Bolsonaro, de noivo rejeitado a casado

Crédito: Divulgação

(Crédito: Divulgação)

E deu-se finalmente o enlace. Como nos casos que envolvem dinheiro, interesses mil e patrimônio, foi um matrimônio, digamos, de conveniência. O capitão Messias Bolsonaro e o mensaleiro-mor, ex-presidiário, Valdemar da Costa Neto, formam agora “uma mesma família”, como fez questão de frisar o noivo-mandatário no dia do sim em pleno altar do partido PL, que o abraçou como filho desgarrado. Claro, antes ocorreram brigas, xingamentos de lado a lado, demonstrações de desprezo e desapreço entre eles, habituais a qualquer casal. Mas o que importa? Firmaram o compromisso de procurar construir a vida juntos daqui por diante. Relacionamento cheio de altos e baixos, com direito a “the end” típico de “love story”. Oficializaram a união. Existirá entendimento, fidelidade, respeito no ninho do Centrão, decorrido o prazo regulamentar da lua de mel? Imprevisível. Mas eles se combinam, tá na cara. Pensam igual. Planejam as mesmas coisas. Unha e carne. Feitos um para o outro. “Estou me sentindo em casa”, bradou um feliz e realizado Bolsonaro ao assinar os papeis do casório. Tudo lindo.

Cerimônia pomposa. Convidados sorridentes. Votos de felicidade, como requer o protocolo da ocasião, e o “mito” tomou pelo braço, carregando para dentro do Palácio do Planalto, aquele mesmo Valdemar que um dia comeu o pão que o diabo amassou, por erros e tramoias pregressos. Está no currículo do mensaleiro-mor passagens a prisão, renúncias (por duas vezes) ao mandato depois de pilhado com a boca na botija. Valdemar, o inolvidável, tinha inúmeros esquemas e uma folha corrida que desaconselharia qualquer sogro a dar a bênção ao enlace. Mas quem pode explicar as armadilhas e complexas tessituras da paixão, não é mesmo? Bolsonaro se encantou. Depois de alegar que escolheria “a noiva mais bonita”, andava perdido numa eterna indecisão entre as alternativas e pretendentes. A maioria passou a rejeitá-lo, enxergando nele um estorvo. Bolsonaro não goza, no momento, de boa imagem na praça. É tido como inconstante, infiel, rabugento e dominador. Tudo que aspirantes a um bom casamento repudiam nessa hora. Mas Valdemar aceitou. Entre os dois reina agora a harmonia. Papel passado, sacramentado, oficial, “na riqueza e na pobreza”? A conferir. As almas gêmeas da política celebram o sonho de dividendos futuros. Mas os projetos conjuntos podem ser frustrados. A conquista das urnas, por exemplo, parece estar por um fio e a separação logo adiante somam quase favas contadas. Sem metáforas. Bolsonaro move-se por instinto de sobrevivência. Estava, por assim dizer, falido politicamente. Almeja usar o partido do Valdemar, abusar e usufruir do folgado tempo de TV, da gorda verba eleitoral ali disponível, e de outros salamaleques, para garantir lugar de destaque na corte do poder brasiliense. O surrado candidato baixo clero, da facada em campanha, vitimizado e ungido por forças extremistas ao Olimpo do comando do País, não é mais o mesmo. Experimentou das regalias na alta esfera e não quer largar o osso. No todo, e ato a ato, o espetáculo soa deprimente, falso. A filiação ao PL consagra a mediocridade de ambos. O Valdemar, oriundo do xilindró, renascido das cinzas como uma Fênix parlamentar, aboletou-se sorrateiramente ao lado direito do Messias redentor para dali formular danações que lhe gerem, como sempre, lucro. Bolsonaro, por sua vez, na mesma “vibe”, escolheu o parceiro ideal e correu aos seus braços para angariar os mais recônditos sonhos absolutistas de controle do Estado. Juntou o fisiologismo com a fome de poder. Pode hoje o capitão fazer o que bem entende. Distribuir emendas em orçamentos secretos, comprar votos, esquematizar o fabuloso laranjal com os parentes e amigos, desmontar a Lava-Jato, enterrar o combate à corrupção e nada lhe abalará, mesmo assim. Estará blindado. Protegido. Amparado pelo séquito do desposado Valdemar. A plateia de admiradores cegos também baterá palminhas. Aqueles que labutam na seara da indignação seletiva – na qual vale a crítica sistemática aos opositores, jamais ao escolhido, mesmo recaindo os dois nos mesmos equívocos – não enxergam defeitos no “noivo” das metonímias fálicas, que vem profanando o próprio governo com inescapáveis historinhas romanceadas – de um nível intelectual que beira o infanto-juvenil -, desde o primeiro “golden shower”. É o mesmo Bolsonaro que chama o seu vice-presidente pela alcunha de “cunhado chato”, trata opositores como prostitutas e diz chorar no banheiro em crises psicossomáticas, dadas as ilusões nos relacionamentos. Só não vá falar a ele de um tal sargento Aristides, que teria sido seu instrutor de judô. Todo cuidado é pouco e pode gerar consequências imprevisíveis. A história já não pegou bem e levou o capitão aos píncaros da possessão quando uma transeunte o xingou, segundo consta, pelo epíteto de “noivinha do Aristides”. Foi o que bastou para que o indignado presidente, inabalável com outros habituais insultos – do calibre de genocida -, determinasse a imediata prisão da manifestante, alegando desaforo. Tirou-o do sério para a surpresa geral. Como assim? Se o próprio mandatário é fã incondicional do tal linguajar chulo, qual o motivo da revolta? Vá saber! Nos anais das fábulas misteriosas repousa a resposta. Por hora, vale a celebração do arranjado acerto de um certo mensaleiro Valdemar e o seu pretendente capitão. Happy ending, por enquanto.


Mais posts

Ver mais

Copyright © 2022 - Três Editorial Ltda.
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento: A Três Comércio de Publicações Ltda., empresa responsável pela comercialização das revistas da Três Editorial, informa aos seus consumidores que não realiza cobranças e que também não oferece o cancelamento do contrato de assinatura mediante o pagamento de qualquer valor, tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A empresa não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças.