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Entrevista

Bruno Araújo, Presidente nacional do PSDB

Bolsonaro desperdiçou a lua de mel

Dida Sampaio

Bolsonaro desperdiçou a lua de mel

Germano Oliveira
Edição 07/06/2019 - nº 2580

Quando era deputado pelo PSDB de Pernambuco, em 2016, foi de Bruno Araújo o voto de número 342 que selou o impeachment de Dilma Rousseff. Depois disso, virou ministro das Cidades de Temer e transformou-se em personalidade popular no Recife, onde mora. Mas isso não foi suficiente para eleger-se senador em 2018, embora tivesse sido o mais votado na classe média. O problema é que, como Lula nasceu em Pernambuco, e os mais pobres são maioria no Nordeste, ele teve dificuldades para vencer o PT. Aos 47 anos, porém, manteve-se ativo na política e acaba de ser eleito presidente do PSDB, substituindo Geraldo Alckmin. Objetivo: tornar o PSDB palatável no Nordeste. A tarefa de Araújo, no entanto, continuará árdua: mudar a cara do PSDB e torná-lo um partido com a participação dos mais jovens, já que até aqui os “cabeças brancas” (mais velhos) é que conduziam a sigla. Bruno quer “tirar o PSDB de cima do muro”, adotando posições claras e prepara-se, ainda, para aplainar o caminho do governador João Doria como candidato de consenso à presidência em 2022.

O sr. assume a presidência do PSDB com a missão de construir um novo partido. O que precisa mudar?

Primeiro a clareza de que o PSDB pagou um alto preço pela hesitação. Desde de não ter feito a defesa das grandes realizações do partido, como as privatizações, até de temas que a sociedade cobrava uma posição firme, mas o PSDB hesitou em se posicionar, o que foi criando a caricatura do muro. Isso passou a consolidar a percepção de um partido extremamente frágil.

 

Quando o sr. fala que não haverá mais muro no partido, gostaria de saber qual é a posição em relação ao governo Bolsonaro: o partido apoiará ou será oposição?

Onde houver intolerância, falta de diálogo, obscurantismo, o PSDB vai estar do lado oposto. Dizemos não a uma agenda como essa. Agora, quando as propostas forem de reforma do estado brasileiro, que é o DNA do PSDB, vamos apoiar. O PSDB foi protagonista das mais importantes reformas ao longo da década de 90 e teve importantes serviços prestados ao País. Sempre que o governo Bolsonaro tiver na agenda ações que se aproximem do nosso DNA, terá nossa aprovação, mas, obviamente, o PSDB estará afastado do ambiente de intolerância.

O PSDB será mais dócil ao governo Bolsonaro do que os partidos de oposição?

O Brasil não tem condição de perder tempo com picuinhas e irrelevâncias. O governo Bolsonaro jogou fora cinco meses. Desperdiçou a lua de mel, em que teria os melhores meses para reformar e avançar. O PSDB vai ser colaborativo com as reformas e será o protagonista, em lados opostos se for necessário, quanto aos temas de intolerância e de falta de diálogo.

Quanto à reforma da Previdência, parece que a tendência é do partido fechar questão, obrigando seus parlamentares a votarem a favor. É isso mesmo?

Pela primeira vez na história, tão logo seja apresentado o relatório da Reforma da Previdência, vamos reunir a Executiva, as bancadas de deputados e senadores, para decidir pelo fechamento de questão sobre a reforma, votando a favor. É importante lembrar que a reforma foi formulada no governo Bolsonaro por um ex-deputado tucano, licenciado, Rogério Marinho, brilhante quadro, e relatada por um deputado do PSDB, Samuel Moreira. Então, nós vamos trabalhar pelo fechamento da questão em favor da aprovação da reforma.

O governador João Doria tem apoiado Bolsonaro, mas outros integrantes do partido, como Geraldo Alckmin, não. Alckmin disse que Bolsonaro é oportunista e desleal. Como conviver com esse racha?

O apoio do governador Doria a Bolsonaro tem sido dentro das ideias da agenda do PSDB de reformas. Não tem nada de apoio incondicional ao governo. Doria tem feito ressalvas importantes quando se trata da compreensão de que o governo muitas vezes gera crises desnecessárias e perde o foco do que realmente interessa. Doria, por exemplo, tem cuidado dos projetos que objetivam afastar a crise do País, segurando empresas em São Paulo e gerando empregos.

Doria quer levar o partido mais para a direita, mas o sr. tem dito que o partido ficará ao centro. Qual a posição do partido, centro-direita?

As ações do governador Doria, que são liberais, estão voltadas para dinamizar a economia. Está na natureza de sua formação e o PSDB tem espaço para convivência de posições que mantenham o partido no centro. O PSDB não tem espaço para posições extremas. Na economia, temos posições coerentes com a necessidade de geração de empregos.

O sr. já disse que o partido não terá em suas fileiras ninguém da extrema esquerda e nem da extrema direita. Como será feito esse filtro?

É o filtro dos últimos 30 anos. Não obstante a consolidação da caricatura do muro, o partido não tem tido espaço para extremos. Ao longo da história, a posição do partido é da social democracia, com a compreensão de que temos uma veia reformista na economia, de forma liberal, e de que o estado tem papel fundamental na redução das desigualdades sociais. É um partido que respeita os costumes da sociedade. Partido não constrói costumes na sociedade. A sociedade sim é que constrói costumes e partidos.

A posição de Doria parece ser majoritária no partido, mas há gente no PSDB, como Fernando Henrique, que não está gostando de levar o partido para a direita. Ele pode se distanciar?

novo processo do partido, no ponto de vista de atuação política, tem espaço para o protagonismo das grandes lideranças. O ex-presidente, já na convenção que antecedeu a da minha eleição, disse que aquela seria a última que ele iria. Não podemos cobrar mais do que ele já entregou ao País e ao partido.

Sobre a flexibilização das armas, por exemplo, Bolsonaro quer armar todo mundo, mas Doria é contra. Pode haver um afastamento do PSDB de Bolsonaro nessas questões dos costumes?

Essa questão das armas é um problema de segurança pública. O que discutimos são os excessos. Não estamos questionando o porte de armas em áreas isoladas, na zona rural, onde o armamento tem uma relativa compreensão da sociedade. Estamos falando na regulação da campanha que estimula a utilização de armas indiscriminadamente. Nesse sentido, o governador Doria também está sintonizado conosco.

Já que o governador paulista pretende ser candidato a presidente em 2022 e ele precisará se diferenciar de Bolsonaro, quais seriam as diferenças entre eles?

Primeiro, o governador Doria governa tendo seus secretários como auxiliares, que seguem sua orientação e ele conhece a maioria das demandas para cada área. O que o país está pedindo neste momento, e ele está fazendo em São Paulo, é atrair investimentos para gerar empregos e fazendo o que realmente interessa aos brasileiros. Nos governos FH e Lula, foi entregue toda a agenda de reformas ao Congresso logo nos primeiros meses de governo e não é o que Bolsonaro está fazendo. Ele entregou uma agenda monotemática, que é a reforma previdenciária. Ela é importante, mas há muitos outros aspectos na macroeconomia que precisam ser postos em prática para haver geração de empregos. E Doria, além de sua imensa capacidade de trabalho, entende efetivamente de todas as matérias.

Se for candidato, Doria será mais um paulista a disputar a presidência pelo PSDB, como já foi com FH, Serra e Alckmin. Como fazer para ele ter mais acesso a eleitores do Norte e Nordeste, onde o partido sempre foi fraco?

Ele vai mostrar ao Brasil, a partir do que fez em São Paulo, a capacidade de governança, de gerar emprego, de diálogo, de construir pontes e de ter um projeto de integração onde haja a redução das diferenças regionais.

O sr. defende prévias ou mesmo primárias para a escolha do candidato a presidente. Quando isso poderá acontecer?

Ainda está muito longe, mas se chegarmos a 2021 com um consenso em torno de uma candidatura consolidada, como é a de Doria hoje, o partido vai estar pronto. Mas, nós temos outras importantes lideranças que estão na lembrança do cenário nacional. No quesito prévias, contudo, o governador Doria tem um belíssimo histórico de resultados e vitórias.

O sr. disse que há outros nomes, quem seriam?

Há um desenho natural quanto à participação do governador Doria, não só por ser o governador do maior estado da América Latina, mas por sua capacidade de trabalho e seu arrojo na entrega de resultados e geração de empregos. Mas o partido tem outros quadros, como os outros dois governadores – Reinaldo Azambuja (MS) e Eduardo Leite (RS) – e senadores como Tasso Jereissati e Antonio Anastásia.

Se o governo Bolsonaro continuar propiciando confusões, será mais fácil derrotá-lo em 2022, se ele for candidato à reeleição?

O nosso foco agora não são as eleições. Vamos primeiro aprovar as reformas e ajudar o País a andar pra frente. Mas uma das funções do partido é ajudar o País na solução das crises e vamos oferecer alternativas para isso. Nosso foco é vencer em 2022, mas também as eleições municipais no ano que vem.

O novo PSDB não compactuará com filiados que cometeram crimes de corrupção, mas ainda não expulsou Aécio Neves e nem o ex-governador do Paraná, Beto Richa. Eles serão expulsos?

Nós temos uma regra criada e constituída nesse sentido, com a adoção do novo código de ética, mas cada caso será analisado de acordo com as suas circunstâncias. Nunca vamos fazer nenhum julgamento de ordem penal. Vamos fazer as reflexões de acordo com nosso código de complice. Grande parte dos demais partidos brasileiros têm também seus problemas, mas ninguém discute se o PT deve ou não expulsar o ex-presidente Lula.

O novo PSDB poderá se fundir a outros partidos de centro, como o DEM, MDB, PRB ou PL?

O deputado Rodrigo Maia esteve na convenção nacional do PSDB na qual eu fui eleito, porque é um parceiro de alianças de muitos anos. DEM e PSDB, ao longo dos últimos 30 anos, foram parceiros nacionais históricos. O processo de fusão, no entanto, pode ser discutido em outro momento.

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