Bicicletas elétricas: uso aumenta 37 vezes e gera desafios nas cidades

Em oito anos, veículos leves chegam a 284 mil unidades em circulação, levantando debates sobre legislação e adaptação urbana

Bicicletas elétricas: uso aumenta 37 vezes e gera desafios nas cidades

O Brasil registra um crescimento exponencial no uso de bicicletas elétricas, autopropelidos e ciclomotores, com um aumento de 37 vezes em oito anos, passando de 7,6 mil unidades em 2016 para 284 mil em 2024. O impacto e os desafios dessa transformação na mobilidade urbana são explorados em um programa da TV Brasil, que será exibido nesta segunda-feira (17), às 23h. Embora ofereçam soluções para pequenos deslocamentos, a rápida proliferação desses veículos levanta preocupações sobre segurança e a necessidade de adaptação das cidades.

O número de bicicletas elétricas e outros veículos leves aumentou 37 vezes em oito anos, alcançando 284 mil unidades em 2024.

  • A expansão desses meios de transporte, tema de um programa da TV Brasil, gera conflitos e desafios para a segurança e infraestrutura das cidades.
  • Especialistas debatem a regulamentação do Contran e a necessidade de as cidades se adaptarem a essa nova realidade da micromobilidade.

Esses veículos, que já fazem parte do dia a dia das grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo, podem ser encarados como solução para pequenos deslocamentos. Contudo, representam riscos para quem convive com esse novo meio de transporte.

“A população, de forma espontânea, foi comprando e utilizando cada vez mais e aí a gente entra nas discussões de como é que está sendo esse uso, que tem crescimento muito grande e acaba tendo conflitos em relação ao uso”, afirma Luiz Saldanha, diretor executivo da Aliança Bike, que representa organizações do setor, como lojistas e fabricantes.

Para Saldanha, a população já entendeu que é um veículo que soluciona problemas. “Falta entender como é que a gente consegue encaixar esses veículos e ordená-los no dia a dia”, conclui.

Micromobilidade e segurança: qual o limite?

Os conflitos entre esses veículos mais leves e outros mais pesados já geraram tragédias, como a morte do menino Chico, de 9 anos, e sua mãe, em uma rua da zona norte do Rio de Janeiro. Eles estavam em um autopropelido quando foram atropelados por um ônibus, em março deste ano.

“Muitas vezes a gente pensa: “Ah, isso acontece muito pouco. Quantos casos você sabe? Mas basta ser o seu que vai ser doloroso, né? Então, acho que a gente perde isso de perspectiva, que um dia pode ser a gente”, relata o pai de Chico, o roteirista Vinicius Cacofonias.

A regulamentação dos veículos elétricos

O uso desses veículos é regulamentado pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). A resolução mais atual, de 2023, diferencia os veículos em três categorias principais. A primeira delas é a das bicicletas elétricas, que precisam de propulsão humana e oferecem apenas o chamado pedal assistido, onde um motor ajuda o ciclista a acelerar o veículo.

A segunda categoria é a dos autopropelidos, com pedal ou não, que não necessitam de propulsão humana para acelerar e cuja velocidade não pode ultrapassar 32 km/h. Por fim, os ciclomotores também prescindem da propulsão humana, mas podem chegar a 50 km/h.

As duas primeiras categorias não exigem habilitação do condutor nem licenciamento do veículo. Já os ciclomotores demandam habilitação categoria A ou Autorização para Conduzir Ciclomotor (ACC), além de registro e licenciamento.

Para Raphael Pazos, da Comissão de Segurança do Ciclismo do Rio de Janeiro, uma organização não governamental carioca que advoga por um trânsito mais seguro para ciclistas, é um erro não exigir habilitação para conduzir um autopropelido.

“A resolução do Contran 966 de 2023 alterou a nomenclatura de certos dispositivos de mobilidade, autorizando o que antigamente era proibido. O que antes era um ciclomotor, da noite para o dia virou um autopropelido e foi autorizado a ser utilizado em calçada e em infraestruturas cicloviárias”, afirma Pazos. “Agora qualquer um, principalmente crianças de 13, 14, 15 anos, podem adquirir esse equipamento e, pior, conduzi-los numa pista”.

Cidades não acompanham a evolução da micromobilidade

Marcus Quintella, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que as cidades precisam se adaptar a esses veículos. “As cidades não estão prontas. Elas não foram planejadas para essas modernidades. Então, o que está acontecendo hoje são adaptações”, ressalta. “A bicicleta, desde a convencional até o ciclomotor, já representa uma fatia muito importante da matriz de transporte urbano. Não se pode ser rigoroso de forma a impedir a micromobilidade, mas também não se pode deixar que isso caia numa situação descontrolada”.

Da IstoÉ