Luís Eduardo Magalhães, 27/05 – Conhecidos pela produção de soja, milho e algodão, produtores do oeste da Bahia estão apostando também no trigo como alternativa de cultivo de safrinha e rotação de culturas em áreas irrigadas. Em contrapartida, com os bons resultados de qualidade e produtividade obtidos na região, um empresário do setor de pães avalia investir em um moinho para processar o cereal em Luís Eduardo Magalhães. O tema foi discutido em palestra da programação da Bahia Farm Show. O trigo do oeste baiano vem de duas cultivares desenvolvidas e lançadas pela Embrapa para a região – BRS 264 e BRS 364. O trabalho de melhoramento genético do cereal com foco no Cerrado vem sendo feito desde a década de 1980. “Com essas variedades, nós verificamos que o potencial aqui é muito maior do que imaginávamos. Os produtores estão alcançando produtividades em torno de 6 toneladas por hectare. A média nacional fica em torno de 2,4 toneladas por hectare”, destacou o pesquisador de trigo Julio Cesar Albrecht, da Embrapa Cerrados. Com esse rendimento, segundo o pesquisador, produtores conseguem obter um lucro de até R$ 2 mil por hectare, considerando os preços atuais do cereal. O objetivo é chegar, no curto prazo, a 140 a 150 sacas por hectare. Ainda conforme Albrecht, o trigo produzido na região está entre os melhores do mundo em termos de qualidade para panificação, comparável ao trigo do Canadá. Atualmente a área total irrigada no oeste da Bahia soma 120 mil hectares. O pesquisador acredita que facilmente poderiam ser ocupados com trigo 15 mil hectares deste total, considerando a produtividade e a qualidade obtidas na região. Por enquanto, os produtores estimam a área já semeada com o cereal na região em apenas 2 mil hectares. As variedades plantadas são de trigo de primavera, que não exige tanto frio quanto aquele produzido no Sul do País, de inverno. E o fator determinante é a altitude. “Recomendamos o plantio para áreas acima de 500 metros, onde há temperaturas favoráveis para o desenvolvimento desse trigo”, apontou o pesquisador. O atrativo, além da alta produtividade, é que o trigo quebra o ciclo de pragas e doenças. “É uma cultura supressora de doenças de solo e plantas daninhas.” A produtividade competitiva e a boa qualidade do cereal da região atraíram a atenção do empresário João Ramos, do Grupo Limiar, que produz pães congelados e prontos para consumo em Salvador. Ele estuda investir em um moinho em Luís Eduardo Magalhães. O empresário ressalta que o grupo é grande consumidor de farinha de trigo e que o Estado da Bahia, como não produz, sofre uma evasão de divisas porque precisa trazer trigo de fora, seja do Sul, ou ainda da Argentina ou do Canadá. Segundo ele, a empresa avalia questões de logística, armazenagem e tributação para decidir sobre o investimento. “Estamos em uma fase de levantamento de informações para analisar a viabilidade do projeto. Temos a percepção de que ele tem potencial e avaliamos com muito cuidado.” Segundo o empresário, se a região chegar a 5 mil hectares plantados com trigo, o investimento, estimado em R$ 40 milhões, já se tornaria viável. Atualmente, a empresa consome farinha proveniente de dois moinhos em Salvador e um em Sergipe. Contudo, como o trigo é uma commodity e é apenas uma das opções que o produtor tem à disposição para plantar, Ramos avalia que é preciso costurar um acordo a três mãos entre o Grupo Limiar, os produtores e o governo para estimular a continuidade da produção e o processamento dentro da região. Para o produtor Fábio Ricardi, que já tem 700 hectares semeados em Riachão das Neves e vai para o terceiro ano de plantio, o trigo é atrativo pela produtividade em relação ao tempo de cultivo: em 100 dias ele consegue colher 100 sacas por hectare. “O trigo aqui é de alta tecnologia irrigada”, destacou. “Nosso objetivo é chegar a 160 sacas por hectare para concorrer de vez com o milho.” Antes, ele semeava nesta mesma área milho, feijão, algodão e sorgo. Para a presidente do Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhães, Carminha Missio, se for feito o processamento na região e produtores não precisarem arcar com despesas de transporte, a cultura fica mais viável e tentadora para o produtor. O desafio também é a possibilidade de financiamento. “Hoje na nossa região não existe custeio para trigo ainda. São linhas de crédito que terão de ser fomentadas.”