SÃO PAULO, 30 ABR (ANSA) – Pilar de criptomoedas como o bitcoin, a tecnologia blockchain já está sendo testada para aplicações no setor de segurança, especialmente por conta da crescente conectividade de dispositivos eletrônicos.   

O blockchain é uma cadeia de blocos de dados que registra transações em ambientes virtuais de uma forma compartilhada e descentralizada. Esse sistema garante a segurança, a transparência e a imutabilidade das operações.   

Por conta disso, é uma das bases do surgimento e do desenvolvimento das criptomoedas, que se popularizaram entre investidores nos últimos anos. Mas outros setores já começam a olhar para essa tecnologia com mais atenção.   

“A segurança eletrônica tem mais a ver com conectividade, tudo está mais conectado. Antes a informação da segurança eletrônica ficava no próprio local, hoje ela vai para um ambiente novo, o que acaba abrindo portas para outros tipos de preocupação que antes não existiam”, diz à ANSA o especialista em segurança e privacidade Emílio Nakamura.   

Ele também é responsável pelos seminários promovidos pela Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese), realizadora da feira Exposec, que é organizada pela Cipa Fiera Milano e acontece de 21 a 23 de maio, em São Paulo. O blockchain deve ser um dos temas em destaque no evento.   

Segundo Nakamura, para fazer um ataque contra um sistema de segurança era preciso cortar o cabo de rede que o conectava com um servidor local. Hoje em dia é possível realizar ações de modo virtual, a milhares de quilômetros de distância. “Os dispositivos de segurança eletrônica têm várias vulnerabilidades que permitem pegar o controle do equipamento e apagar informações. Como essa complexidade aumentou, é preciso tomar muito cuidado com coisas com as quais não se tinha preocupação antes”, diz.   

O blockchain, de acordo com o especialista, pode ajudar a enfrentar esses novos desafios. “Se alguém tenta apagar imagens de segurança eletrônica, não vai conseguir”, acrescenta Nakamura, destacando a imutabilidade dos dados transmitidos por meio dessa tecnologia.   

Ele explica que já há um movimento no mercado de segurança para implantar soluções baseadas em blockchain. As informações, neste caso, não iriam mais para data centers ou para a nuvem, e sim para um ambiente virtual distribuído.   

“Lá fora já há empresas vendendo esse tipo de tecnologia, câmeras com armazenamento de imagens e comunicação entre elas por meio de blockchain. É uma tendência, as empresas estão indo para esse lado, testando a viabilidade disso”, ressalta.   

Plataformas específicas – Para garantir a privacidade dos dados, questão sensível para o setor de segurança, Nakamura aponta a tendência de desenvolvimento de uma arquitetura “híbrida” para o blockchain, com alguns blocos públicos, como pressupõe essa tecnologia, e outros privados.   

“Os projetos em que a gente tem trabalhado mesclam esses dois mundos. Uma tendência é não usar somente um tipo de blockchain, mas sim criar camadas distribuídas de acordo com o nível de confidencialidade da informação trabalhada naquela rede”, explica.   

O blockchain continuaria funcionando como um banco de dados, mas com algumas camadas de segurança para garantir a confidencialidade dos blocos privados. Para Courtnay Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain (ABCB), o uso dessa tecnologia em outros setores exige o desenvolvimento de plataformas específicas para cada um.   

“A cadeia de blocos é apenas um dos elementos. São cerca de 80 tecnologias distintas no próprio bitcoin, por exemplo. Portanto, para uso em outros casos, minha teoria é que sejam criadas plataformas específicas. Por exemplo, para o setor de saúde eu penso no prontuário médico completo de cada indivíduo do planeta. Para este caso, deveria ser construído um blockchain específico”, afirma.   

Ele lembra que, em seu núcleo, as plataformas de blockchain já são aparatos de segurança, portanto seu potencial de uso para proteção de informações, chaves de acesso e encriptação é “amplo”, embora “pouco explorado”.   

Guimarães cita como exemplo a zcash, moeda digital que, ao contrário do bitcoin, tem como centro o princípio da privacidade e mantém sob anonimato os dados das transações. “E nada impede que apareça uma plataforma especializada, usando elementos de outras tecnologias adicionais, como computação quântica, inteligência artificial, etc., para usos específicos”, ressalta.   

(ANSA)