A biografia “Dona Helena Theodoro — Uma Tia Negra da Filosofia Popular Brasileira” é lançada nesta quarta-feira (2) na Biblioteca Parque Estadual (BPE), no Rio de Janeiro. O evento marca o encontro da professora Helena Theodoro e de sua aluna Carla Rocha, autora da obra, que compartilham mútua admiração. A publicação celebra a trajetória da professora, reconhecida por sua incansável defesa da inclusão dos saberes africanos, afro-brasileiros e indígenas no ambiente universitário.
A biografia “Dona Helena Theodoro — Uma Tia Negra da Filosofia Popular Brasileira” é lançada na Biblioteca Parque Estadual, destacando a importância da professora na inclusão de saberes africanos e indígenas.
- A obra, resultado da tese de mestrado de Carla Rocha, apresenta Helena Theodoro como uma liderança e exemplo das “Tias Negras”, figuras de acolhimento e preservação da memória comunitária.
- O livro, apesar de focar na trajetória de Helena, é um estudo de pensamento filosófico e atuação, e não uma biografia tradicional, ressaltando o vigor e a militância da professora aos 83 anos.
Por meio da vida da professora Helena Theodoro, uma liderança ativa na inclusão dos saberes africanos, afro-brasileiros e indígenas nas universidades, Carla Rocha narra a história das chamadas “Tias Negras”. Estas são mulheres reconhecidas por suas atuações de acolhimento da coletividade e de preservação da memória de suas comunidades.
“No mundo africano é o Bantu [princípio ancestral africano], “eu sou, porque nós somos. Eu existo, logo penso, e não penso, logo existo”. Nós temos ancestralidade”, citou a professora em entrevista à Agência Brasil, para exemplificar o acolhimento da coletividade na comunidade negra.
“Ela tem um vigor fantástico e não é uma pessoa que busca ser absoluta. Ela quer empoderar todas as pessoas. Quer todo mundo junto com ela, não quer atrás dela. Ela dá a mão para todo mundo”, disse Carla em entrevista à Agência Brasil.
Para Carla, ser orientada por Helena Theodoro, que está viva, e assistir a aulas dela há mais de 30 anos, constitui um diferencial. “Não tenho capacidade de dizer o quanto é grandioso”, completou a aluna.
“Helena está aqui e a possibilidade de estar com ela é gigante. É uma mulher de muita força. Tem 83 anos e sai para dar aula, tem evento quase todo dia. Eu falo “dona Helena, às vezes fico cansada só de lhe ver. De manhã, a senhora está no Rio, à tarde em São Paulo e à noite já está em casa de volta””, disse Carla sorrindo.
“Ela sempre esteve na luta, atuante junto ao povo negro do Brasil e buscando referência em viagens a países africanos e em outros como convidada, por saberem que aqui tinha essa mulher”, acrescentou a aluna.
A origem da obra e o papel dos orientadores
A publicação é resultado de uma tese de mestrado de Carla no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia de escolher Helena Theodoro para contar o que representam essas mulheres fortes partiu do professor Rafael Haddock-Lobo, orientador da aluna, junto com o coorientador, Marcelo Derzi Moraes.
A professora, que sempre manteve grande aproximação com seus alunos e frequentemente relatava sua participação nesse processo de militância, foi convidada por Rafael para participar da banca do mestrado de Carla sem saber qual era o tema do trabalho.
“Eu não sabia o que ela estava fazendo como tema da tese, mas sabia que estava trabalhando na linha de filosofia popular brasileira, que é o que eu trato no sentido de filosofias africanas e indígena estarem na universidade na medida em que os povos originários e a comunidade negra são muito anteriores ao pensamento europeu”, relatou Helena Theodoro.
“Quando chego à banca e ele me entrega a tese, começo a chorar. “Como você faz isso comigo?”. Foi assim encantador. Muita emoção”, confessou a primeira mulher negra a ter uma tese de doutorado em filosofia africana, o que ocorreu em 1985. Em 1975, ela já havia concluído um mestrado.
O legado e o impacto do pensamento filosófico
Carla, que agora está fazendo doutorado, conta novamente com Helena Theodoro como orientadora, papel que já havia exercido no mestrado. A professora destacou que o livro aborda sua participação efetiva na valorização da comunidade negra e a importância do conhecimento, não sendo uma biografia dela.
“É um estudo de pensamentos filosóficos e de maneira de atuação. Fiquei muito feliz porque não é uma coisa presa à minha vida. É um pensamento que venho buscando desde que fiz doutorado”.
Naquele momento, a professora tinha uma alta participação em bancas de mestrado e doutorado. Somente no ano passado, foram 32, pois era a única professora pós-doutora em filosofia africana e a única negra do departamento de filosofia da UFRJ.
“Eu tenho 83 anos de idade e continuo na militância, escrevendo e trabalhando porque os meus pais eram militantes. Os meus pais tinham curso superior e aglutinavam a família. Meu pai dizia que a minha mãe e as irmãs dela formavam a máfia do bem, porque tudo era coletivo”, afirmou Helena Theodoro.
Na lembrança estão todos os aniversários da família comemorados na casa da sua Tia Alice, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio, chegando a ter 94 pessoas presentes. A exceção era o Natal, que reunia a família na casa da Tia Conceição, quituteira, na Ilha do Governador, também zona norte da cidade.
“A gente aprendeu a se amar, a se gostar, a se aglutinar. Sempre foi a visão do Buntu “eu sou porque nós somos””, disse.
Como Helena Theodoro superou momentos difíceis?
A vida também teve momentos difíceis, como a morte, em 1981, do filho Maurício, aos 4 anos, que teve com o ex-marido Nei Lopes, escritor, cantor, compositor e pesquisador das culturas africanas. Na época, recebeu apoio de diversos representantes da comunidade negra e de integrantes de terreiros.
“Eu fui muito amparada pelo Ilê Axé Opô Afonjá [terreiro de candomblé], pelo mestre Didi e todo o pessoal. Acho que se não tivesse esse tipo de apoio, não teria conseguido superar. Me fizeram, com 15 dias, voltar para a escola e dar aula”, contou a professora.
A Biblioteca Parque Estadual (BPE) é um equipamento da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Secec-RJ), “dedicado à democratização do acesso ao livro, à leitura e à literatura”.
O encontro para o lançamento da biografia começará às 14h e seguirá até às 17h. Além de Helena Theodoro, terá a participação dos professores Rafael Haddock-Lobo (UFRJ), Marcelo José Derzi Moraes (UERJ) e Mariane Biteti (UERJ).
Nascida no Rio de Janeiro, Carla Rocha foi criada no conjunto habitacional do Ipase [Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, extinta autarquia federal], em Vicente de Carvalho, na zona norte da capital. Além da licenciatura em filosofia, é formada em jornalismo e especializada em assessoria de comunicação e gestão de negócios sustentáveis.
Mestre e doutoranda em filosofia pelo Laboratório Encruzilhadas Filosóficas, do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio, Carla Rocha é autora de ensaios e contos pelo selo da Festa Literária das Periferias (Flup) e integra o coletivo Mulheres Sambistas.
A biografia “Dona Helena Theodoro — Uma Tia Negra da Filosofia Popular Brasileira”, de acordo com a Biblioteca Parque Estadual, “também reúne textos de Rafael Haddock-Lobo, responsável pela orelha; Mariane Biteti, autora do prefácio; Marcelo José Derzi Moraes, que assina a apresentação; e Helena Theodoro, responsável pelo posfácio”.