Semanal

Bolsonaro e Guedes: abraço dos afogados

Bolsonaro e Guedes: abraço dos afogados

O ministro Paulo Guedes disse ontem que sempre “que está morrendo afogado”, o presidente Bolsonaro aparece e o salva. Se referia à caótica sexta-feira passada, quando o mercado já dava como certa sua queda e a demissão do Ministério. Já se falava até em nomes para substituí-lo. O mais forte era o de Mansueto Almeida, seu ex-chefe do Tesouro, e que hoje trabalha no banco BTG Pactual, de seu amigo André Esteves, que um dia também já foi seu patrão.

Esteves hoje é uma eminência parda no governo e muitos o consultam sobre a condução da economia, entre eles o próprio Guedes. Mas o certo é que na última sexta-feira negra, quem apareceu para salvá-lo não foi Esteves, mas o foi o seu super-herói favorito, presidente Bolsonaro, como o próprio ministro fez questão de dizer nesta segunda-feira, durante o lançamento do Plano de Crescimento Verde.

Pois bem, na sexta passada, com Guedes agonizando por ter dito que aceitava furar o teto de gastos para o presidente conceder “R$ 30 e poucos bilhões”, como disse ele, para as 14 milhões de famílias famintas do Bolsa Família, agora rebatizado de Auxílio Brasil, quem apareceu para lhe salvar da degola foram os integrantes do clã que hoje dirige o Brasil. Bolsonaro e seu filho 01, o senador Flávio, foram para o Ministério e jogaram uma bóia de salvação para o ministro, que estava “morrendo afogado”.

Em entrevista coletiva ao lado de Guedes, Bolsonaro disse que os dois “sairiam juntos” do governo. Flávio, sentado à primeira fila da constrangedora entrevista, na qual o pai apareceu para salvar o ministro-comparsa, portava-se como avalista da manutenção de Guedes no governo.

Ok, Guedes não caiu desta vez, como não caiu nas outras vezes em que esteve balançando. Até aqui, Bolsonaro sempre surgiu para tirá-lo da forca. Ou seja, é o chamado abraço dos afogados, que é aquilo quando alguém tenta salvar do afogamento uma pessoa que se debate na água e, sem conseguirem nadar até a praia, morrem os dois afogados.

Com a política equivocada que Bolsonaro e Guedes estão desenvolvendo, fatalmente os dois morrerão afogados e não conseguirão sobreviver. Do jeito que a economia vai, Guedes afunda o País antes das eleições e não permitirá que Bolsonaro se reeleja. Ainda bem.

Basta ver que a inflação está acima de 10%, os juros da Selic subirão amanhã mais do que 1% (podem ter uma alta de 1,5%), o desemprego é recorde, com mais de 14 milhões de trabalhadores sem emprego, os derivados do petróleo já subiram mais de 75% este ano (só ontem o Diesel aumentou 9% e a gasolina 7%) e, pior, o PIB do ano que vem será um desastre.

O governo falava em crescimento de 2,5% para o ano que vem, mas agora o respeitável Banco Itaú já fala que o Produto Interno Bruto não crescerá mais do que 0,5%. Muitos economistas já falam na estagflação, que é quando se tem inflação acelerada com baixo crescimento. É a chamada tempestade perfeita na economia.

Além disso, temos as reformas paradas no Congresso, diante de um governo sem articulação política, embora o Centrão esteja lhe enfiando a faca para tirar o máximo que pode do orçamento secreto, para que os deputados mamem nas tetas da União e possam tocar suas campanhas eleitorais no ano que vem. Mas o pior de tudo isso mesmo é o descontrole das contas públicas, com esses furas tetos no comando.

Antes, Guedes falava que não permitiria o descontrole dos gastos públicos e resistia ao ímpeto gastador de Bolsonaro, que desejava torrar o dinheiro público para se reeleger. Muitos ministros, como Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) incentivavam o fura teto, para o estarrecimento de Guedes.

Agora, o ministro cedeu às pressões de Bolsonaro e vai promover uma grande queima de retalhos para que o seu salvador da pátria possa continuar a tirá-lo vivo da água. Pelo visto, os dois morrerão mesmo afogados e abraçados.