Comportamento

Barraco no Rock

Disputas entre ex-integrantes e herdeiros de algumas das maiores bandas do País foram parar nos tribunais. As mágoas são tantas que as histórias desses roqueiros hoje estão mais para boleros

Crédito: Divulgação

DISCUSSÕES POR MINUTO Paulo Ricardo (primeiro à dir.): para o vocalista, músicos do RPM eram apenas “acompanhantes” (Crédito: Divulgação)

Formadas na década de 1980 com o fim do governo militar, as bandas do “Rock Brasil” enfrentam hoje uma outra guerra — nos tribunais, uns integrantes contra os outros. O direito de usar o nome “Legião Urbana” virou uma batalha entre o filho do vocalista Renato Russo e os ex-membros Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Paulo Ricardo, vocalista da banda RPM, perdeu o direito de cantar os sucessos sem a autorização dos outros músicos. No Kid Abelha, a disputa entre a cantora Paula Toller e o baixista Leoni foi parar na Justiça para definir quem têm poder sobre os sucessos do passado — um rolo que envolve até campanha política.

“Nas palavras de Renato Russo, a banda não existiria sem um dos músicos. A Legião é nossa vida, é parte de nós” Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, músicos (Crédito:Divulgação)

As brigas entre os ex-integrantes da Legião Urbana, Paulo Bonfá e Dado Villa-Lobos, com o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, começaram após a morte do vocalista e assim que o herdeiro passou a tomar conta da parte que lhe cabe na administração dos direitos autorais. Giuliano já processou a irmã de Renato Russo e se envolveu em desavenças públicas com a família do pai, teria até expulsado a própria avó de um dos 48 imóveis herdados por ele quando completou 18 anos. O processo mais longo, que já dura quase uma década, porém, diz respeito ao direito sobre o nome “Legião Urbana”. Giuliano entrou com um processo em 2013 para proibir Dado e Bonfá de o usarem ao vivo, mas perdeu. De acordo com a ação, se o herdeiro tentasse impedi-los de tocar podia pagar até R$ 50 mil por tentativa. Dado e Bonfá passaram a fazer shows sem usar o nome do grupo em si; em vez disso, se apresentavam como “Dado e Bonfá cantam Legião Urbana”. Em 2014, Giuliano entrou com uma ação rescisória para tentar reverter a decisão. Quer impedi-los de citar o nome e ainda exige um terço de toda a renda das turnês. O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, e a decisão sai no dia 6 de abril.

Na obsessão por controlar o material do pai, Giuliano conseguiu apreender judicialmente todo o material que estava na sede da gravadora Universal Music, alegando que ali haveria músicas inéditas. Eram, na verdade, apenas sobras de estúdio, amplamente catalogadas e conhecidas. Para Dado e Bonfá as disputas foram desgastantes. Alegam que a Legião Urbana acabou com a morte de Renato, mas que eles serão eternamente relacionados ao trio. “Nunca debatemos a quem pertencia a nossa banda, pois sempre foi público e notório que a Legião Urbana era de Renato, Dado e Bonfá. Nas palavras do próprio Renato, a banda não existiria sem um de nós. A Legião é nossa vida, é parte de nós”, divulgaram, em comunicado. Giuliano Manfredini foi procurado por ISTOÉ e não respondeu até o fechamento dessa edição.

POLÍTICA Paula Toller e Leoni: canção na campanha motivou briga (Crédito:Reprodução Web)

Paula Toller e Leoni, fundadores do Kid Abelha e ex-namorados, começaram a brigar judicialmente em 2018, quando Leoni usou um trecho da música “Pintura Íntima” em sua rede social e trocou os famosos versos “Fazer amor de madrugada / Amor com jeito de virada” para “Com Manu e Haddad de mãos dadas / Chegou a hora da virada”. O músico permitiu que o PT usasse a canção na campanha, o que levou Paula a um processo vencido em primeira instância, que cobrou R$ 50 mil do ex-namorado e R$ 100 mil do comitê petista — no caso ainda cabe recurso. Em outro processo, dessa vez movido por Leoni, Paula levou a pior: foi condenada a pagar indenização pela ação movida por Leoni pelo uso não autorizado na turnê “Como Eu Quero”, nome de uma parceria do ex-casal. O valor ainda será anunciado pela 2a Vara Empresarial do Rio de Janeiro.

Paulo Ricardo, ex-vocalista do RPM, sempre foi o galã da banda. Mas hoje está proibido de cantar as músicas. A decisão foi movida pela Justiça de São Paulo em processo que corria desde 2017, movido pelos ex-integrantes. Em 2007, os quatro membros assinaram um documento proibindo o uso das canções e da marca de forma individual por qualquer um dos integrantes e Paulo Ricardo ficou responsável por registrar o Grupo RPM no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) como algo pertencente a todos: além dele, os músicos Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo Pagni.

Eles afirmam que o vocalista, porém, não fez o que foi combinado. Alegou que a banda foi criada sob “sua incontestável liderança” e que os três antigos colegas eram apenas “músicos acompanhantes”. Agora, terá de indenizar os antigos companheiros em R$ 117 mil. Toda vez que quiser cantar um dos famosos hits do passado, Paulo Ricardo deverá pedir autorização aos demais — com exceção de Paulo Pagni, morto em 2019, cujos direitos foram para os herdeiros. Se essas bandas parassem de brigar e concentrassem seus esforços em lançar novos trabalhos de qualidade, quem sabe seus problemas poderiam ser resolvidos nos palcos — e não nos tribunais.