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Bolívia pede auditoria eleitoral à OEA, que convoca reunião de emergência

Bolívia pede auditoria eleitoral à OEA, que convoca reunião de emergência

(21 out) Manifestantes incendeiam escritório eleitoral na cidade boliviana de Sucre - AFP

A Bolívia pediu nesta terça-feira (22) à OEA que audite as eleições de domingo, cuja apuração rápida de atas tende a confirmar a reeleição do presidente Evo Morales no primeiro turno, desencadeado protestos no país, críticas do exterior e a convocação de uma reunião extraordinária do organismo regional.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) convocou uma sessão de seu Conselho Permanente nesta quarta-feira em Washington a pedido de Brasil, Canadá, Colômbia, Estados Unidos e Venezuela (o representante de Juan Guaidó), para abordar “a situação na Bolívia”.

Em resposta, o governo boliviano solicitou à OEA enviar “o mais rapidamente possível” uma missão técnica a La Paz para auditar “uma a uma as atas” das eleições de domingo, questionadas no país e no exterior, disse o chanceler Diego Pary.

Em carta enviada ao secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, a Bolívia está “solicitando que, o mais rapidamente possível, [a entidade] possa estabelecer uma comissão que faça uma auditoria em todo o processo de contagem oficial dos votos das eleições de 20 de outubro”, disse Pary em coletiva de imprensa.

“Nos interessa como governo que todo o processo tenha a transparência necessária”, insistiu.

Horas antes, Washington denunciou uma tentativa de “subverter a democracia na Bolívia” e na União Europeia “respeitar a vontade do povo boliviano”.

Brasil, Espanha, Argentina, Colômbia e Peru também expressaram preocupações sobre a contagem de votos.

Os questionamentos acontecem depois que a apuração rápida das atas (TREP), que na noite de domingo antecipou um segundo turno, após uma inexplicável paralisação de 20 horas, foi retomada na segunda-feira à noite mostrando uma “mudança drástica e difícil de justificar na tendência”, assegurando a reeleição de Morales no primeiro turno, denunciaram os observadores da OEA.

O presidente, no poder desde 2006, evitaria um segundo turno se obtivesse no primeiro turno mais de 50% dos votos válidos ou 40% com pelo menos uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado.

No TREP, Morales recebe 46,4% e o ex-presidente Carlos Mesa 37,07%, com 95,63% das atas. Este sistema por telefone serve para orientar sobre a tendência do cômputo oficial definitivo, mas não tem caráter oficial.

Paralelamente, o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) avançava nesta terça na contagem oficial, com 83,87% dos votos válidos, pelos quais Morales sai à frente com 43,64%, seguido por seu rival Carlos Mesa com 40,01%.

– Convocação de greve –

A oposição boliviana, sindicatos, organizações empresariais e cívicas começaram a preparar protestos para a quarta-feira, depois de o país andino ter vivido uma segunda-feira de violentos protestos.

Multidões incendiaram os tribunais eleitorais departamentais em Sucre (sudeste) e Potosí (sudoeste), enquanto em La Paz foram registrados choques com a polícia. Em Riberalta, departamento Beni (nordeste), os manifestantes destruíram uma estátua do falecido ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, aliado de Morales.

Nesta terça-feira, Morales não apareceu em público nem deu declarações. Em Oruro, ao sul do país, houve distúrbios isolados e esporádicos.

Um coletivo de organizações civis pediu para paralisar indefinidamente as atividades em todo o país a partir de quarta-feira.

“Vamos à greve, até que vocês digam”, anunciou Luis Fernando Camacho, líder do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, diante de vários militantes da oposição em um ato nesta rica região no leste da Bolívia.

– “Pede-se a democracia” –

O sindicato dos médicos, que manteve uma greve de mais de um mês por reivindicações trabalhistas, se mobilizou nesta terça-feira em La Paz. “Hoje se pede a democracia”, disse seu líder, Luis Larrea.

A influente plataforma civil Conade, que aglutina comitês cívicos de todo o país, anunciou também “resistência civil” diante da possível vitória de Morales e sua adesão à greve geral de quarta-feira.

Diante do clima de violência, a Igreja Católica pediu “paz e serenidade” e que o TSE “cumpra seu dever de árbitro imparcial”.

Mesa, que governou a Bolívia de 2003 a 2005, denunciou uma “fraude” e anunciou na segunda-feira que não reconhecerá os últimos resultados provisórios “que são parte de uma fraude consumada de maneira vergonhosa”.

Historiador e jornalista de 66 anos, convocou uma “mobilização cidadã” até que se difunda o resultado definitivo.

Morales, que completará no sábado, disse que confiava que a votação das zonas rurais evitaria um segundo turno.

Sua decisão de voltar a se candidatar – que foi rejeitada em um referendo e depois aprovada pelo Tribunal Constitucional- é mal vista por um segmento da população e fortemente criticada pela oposição, que acredita que sua vitória levará a Bolívia a uma autocracia.