Internacional

Avante, ecologistas

Os verdes vencem o partido de Emmanuel Macron e aumentam a representatividade da esquerda na política francesa. A extrema direita liga o sinal de alerta

Crédito: Elko Hirsch

ASCENSÃO Vitória de quem quer mudanças: os ambientalistas chacoalham o tabuleiro político francês (Crédito: Elko Hirsch)

PREOCUPAÇÃO É hora de olhar para o futuro: Macron adota novo discurso para fortalecer a imagem do governo (Crédito:NICOLAS TUCAT / AFP)

Os ecologistas venceram. Com vitórias decisivas conquistadas no segundo turno das eleições municipais francesas no último domingo, 28, o partido Europa Ecologia (EELV) — apelidado de Os Verdes —, confirmou sua ascensão no cenário político local ao superar o partido do presidente Emmanuel Macron e assumir o poder nas prefeituras de cidades importantes como Lyon, Marselha, Bordeaux, Estrasburgo e Paris, obtida através de uma coalizão com a socialista Anne Hidalgo, que foi reeleita. Nem mesmo o clima de receio causado pelo coronavírus e uma possível segunda onda da doença impediram a semente das ideias ambientalistas de brotar e dar frutos. A abstenção atingiu números elevados. Apenas 40% dos eleitores votaram, ou seja, quatro em cada dez pessoas. Mas quem exerceu seu papel se deparou com uma organização com rígidos protocolos de higiene, como o uso obrigatório de máscaras, álcool em gel e distanciamento social.

Yoan VALAT / POOL / AFP

O avanço dos ecologistas caminha lado a lado com o tema da proteção ambiental, que atraiu a maioria dos eleitores. Há alguns meses, o grupo era tido como uma pedra no sapato de governos de extrema direita. Mas, agora, ignorar sua presença pode acarretar conflitos simbólicos e improdutivos na esfera administrativa do país, principalmente depois do desgaste da atual gestão durante a pandemia. Em turbulência, o República em Marcha (LREM), partido encabeçado por Macron, foi salvo do vexame pelo primeiro-ministro Édouard Philippe, bola da vez no quesito popularidade por sua atuação na contenção da Covid-19 e novo prefeito de Le Havre. Como a Constituição permite, ele pode nomear um suplente para governar em seu lugar enquanto mantém seu cargo no poder Legislativo.

A percepção do governo identificou que em uma sociedade pós-coronavírus, discursos populistas e insensíveis com a natureza, inclusive com a proteção da Amazônia, assunto que interessa muito aos franceses, trarão rejeição, sobretudo de seu próprio eleitorado. Houve, por exemplo, uma avalanche de críticas após a manutenção do primeiro turno das eleições em 15 de março, quando a Covid-19 já fazia estragos no país. Por esse e outros motivos, o presidente deu sinais de que está atento às novas tendências. No dia seguinte ao resultado histórico dos verdes, Macron deixou evidente sua postura contrária ao tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. As alegações foram direcionadas para países que não respeitam o Acordo de Paris e não adotam medidas sustentáveis. Macron observa para onde os ventos políticos sopram para reforçar sua imagem nas próximas eleições presidenciais.

Surfando na onda

O mundo pós-quarentena é uma tela em branco e os políticos sabem que terão de lidar com uma grande incerteza. Tanto na França como em outros países europeus, as exigências por medidas ecológicas se destacam, abrindo margem para que a velha política não seja mais suficiente para conduzir uma Nação. Alemanha, Áustria, Irlanda e Holanda, por exemplo, possuem mentes ambientalistas em ascensão. A sustentabilidade e a proteção do meio ambiente ganham força nestes tempos de crise sanitária. E a cultura do cancelamento, em que uma personalidade é criticada quando dá um passo errado se aplica na política e já preocupa quem está no poder. Resta saber quem irá surfar ou naufragar na crescente onda verde.

 

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