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Bolsonaro dribla a lei e usa a máquina pública

Bolsonaro dribla a lei e usa a máquina pública

Presidente Jair Bolsonaro durante evento no Palácio do Planalto

É bem verdade que Jair Bolsonaro colocou a pré-campanha na rua ainda em 2021, após o Supremo Tribunal Federal anular todas as condenações de Lula, seu principal adversário político, na Lava Jato. O ritmo das aparições do presidente da República em eventos de cunho eleitoral, no entanto, nunca foi tão intenso. Em apenas 30 dias, entre 18 de abril e 17 de maio, Bolsonaro peregrinou por 15 municípios, divididos entre 11 estados, segundo levantamento realizado por ISTOÉ. Na prática, é como se, em um a cada dois dias, ele deixasse os afazeres em Brasília de lado para subir em palanques pelo país.

Bolsonaro usa a máquina pública para fazer propaganda dele próprio ancorado na certeza da impunidade. O entorno político do presidente calcula que, em meio à crise institucional, para não esticar a corda, o Tribunal Superior Eleitoral evitará a abertura de investigações e não vai cogitar sanções ao chefe do Planalto, ao menos por ora. A campanha de Bolsonaro vale-se, ainda, da fragilidade da lei e da jurisprudência da Justiça Eleitoral, que proíbe somente o pedido de voto de forma explícita antes do início oficial da campanha, em 16 de agosto — a leniência tem sido tamanha que a Procuradoria não viu crime na promoção de motociatas pelo Planalto e o TSE negou a remoção de outdoors em defesa do presidente.


Com o campo livre, o capitão não tem dado ponto sem nó. Por óbvio, as viagens aproximam o mandatário do eleitorado. Mas há mais por trás do empenho em ampliar as agendas. Aos microfones das cerimônias que mais parecem comícios, ele dita a agenda política do Brasil e engaja a militância. O presidente o fez, por exemplo, nesta semana. Na segunda-feira, aos berros, voltou a levantar suspeitas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas, afirmou que jamais será preso e falou em “mexer peças no tabuleiro” da Petrobras, muito embora saiba que trocas de diretores ou mesmo do comando da estatal não resultarão na queda dos preços dos combustíveis. Um dia depois, defendeu o armamento da população civil para que, nas palavras dele, haja uma “garantia de que a nossa democracia será preservada”.

Além de animar a claque do Planalto, a verborragia do presidente retira dos holofotes os assuntos para os quais o governo corta um dobrado para encontrar justificativas plausíveis, como a inflação galopante, o desemprego recorde e a desvalorização do poder de compra a partir do salário mínimo. A conta é simples: se as instituições precisam se defender todos os dias e pregar o respeito à democracia, faltam tempo e espaço para tratar dos efetivos problemas do país, que, assim, segue à deriva.

É nos palanques, ainda, que Bolsonaro dá impulso à polarização. Ao microfone, ele costuma declarar que “o ladrão de nove dedos”, expressão à qual recorre para se referir a Lula, “quer voltar à cena do crime” e se vende como o único antídoto contra a retomada do poder pelo PT, apesar de diferentes espectros políticos contarem com uma ampla gama de opções, como Ciro Gomes, João Doria, Simone Tebet e André Janones. O presidente adota a tática pela ciência de que o crescimento da maioria desses candidatos lhe renderia a perda de votos.

Mas não é só. Quanto mais estrada o capitão percorrer antes de 16 de agosto, melhor para o seu partido. Explico: a lei estabelece que cabe à sigla do presidente-candidato o custeio das despesas dele com o uso de transporte oficial. Ou seja, após o início formal da campanha, o PL terá de passar a ressarcir aos cofres públicos o dinheiro gasto com cada embarque de Bolsonaro em aviões da Força Aérea Brasileira. Nos bastidores, aliados de primeira hora do Planalto admitem que o presidente não deve visitar todos os estados do país no segundo semestre e, pensando isso, engrossou o cronograma dos últimos meses.

Não custa dizer que a intensa agenda eleitoral paga pelo contribuinte e os discursos descolados da realidade demonstram o pouco caso com o qual Bolsonaro trata a população. Se atuasse como um governante, ele estaria centrado na resolução dos problemas do país real, no qual grande parte dos brasileiros troca a carne por ossos, briga por cebolas no supermercado e se arrisca cozinhando com álcool. Hoje, no entanto, o presidente encarna apenas o papel de candidato — e com uma insaciável sede de poder.