até a ameaça de uma “intervenção civil”, seja lá o que isso signifique. Mas a CPI já se prova útil. Começa a vergar o bolsonarismo, como atestam as centenas de vídeos negacionistas apagados às pressas. A comissão expõe a atuação paraestatal que funcionava na penumbra, alimentando o vírus. Prova na prática a eficácia do elixir de Louise Brandeis, descoberto há cem anos. O juiz americano ensinou que a luz do sol é o melhor desinfetante para qualquer governo.


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