Bagatela sobre uma lorota

Nossa reação ao coronavírus nada tem de histeria; histérico é o clima do debate político que grassa nas redes sociais desde a eleição presidencial de 2018.

Graças à pandemia, as pessoas entendem a necessidade da colaboração, mas quando o assunto é política, o que se vê é um estúpido embate entre bolsonaristas e petistas, ou entre bolsonaristas e todos os que não rezam pela cartilha de Jair Bolsonaro.

O radicalismo dos adeptos de Bolsonaro não é apenas um radicalismo simétrico ao do PT e uma reação aos desmandos do PT nos dezesseis anos em que esteve no poder. Aos quais é preciso acrescentar a abominável conduta de vários membros do STF – Supremo Tribunal Federal, que insistem em soltar indivíduos que deveriam estar trancafiados. O delírio bolsonarista é mais que isso. Sua base é a estapafúrdia ideia de que a eleição de 2018 teria outorgado ao vencedor um mandato sem limites, sequer se preocupando em preservar uma aparência de normalidade institucional. A eleição teria sido uma “revolução branca”, a ser prosseguida e aprofundada até o limite do que consideram necessário. Entendam-me: estou me referindo à atitude destrambelhada de uma parcela dos eleitores de Jair Bolsonaro. Tenho muitas reservas a fazer à atuação do presidente, à sua tendência a minimizar a gravidade da pandemia e à falta de um empenho sério no desarmamento dos espíritos, mas não chego a dizer que seus impulsos radicais sejam tão virulentos como os de uma grande parte de seus eleitores. Esses, como comecei a dizer, parecem entender que a maioria eleitoral lhe permite fazer o que bem entender. É aí que mora o risco: um grave risco.

O corolário desse entendimento é que o próprio Bolsonaro, ou os militares, têm o dever de intervir no processo político, derrubar as instituições representativas, e instaurar um regime nos moldes que lhe parecerem convenientes. Sendo evidente que uma parcela importante da sociedade se oporia a tal projeto, segue-se que uma grande parte dos homens de farda ora ocupados na administração do país e até no combate à pandemia precisaria ser deslocada para a repressão a esses hipotéticos opositores. Tentando enxergar um pouco além, estaríamos falando de uma guerra civil. Essa teria o condão de espantar o coronavírus, de liquidar a corrupção, de equilibrar as contas públicas, e de restaurar a ordem que ela mesma teria quebrado. Alguém consegue conceber uma ideia mais idiotia que essa?

Nossa reação ao coronavírus nada tem de histeria; histérico é o clima do debate político

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