O Dia

Bolsonaro deveria aprender a rever decisões erradas

Mesmo diante da desaprovação geral da nação, o presidente não desiste de fazer de seu filho embaixador em Washington

É possível contar nos dedos de uma das mãos os que estão satisfeitos com a indicação de Eduardo Bolsonaro para ocupar o posto de embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Aí vai a lista: o presidente americano Donald Trump, que terá ainda mais facilidade para fazer valer os interesses dos Estados Unidos junto ao Brasil; o ministro Ernesto Araújo, porque fica satisfeito com tudo o que Jair Bolsonaro ordena e o presidente brasileiro, que teve a brilhante ideia. Talvez nem o próprio Eduardo esteja feliz com a situação. A opinião pública nacional, já se sabe, não concorda. A pesquisa mais recente, feita pela empresa Dados Quaest com 1.500 pessoas, entre 17 e 18 de agosto, revela que 72% dos entrevistados discordam total ou
parcialmente da indicação do filho do presidente à embaixada de Washington.
A tarefa de fazer o nome de Eduardo passar pelo crivo do Senado já pareceu mais viável. Nos últimos dias, a contagem de senadores a favor dele revelou que faltam apoios para deixar o presidente tranquilo. Ainda mais quando se leva em conta que a questão será decidida em voto secreto. Não é incomum que nesse ambiente surjam “traições” de última hora. Por isso, Jair disse ontem que “tudo é possível”, ao ser perguntado sobre abandonar a ideia. Explicou que não quer submeter o filho a um “fracasso”.
Imaginou-se até que desistiria da ideia bizarra. Mas hoje voltou a ser o Bolsonaro de sempre, que quando tem alguma ação ou intenção criticada reafirma o engano até o fim, como se voltar atrás fosse para os fracos. “O Eduardo vai ser apresentado ao Senado, não tem recuo”, declarou o presidente, em coletiva realizada esta manhã, no Palácio da Alvorada. “Eduardo está estudando, se preparando. Vai ser uma sabatina onde todos vocês vão estar lá, igual urubu na carniça, vai estar todo mundo de olho. Ele tem que fazer uma sabatina melhor até do que se fosse o Ernesto Araújo (ministro das Relações Exteriores)”.
Ao comentar o episódio, o presidente fala como se estivesse tratando da prova de vestibular de um adolescente. Não entende que a função almejada não depende apenas de decorebas e alguns macetes de sala de aula, mas de respeitabilidade e experiência prévia no complexo jogo diplomático. O ex-aliado Gustavo Bebianno, que conhece bem a família, diz que Eduardo “não fala nem inglês, sequer sabe qual seja o papel de um embaixador, questões na OMC (Organização Mundial do Comércio)… ele não faz ideia”.
Nada disso é o bastante para demover Bolsonaro de sua cisma. Nem mesmo a informação de que no levantamento da Dados Quaest até mesmo entre os entrevistados que votaram no capitão 45% são contra a ideia. O presidente Juscelino Kubitschek dizia que costumava voltar atrás quando achava que devia, pois não tinha compromisso com o erro. O mandatário atual deveria aprender a lição com esse seu antecessor.