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Bolsonaro escolhe ser derrotado

Um dos únicos líderes a não reconhecer a vitória de Biden, o presidente se isola ao lado de ditadores e vira motivo de chacota ao ameaçar “usar a pólvora” contra os EUA

Crédito:  siga@badboypreto

AMOR Recriação do beijo dos líderes comunistas Gorbatchev e Honecker: “I love you”, disse Bolsonaro a Trump (Crédito: siga@badboypreto)

A política externa bolsonarista é uma sucessão de equívocos e improvisações desde o início da gestão, como se sabe. Nas eleições americanas, a transformação mais importante na geopolítica mundial nos últimos quatro anos, não devia ser surpresa que Jair Bolsonaro tomasse o caminho errado. Conseguiu, e de forma espetacular. Apoiou o candidato derrotado, mais uma vez interferindo em assuntos de outro país, assistiu seu filho denunciar levianamente fraudes nas eleições e por fim se negou a reconhecer a vitória de Joe Biden. Ficou ao lado do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, de Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e Andrés Manuel López Obrador (México). Até Boris Johnson, primeiro-ministro que deve a Donald Trump um apoio generoso para aprovar o Brexit, apressou-se a parabenizar Biden. Como o britânico, o mundo em peso já começou a preparar o terreno para o pós-trumpismo.

Mas não Bolsonaro, que mais uma vez ficou do lado errado da história. Todos esses líderes tiveram uma relação íntima com Trump. Beneficiaram-se de movimentos erráticos da diplomacia americana, que agora mudará completamente suas diretrizes. Trump se afastou das organizações multilaterais e se aproximou de autocratas. Tentou manter relações íntimas com o líder chinês Xi Jinping, mas depois tentou transformá-lo em bode expiatório quando percebeu que não conseguiria conter a expansão do maior rival econômico. Inspirou populistas como o turco Recep Erdogan, o húngaro Viktor Orbán e o polonês Andrzej Duda. Todos agora perderão sua grande referência internacional.

AFINIDADE Donald Trump recebe Jair Bolsonaro na Casa Branca, em 2019. O brasileiro declarou apoio nas eleições dos EUA, quebrando o protocolo diplomático (Crédito:Divulgação)

Subserviência

O caso de Bolsonaro é ainda pior. Praticou subserviência com objetivos ideológicos. Cedeu em questões ligadas ao aço, ao alumínio e ao etanol, prejudicando os produtores brasileiros, sem obter nenhuma contrapartida. Eliminou a necessidade de vistos dos turistas americanos, ignorando a reciprocidade que o Itamaraty sempre exigiu. Tentou alçar o filho, Eduardo Bolsonaro, ao cargo de embaixador em Washington, sem que tivesse qualificação. No fim, tamanha vassalagem serviu apenas para tentar legitimar o bolsonarismo como uma vertente do populismo que alçou Trump ao poder. Sem Trump, o brasileiro se torna um pária na cena internacional. Cumpre a profecia autorrealizável confessada pelo chanceler Ernesto Araújo.

O novo mundo pós-Trump coloca Bolsonaro em xeque. Como fenômeno, o bolsonarismo passa a ficar manco, como um movimento populista e personalista local. Sua cruzada antiecológica bate de frente com uma das principais bandeiras do novo governo americano, a preservação ambiental. Na campanha americana, Biden já avisou que haverá sanções econômicas se o desmatamento e as queimadas não foram contidas na Amazônia. A reação do brasileiro aos planos do novo presidente alarmou os militares que ainda se preocupam com a preservação da imagem do Exército depois do casamento da caserna com o bolsonarismo. “Uma solução apenas pela diplomacia não dá.

Depois que acabar a saliva tem que ter pólvora. Não precisa nem usar a pólvora, mas tem que saber que tem”, afirmou Bolsonaro na terça-feira, 10. A frase foi ridicularizada e gerou inúmeros memes nas redes. No mesmo dia, o embaixador americano celebrou os fuzileiros navais dos EUA com imagens deles na Esplanada dos Ministérios e no Rio. A embaixada depois negou que fosse uma resposta à fala de Bolsonaro, mas a associação já tinha sido feita: é ridículo ameaçar usar a força contra o poderio americano.

O vice-presidente Hamilton Mourão, que é o novo responsável pela ação governamental na Amazônia, ainda tentou botar panos quentes na desastrada declaração bélica: “O presidente se referiu a um aforisma antigo”. Ao ser questionado pela demora no reconhecimento, tentou contemporizar e disse que ele seria feito “na hora certa” e que “prudência é bom”. Tamanho esforço diplomático desmoralizou mais uma vez os militares brasileiros. Bolsonaro o desautorizou, dizendo que não consulta Mourão para assuntos relacionados à Amazônia nem para qualquer outro tema. Essa é a forma de governar do Trump dos trópicos.