Cultura

A aventura amazônica de Stan Lee e Chalita

Criador de personagens como Hulk e Homem-Aranha produz série de “graphic novels” com histórias do autor brasileiro em projeto que inclui filmes, musicais, jogos, brinquedos e até parque temático

A aventura amazônica de Stan Lee e Chalita

Foi enquanto assistia ao desenho “O Rei Leão”, durante um voo entre Tóquio e Los Angeles, que o empresário Frederico Lapenda teve a ideia de produzir algo parecido, só que ambientado na Amazônia. Nascido em Pernambuco, Lapenda vive há quase 30 anos nos Estados Unidos, onde montou um conglomerado na área de entretenimento cujos negócios incluem a produção de shows, eventos de artes marciais, videogames e cinema.

Os dois últimos filmes que ele produziu foram estrelados por Nicolas Cage. No ano passado, Lapenda adquiriu os direitos para o Brasil do documentário “With Great Power: The Stan Lee Story”, aproveitando os 75 anos de carreira do criador de super-heróis como Homem-Aranha, Hulk e Homem de Ferro. A parceria virou amizade e já rendeu novos negócios, incluindo parcerias com ídolos do esporte como Pelé e o surfista Kelly Slater. O novo projeto de Lapenda com o aval de Stan Lee é justamente a versão amazônica de “O Rei Leão”.

Ainda com o título provisório de “Amazônia: Os Guardiões da Verdade”, ele é o embrião de um ambicioso empreendimento que pode dar origem a livros, filmes, videogames, bonecos, espetáculo musical e até um parque temático.

Por enquanto, o que existe de concreto é a primeira história de uma série de “graphic novels” a ser lançada pela grife Stan Lee Kids Universe. Quando apresentou sua ideia de um “Rei Leão” amazônico para Stan Lee, Lapenda recebeu uma missão: encontrar um escritor brasileiro.

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O escolhido foi Gabriel Chalita, autor de mais de 80 títulos que abordam educação infantil, religião, filosofia, ética, educação e Direito. “Chalita consegue transportar o leitor para um mundo poético com suas mensagens profundas sobre convivência, solidariedade, respeito. Ele pode influenciar positivamente as crianças e os jovens — temas que estão no DNA da Stan Lee Kids Universe”, diz Lapenda. Para ele, a empresa tem tudo para se tornar uma nova Disney.

Conhecido pelas dezenas de livros que escreveu e também pela carreira política (ele foi vereador, deputado federal, secretário de Educação e candidato a prefeito em São Paulo), Gabriel Chalita, 47 anos, preside a Academia Paulista de Letras, é educador, palestrante, mestre e doutor em Direito. Seu primeiro livro foi publicado ainda aos 12 anos. “Eu tenho uma obra vasta de ficção infantil”, diz Chalita, citando como exemplo uma coleção que escreveu em parceria com o cartunista Mauricio de Sousa e “A Ética do Rei Menino”, livro que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares e foi adaptado para um musical encenado no parque Hopi Hari, no interior paulista. “O Lapenda não me conhecia até ler essa história. Quando ele me procurou, achei que era uma pegadinha: por que o Stan Lee iria se interessar por mim?”, diz Chalita.

Convencido por Lapenda de que era a pessoa mais indicada para escrever a história, ele rapidamente preparou
um resumo, ambientando a trama na Amazônia e com super-heróis inspirados em animais da região. O argumento foi aprovado por Stan Lee, que convocou uma reunião em Los Angeles para a assinatura do contrato.

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A EQUIPE Stan Lee, Gil Champion (CEO da Kids Universe), o produtor Terry Dougas, Gabriel Chalita e Frederico Lapenda em Los Angeles, na assinatura do contrato: projeto combina educação e entretenimento

Além de Lee e de seu sócio Gil Champion, e dos brasileiros Chalita e Lapenda, faz parte da empreitada o produtor de cinema Terry Dougas, que tem no currículo filmes como “Verônica Decide Morrer”, baseado no livro homônimo de Paulo Coelho. Chalita não poderia estar mais feliz. “Nosso encontro foi mágico. O Stan Lee me deu total atenção, perguntou detalhes sobre o meu processo de criação de personagens, de onde vinham as minhas ideias. Para Lee, quando algo vem do coração, só pode dar certo”, afirma Chalita, que já escreveu as primeiras três histórias de um total de dez previstas no contrato. Elas terão o mesmo conceito dos outros livros da Stan Lee Kids Universe, caso de “Dinosaurs Vs. Puppies”, parceria com o famoso “encantador de cães” da TV, Cesar Millan. No universo infantil de Lee, animais diferentes podem conviver em paz. Seguindo esse proncípio, a saga de Chalita também fala de tolerância e respeito.

Na primeira história da série serão apresentados quatro Guardiões da Verdade, cada um deles associado um elemento da natureza. “A vitória-régia é a senhora das águas; o uirapuru, que quando canta a floresta silencia, é o senhor dos ventos;
o macaco uacari, que só existe na Amazônia, representa o fogo; e a tartaruga gigante simboliza a terra”, diz Chalita. Na trama, os quatro heróis se unem para vencer o vilão Lamal, um monstro feito de lama — impossível não associá-lo à tragédia causada em 2015 pelo rompimento da barragem em Mariana.

 

Stan Lee leu e gostou. “Estou animado por trabalhar com um projeto no Brasil. Em ‘Os Guardiões da Verdade’, nossos heróis educarão os leitores sobre a importância da floresta amazônica”, diz Stan Lee. “Iremos combinar educação e entretenimento. Cada história terá uma mensagem moral. A proposta da Stan Lee Kids Universe é ampliar o interesse dos jovens pelo conhecimento”, afirma ele.

FOCO
Para Lapenda, o aval de Stan Lee permite que os desdobramentos da história avancem para além da imaginação. Ainda assim, ele se mantém realista. “É preciso manter o foco, pois duas curvas à esquerda levam à direção oposta a seu objetivo”, acredita. Embora os desenhos ainda não estejam prontos, o lançamento do primeiro volume está agendado para março. No Brasil, a série “Amazônia: Guardiões da Verdade” sairá pela FTD, maior editora de livros didáticos do País.