Entrevista

Tábata Amaral, Deputada federal (PDT-SP)

Bolsonaro aposta no caos

Thiago Queiroz

Bolsonaro aposta no caos

Vicente Vilardaga e Germano Oliveira
Edição 31/07/2020 - nº 2638

A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), 26 anos, eleita em 2018 com 265 mil votos, representa a renovação da política brasileira. Filha de um cobrador de ônibus e com poucos recursos, desde jovem se destacou como uma das melhores alunas de sua escola. Graças a isso conseguiu bolsas de estudos que a levaram a estudar em Harvard, nos Estados Unidos, uma das melhores instituições de ensino do mundo, onde se formou em astrofísica e ciência política. Na Câmara dos Deputados, Tabata tem se dedicado a propor melhorias para a Educação e, há duas semanas, teve uma vitória importante contra o governo Jair Bolsonaro ao contribuir para a aprovação do novo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação), que garante recursos para o custeio da área. “O governo olha para o Ministério da Educação e o vê como um palanque para uma guerra cultural e ideológica”, disse Tabata em entrevista à ISTOÉ. “E com a pandemia, a desigualdade educacional, que já é muito profunda, tende a se ampliar”.

Na semana passada tivemos a aprovação do Fundeb da ordem de R$ 16 bilhões. Por que o governo Bolsonaro estava contra o novo Fundeb?
O Fundeb, fundo responsável por mais da metade de todos os recursos vinculados à educação pública básica no Brasil, vencia neste ano e se nós não o tivéssemos aprovado, a gente estaria falando da reestruturação de toda a rede pública, porque o fundo financia transporte escolar, salários de professores, infraestrutura e muitas outras coisas. Seria muito grave. Estamos há um ano e meio discutindo o que seria o novo Fundeb e o governo se ausentou completamente da discussão. Nem o ministro (Ricardo) Velez, nem o ministro (Abraham) Weintraub participaram de uma única conversa sobre o Fundeb. É difícil responder com assertividade o porquê de Bolsonaro e seus ministros terem esse desprezo por uma pauta tão importante. Mas para mim fala de algo muito maior, que é o total desconhecimento de como a educação pode ser uma alavanca de desenvolvimento econômico e inclusão social.

Qual é a visão de educação do governo?
É um governo que olha para o Ministério da Educação e o vê como um palanque para uma guerra cultural e ideológica. Estamos há um ano e meio discutindo o tema do Fundeb e não contamos com a participação do governo. Agora, aos 45 minutos do segundo tempo, foi apresentada uma proposta que diminuía a transferência da União, quando comparado com o que nós havíamos construído, sob o argumento de que precisava do dinheiro para financiar o projeto Renda Brasil, que eles ainda não apresentaram. E me parece um pouco triste que o governo só possa financiar um projeto de renda mínima se tirar recursos da educação pública.

A senhora tem uma visão técnica sobre a educação e está se deparando com um governo que propõe uma guerra cultural. Como é isso?
A postura do Weintraub resume muito a forma como o governo olha para a educação. Nós não tivemos nenhuma política pública relevante apresentada durante sua gestão. Eles disseram que alfabetização era prioridade, mas o máximo que fizeram durante um ano e meio foi uma plataforma online. E não se avança. Nós não temos nada concreto. O governo não executou 100% de nenhum dos orçamentos que estavam disponíveis para a educação.

O setor da educação, com Bolsonaro, é dominado pelo guru dele, o astrólogo Olavo de Carvalho. O quanto é nociva essa influência?
É extremamente nociva. Quando a gente tem uma pessoa como Olavo de Carvalho que claramente desconhece a gestão publica, desconhece a educação e que, enfim, é completamente contra a ciência e idolatra o obscurantismo, além de falar que a terra é plana, é uma grande tristeza. Essa disputa não é apenas ideológica, é uma total falta de bom senso.

O governo tem alguma estratégia para lidar com esse tempo que está sendo perdido por causa da pandemia? Esse tempo vai poder ser recuperado?
A gente precisa recuperar, não sei se vai conseguir. O governo não está fazendo nada para melhorar o quadro, mas a gente precisa dar um jeito. Tem um estudo que foi feito pelo Ricardo Paes de Barros, grande economista do Insper, que mostra o custo astronômico que a nossa economia terá se os alunos saírem da escola sem o conteúdo que teriam aprendido nesse período. Não é só uma questão de Justiça, é uma questão de estratégia. Se a gente não recuperar o que foi perdido, é o nosso desenvolvimento, é o futuro desses meninos e meninas que está em jogo.

Antes da pandemia, o Brasil já estava nos últimos lugares da análise do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). Essa situação tende a piorar?
Saiu uma estudo feito pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), e por várias instituições e fundações muito sérias, que ouviu milhares de jovens e mostrou que um terço aproximadamente considera abandonar o ensino médio. E a gente já vai muito mal quando olha para a evasão no ensino médio. Então, esse é o primeiro risco da pandemia. E o segundo é a piora da qualidade do ensino. A desigualdade educacional, que já é muito profunda, tende a se ampliar.

A senhora não acha que levamos muito azar em não ter acertado um ministro da Educação? O que esperar do novo ministro, o advogado Milton Ribeiro?
Não é azar, porque é uma escolha muito consciente de não valorizar a educação. Quem nesse País com experiência em gestão pública, comprometido com educação, terá coragem de entrar no governo Bolsonaro? A gente vai acompanhar e fiscalizar o novo ministro com a mesma firmeza de sempre. Mas me preocupa que os critérios de escolha não tenham nada a ver com quem trabalha, entende e é apaixonado por educação. Tem a ver com qual é o pensamento ideológico da pessoa. Não acho que tenha nada de errado em ele ser ou não evangélico. Mas o nosso Estado é laico e a educação tem que ser laica. Eu falo como alguém que é religiosa e que se esforça muito para deixar sua religião em casa quando está debatendo políticas públicas. O problema vai começar a existir se o ministro trouxer a religião para suas decisões.

Outra área que está abandonada é a saúde. Já ultrapassamos as 90 mil mortes e não temos um ministro.
A gente caminha para ser o primeiro ou segundo país com maior número de mortos. Nós sabemos que há uma grande subnotificação. Então, é muito possível que o Brasil já tenha passado dos 100 mil mortos porque estados como Minas Gerais, que dizem que tiveram poucos casos de Covid-19, apontam para uma explosão de casos de síndrome respiratória. Nós também caminhamos para ser o país que vai ficar mais tempo lutando contra a pandemia, porque o presidente da República tem uma narrativa perigosa, de que a população tinha que escolher entre o emprego e a saúde. Não existe essa dicotomia, porque se a gente olhar para os dados, tanto de pandemias passadas, como as de hoje, países que investem em salvar vidas são aqueles com mais chance de recuperação econômica. Mas esse governo aposta no caos e escolheu não fazer nada na pandemia.

O ministro Gilmar Mendes falou numa live na IstoÉ que os militares estão se associando a uma política genocida. A senhora concorda?
Não tem como ignorar o fato de os militares estarem sendo cúmplices do que está acontecendo. Os militares estão a duras penas, há décadas, reconquistando sua credibilidade. Porque sim fizeram parte de um governo que foi ditatorial, que perseguiu, que torturou e que matou as pessoas. E os militares, na minha visão, estão desperdiçando essa oportunidade. Estão desperdiçando a credibilidade que haviam conquistado.

Qual é a sua opinião sobre a cloroquina?
Não me entra na cabeça que um presidente seja garoto-propaganda de um remédio. Ele deveria estar acima dessas coisas. É um grande absurdo e mostra um governo que não tem compromisso com a ciência, com a verdade e com o conhecimento e que vai usar nosso dinheiro da pior forma possível. Essa insistência em um remédio não é porque Bolsonaro ama a cloroquina. É porque ele viu na cloroquina uma forma de politizar a pandemia.

A senhora acha que a democracia está ameaçada?
Acho que sim. Eu, infelizmente, não consigo dizer se a gente vai ver uma deterioração contínua da nossa democracia. E aí eu queria falar um pouquinho do livro “Como as democracias morrem”. Tive a grande oportunidade de ter aula com o professor Steven Levitsky. Ele fala desses processos autoritários mais modernos e aí eu brinco que a gente não vai receber notificação no celular que a democracia acabou, a gente não vai ligar a televisão e ver um tanque na rua. O processo de corrosão da democracia acontece por dentro, quando o governo esconde dados da população, persegue jornalistas, cria uma rede de fake news, de perseguição e ataque àqueles que se posicionam de forma contrária em algum assunto. Tudo isso faz parte de uma grande estratégia de intimidação.

Com a educação e saúde horríveis, a senhora defende o impeachment do Bolsonaro?
Antes de defender o impeachment, defendo que ele seja investigado porque o impeachment não é só um processo jurídico, é também um processo político e, infelizmente, Bolsonaro, especialmente nas últimas semanas, tem visto a sua aprovação aumentando, o que não faz o menor sentido. Mas é isso. A gente não entende o que está acontecendo, e enquanto a gente não entender e conseguir mostrar à população que há outros caminhos, além de apoiar alguém como Bolsonaro, o processo de impeachment não se materializa. Por isso, eu venho trabalhando por uma CPI que investigue todos os crimes pelos quais ele está sendo acusado.

O que fortalece Bolsonaro? Seria o auxílio emergencial?
São duas coisas. Por um lado, as pessoas parecem que não vêem uma alternativa a Bolsonaro e na política não existe vácuo. As pessoas abririam mão desse projeto autoritário tão ruim para o País se pudessem enxergar uma alternativa e que não sejam as soluções do passado. E a questão do auxílio emergencial é muito correta. Há vários estudos que mostram que onde esse socorro financeiro foi mais importante houve um crescimento maior do apoio a Bolsonaro.

Qual é a sua pretensão futura? Especulou-se que a senhora poderia ser candidata a prefeita de SP?
Nunca me coloquei como candidata a prefeita pela simples razão de que tenho uma grande missão a cumprir no Congresso. A gente falou de educação, das batalhas e tenho muito orgulho da minha participação, porque sei o que é ser um estudante de escola pública no Brasil. É muito sofrido. Não vejo outro lugar em que eu possa atuar nesse momento que não seja o Congresso. O que vai acontecer lá na frente eu não sei. Honraria-me muito ser prefeita de São Paulo um dia, mas não é o momento agora. Eu tenho uma batalha muito grande a travar no Congresso.

Veja também

+ Confira 4 dicas para descobrir se o mel é falsificado

+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"

+ MG: Pastor é preso por crime sexual e alega que caiu em tentação

+ Teve o auxílio emergencial negado? Siga 3 passos para contestar no Dataprev

+ Caixa substitui pausa no financiamento imobiliário por desconto de até 50% na parcela

+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel

+Vídeo mostra puma perseguindo um corredor em trilha nos EUA

+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago

+ 12 razões que podem fazer você menstruar duas vezes no mês

+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?

+ Educar é mais importante do que colecionar


Copyright © 2020 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.