Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

Bolsonaro e seus demônios

Sabe-se que o presidente Jair Bolsonaro só governa pelas mídias sociais. No fim de semana passado, ele publicou em seu Twitter uma carta ameaçadora, atribuída ao investidor Paulo Portinho, filiado ao Partido Novo, e distribuiu pelo WhatsApp um vídeo esquisito de um pastor congolês residente na França chamado Steve Kunda. Na primeira publicação, os inimigos de Bolsonaro eram identificados com as “corporações”, que incluem “políticos, servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder”. Segundo o texto, a pressão que o mandatário sofre envolve resistências das corporações e do Congresso, que o impedem de aprovar medidas renovadoras, dificultando a governabilidade. Ele sugere que os processos democráticos são empecilhos para governar.

Na segunda mensagem, Kunda afirma que Bolsonaro é um presidente “escolhido por Deus” para guiar o Brasil. O desconhecido pastor cobra apoio a Bolsonaro e pede que não se façam críticas nem oposição ao presidente para não agredir sua aura divina. “Na história da Bíblia houve políticos que foram estabelecidos por Deus. Um exemplo é o imperador persa Ciro. Antes de seu nascimento, Deus fala através de Isaías: ‘Eu escolho meu servo Ciro’. E o senhor Jair Bolsonaro é o Ciro do Brasil. Você querendo ou não”, diz Kunda.

A carta de Portinho e o vídeo de Kunda são imensas tolices que apontam para um desejo de teocracia autoritária na qual o incompreendido Bolsonaro, iluminado por Deus, deseja tomar o poder para governar sem amarras. As “corporações” estariam contra o presidente e seus desígnios tal como as forças que Jânio Quadros chamou de “terríveis” e “ocultas” em seu tempo. Bolsonaro é um ungido, se chama Messias, foi batizado no Rio Jordão e, portanto, quem lhe fizer oposição pode ser identificado com as forças do mal.

O fato é que Bolsonaro é um Messias precário, que não está conseguindo lidar com os demônios que o perturbam. As “corporações” e a “velha política” que ele denuncia fazem parte do jogo democrático e não podem ser confundidas com Belzebu, Asmodeus ou Lúcifer. A verdade é que ninguém inviabiliza seu governo, a não ser ele mesmo. Quem está contra ele, está contra Deus é um raciocínio estranho e perigoso. Bolsonaro quer estabelecer uma disputa do bem contra o mal, na qual ele representa o lado certo. E o inferno são os outros. Mentira. Tudo pode parecer misterioso, mas, no fundo, é só uma forma de esconder a própria incompetência.

Presidente é um ungido, se chama Messias e foi batizado no Rio Jordão. Quem lhe fizer oposição é das forças do mal


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