Edição nº2501 17.11 Ver edições anteriores

BolsoLula

Tetraneto do patriarca da Independência, o político mineiro Zezinho Bonifácio costumava dizer pelos corredores do poder que só o fato novo e o fato consumado eram capazes de justificar as grandes reviravoltas políticas do País. A ascensão de Jair Bolsonaro é, sem medo de errar, o fato novo da corrida presidencial de 2018. Agora, ele trabalha para se tornar um fato consumado. Mesmo que, para isso, tenha de camuflar sua essência. Senão vejamos. Na última semana, em tour pelos EUA, o pré-candidato ao Planalto cancelou um debate na George Washington University faltando apenas 24 horas para o evento. No rastro de uma saraivada de críticas, emergiu a justificativa: a recusa guardou relação com o que chamou de “cilada” armada contra ele pelo organizador do colóquio, o americano Mark Langevin, um ex-integrante da CUT. Sem entrar na questão da armadilha em si, convenhamos, o Bolsonaro “velho de guerra” jamais fugiria do embate. Pelo contrário. A refrega era um prato cheio para o pré-candidato. Dono de estilo eloqüente, soltaria os cachorros para cima do “professor-militante” em meio ao deleite de seu séquito. O debate geraria barulho nas redes sociais. Seus seguidores vibrariam a cada intervenção. Bolsonaro consolidaria votos. Mas por que, então, claudicar? A verdade é que o deputado, aos poucos, se molda às conveniências eleitorais.

Bolsonaro não é chuva de verão. Pela primeira vez, sabe que reúne chances de chegar ao Planalto. Mas ele também está ciente de que, para alcançar a Presidência, precisa transcender seu eleitorado cativo. Necessita ganhar a preferência de dois dos mais numerosos grupos de eleitores brasileiros: mulheres e moradores dos grotões do País. Não é tarefa trivial. Seduzir essa fatia do eleitorado lhe exige ser menos Bolsonaro “tiro, porrada e bomba” e mais “Bolsonaro paz e amor”.

Mudanças de comportamento motivadas por interesses puramente eleitorais não constituem uma novidade. Em 2002, Lula moderou o discurso radical e repaginou o visual para se tornar palatável ao mercado, às elites e à classe média. Deu certo. Bolsonaro segue trilha semelhante. No próprio périplo pelos EUA, suavizou o linguajar para soar menos casca-grossa aos investidores. Convencido de que precisa passar por um processo de “desradicalização”, jamais, por exemplo, repetirá a entrevista de 1999 em que sugeria o fuzilamento de FHC. Como Lula jamais repisou a famosa entrevista para a Playboy, em 1979, quando afirmou que usava o sindicato para “papar” mulheres de companheiros mortos.

As semelhanças param por aí. Mas, gostem ou não, é melhor aliados e adversários de Bolsonaro já irem se acostumando. O candidato, embora ainda não seja fato consumado, pode sim ser eleito presidente, caso se confirme o cenário pulverizado que se descortina no horizonte. E quanto maior for a possibilidade dele chegar lá, menos Bolsonaro ele será. Por mais irônico que possa parecer, Bolsonaro 2018 estará mais próximo de Lula 2002 do que de Trump 2016.


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