Edição nº2585 11/07 Ver edições anteriores

Bolsonaro deveria ir pescar

Crédito: Divulgação

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Fator de instabilidade constante, foco das maiores destemperanças verbais e atos estabanados, o mandatário tem agora atemorizado parlamentares com suas demandas corporativistas que não cessam. Fez de tudo pelos policiais até o último momento. Deu acenos aos evangélicos, afrouxando suas obrigações fiscais. Retirou militares da facada mais dura na Reforma da Previdência. E isso tudo dentro de um conceito, largamente difundido e incorporado pelo próprio governo, de que a reforma iria acabar com os atuais privilégios e igualar as regras aplicadas a servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada. Bolsonaro parece um candidato em campanha, muito mais que um chefe da Nação. Governa para grupos, menospreza instituições, dá de ombros para as autênticas prioridades da população em geral. No que tange ao papel de presidente, ele tem sido um desaglutinador de ideias ao invés de maestro do entendimento, como deveria. Faz de tudo para sabotar o País enquanto brinca de mandar quebrando princípios constituídos. Outro dia defendeu a prática do trabalho infantil, fazendo apologia a uma ilegalidade prevista na Constituição. Rebelou-se contra a demarcação de terras indígenas, também estabelecida em lei, e desdenhou dos índices estatísticos de institutos oficiais como o IBGE. Mais adiante comparou o Brasil a “uma virgem que todo tarado de fora quer”. Na prática insinuou que o mundo está repleto de maníacos sexuais no comando dos países parceiros – numa quebra gritante de protocolo diplomático e ofensa direta aos chefes das demais nações. Demonstra, dia a dia, não entender o peso das palavras e a liturgia do cargo que ocupa. Mesmo a base aliada do presidente trabalha arduamente para que, daqui pela frente, ele ao menos não atrapalhe os trabalhos legislativos e as articulações em curso pelo entendimento. Risco premente e incessante. O Congresso dá no momento as cartas, impõe diretrizes, assumiu a responsabilidade de tocar os assuntos estruturais para evitar o desarranjo sonhado pelo Poder Executivo. Senadores e deputados no controle das duas casas legislativas dizem com todas as letras que não irão transpor um milímetro as regras vigentes para atender aos anseios passionais do ”Mito”. O novo projeto de armamento, reenviado pelo governo, não passará pelo crivo nas bases colocadas.

Também estão fora de cogitação as mexidas no Código Florestal, a agenda de alterações no trânsito que ameaçam a segurança e uma lista sem fim de demandas de costumes do capitão reformado. Seria melhor que ele saísse para pescar (em local autorizado, evitando levar novas multas), enquanto as instituições tentam manter o País funcionando na normalidade. Quando o presidente anuncia que pretende “corrigir equívocos” no texto final da reforma para incluir aposentadorias especiais, quando afirma que vai colocar um ministro “terrivelmente evangélico” no Supremo – enquanto deveria se preocupar que ele fosse “terrivelmente” eficiente e competente, não importando o viés religioso -, quando ele persegue servidores ou os demite por motivos ideológicos, está gerando instabilidades em série. No limite, diante das estultices, Senado e Câmara ensaiam um rompimento, a “separação de corpos”, caso o Executivo sob jugo de Bolsonaro insista no desdém, deixando de negociar, dividir e adaptar os planos ao que é legal e de interesse da maioria dos brasileiros. A eventual ruptura viria justamente em um momento no qual a aprovação ao governo se encontra no patamar mais baixo. Jamais, desde Collor – que praticou o confisco e saiu impichado -, um presidente foi tão mal avaliado nos primeiros seis meses de mandato como Jair Bolsonaro. O capitão reformado já entendeu que o Congresso pensa seriamente em “divórcio”, deixando-o de lado e reclamou dias atrás que querem transformá-lo em uma “rainha da Inglaterra” sem mandar. Mal percebe, no entanto, que são os próprios caprichos que o estão colocando na posição de isolamento. Em um esforço destrambelhado para virar o quadro e responder ao movimento, partiu à ofensiva alegando que o povo, “meu patrão”, estava acima das instituições e que por ter sido legitimamente eleito devia lealdade absoluta a ele, podendo fazer em seu nome o que é devido. Esqueceu-se de que nesse aspecto não foi o único. Senadores e deputados chegaram pelo voto ao Congresso – considerada a verdadeira “casa do povo”. E tanto como Bolsonaro representam os anseios de diversos eleitores. Na contabilidade fria dos números, o “Mito” somou 38% de apoio no colégio eleitoral para alcançar o Planalto (muitos optaram por ele por falta de alternativas, não por serem seguidores fanáticos). O restante ou votou no adversário, ou anulou ou deixou de exercer o direito e está a reboque das deliberações do mandatário, mesmo não concordando com muitas delas, como mostra a pesquisa da ”Folha de S. Paulo” divulgada na semana passada. Nesse contexto seria mesmo aconselhável a pescaria para espairecer ou ensaiar uma volta ao presidencialismo de coalizão, sem o qual pode até mandar embalado pela claque de torcedores, mas não governa.

 


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