Comportamento

Bento XVI pede que seu nome seja retirado de polêmico livro sobre celibato

Bento XVI pede que seu nome seja retirado de polêmico livro sobre celibato

Papa Francisco (E) com o papa emérito Bento XVI (D) no Vaticano em 21 de dezembro de 2018 - VATICAN MEDIA/AFP/Arquivos

O Papa emérito, Bento XVI, pediu que seu nome seja retirado de um controvertido livro sobre o celibato, disse seu secretário particular, monsenhor Georg Gaenswein, prefeito da Casa Pontifícia, à agência Ansa nesta terça-feira.

“Confirmo que nesta manhã, seguindo o conselho do papa Emérito, pedi ao cardeal Robert Sarah que contatasse os editores do livro para pedir que removessem o nome de Bento XVI como coautor do livro e também removessem a assinatura da introdução e as conclusões”, disse o religioso, que foi seu secretário particular durante seus oito anos de pontificado.

A publicação no domingo de alguns trechos do livro intitulado “Das profundezas de nossos corações”, assinado pelo papa Emérito e pelo ultraconservador cardeal Sarah, em que eles defendem o celibato, desencadeou uma disputa sobre a interferência do papa que renunciou em 2013.

E pareceu um desafio da ala conservadora da Igreja católica ao para Francisco sobre um tema social e religioso.

“Não podemos calar”, argumentaram os dois autores sobre a possibilidade do papa Francisco aprovar a ordenação de homens casados em regiões remotas, uma decisão que poderia gerar um cisma na Igreja católica.

O livro pede a toda Igreja de não se deixar “impressionar por oratórias ruins, produções teatrais, mentiras diabólicas, erros da moda que desejam desvalorizar o celibato sacerdotal”.

“O papa Emérito sabia que o cardeal preparava o livro e enviou a ele um de seus artigos sobre o sacerdócio, permitindo que o utilizasse. Contudo, ele não aprovou qualquer projeto de livro com dupla assinatura e não viu nem autorizou a página de prólogo”, informou o religioso alemão.

“Tratou-se de um mal-entendido que não coloca em dúvida a boa fé do cardeal Sarah”, concluiu Gaenswein.

Desde segunda-feira, vários correspondentes estrangeiros no Vaticano asseguraram que Bento XVI não co-escreveu o livro com o cardeal, citando uma fonte segundo a qual “tratou-se de uma estratégia editoral e midiática da qual Bento XVI toma distância”.

O debate sobre o celibato aqueceu quando um bom número de religiosos da América do Sul questionou durante o sínodo dos bispos realizado em outubro passado sobre a ordenação de homens casados para tratar da escassez de padres na Amazônia.

“Sarah defendeu sua visão tradicional e intransigente no sínodo, mas não foi ouvido e voltou com seu livro aproveitando-se de Bento XVI”, disse à AFP Nicolas Senèze, correspondente no Vaticano do jornal francês La Croix.

“O problema do livro é que não sabemos o que veio das mãos de Bento XVI e o que é do cardeal Sarah”, acrescentou o vaticanista.

O cardeal Sarah, no entanto, rejeitou as acusações veladas de suposta manipulação do papa Emérito.

“Declaro solenemente que Bento XVI sabia que nosso projeto assumiria a forma de um livro. Posso dizer que trocamos várias provas para estabelecer as correções”, tuitou.

Ele também divulgou um comunicado atacando seus críticos. “A controvérsia que há várias horas visa me sujar ao insinuar que Bento XVI não foi informado da publicação do livro é profundamente abjeta”, escreveu.

Todas as reações do cardeal Sarah foram tornadas públicas antes da declaração do secretário particular de Joseph Ratzinger. Posteriormente, o cardeal simplesmente tuitou que as próximas edições do livro só terão seu nome e que o conteúdo permanecerá inalterado.

Sobre a delicada questão, que divide conservadores e reformistas, Francisco deve se pronunciar em um documento, ou exortação pós-sinodal, que será publicada em fevereiro.