Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Essa é uma história nova e, ao mesmo tempo, muito antiga. Nova porque começou a ser escrita, literalmente, há cerca de 30 anos, depois da Constituição de 1988, depois do início das políticas públicas para a alfabetização dos povos indígenas e da promulgação da Lei n.º 11.645, que, em 2008, incluiu a temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena no currículo das escolas, abrindo caminho para a publicação de obras literárias. E antiga porque é milenar, remete a conhecimentos e tradições de muito antes de Cabral e foi passada oralmente de geração em geração.

Uma história que começou a ser contada em livro por nomes como Eliane Potiguara, Kaká Werá e Daniel Munduruku, e que hoje encontra novas vozes, linguagens e temas – sempre com o mesmo respeito pela ancestralidade e pela terra.

Julie Dorrico tem 30 anos. Mora em Porto Velho, é macuxi, escritora, poeta e faz doutorado em literatura indígena na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande de Sul. Pelas suas contas, existem hoje, no Brasil, 57 autores indígenas. Ainda é pouco, mas é um começo – e Julie ajuda a divulgar o trabalho deles em seu canal no YouTube, o Literatura Indígena Brasileira.

Se antes o espaço era ocupado pelos autores de livros para crianças – e Julie diz que essa foi uma estratégia dos próprios escritores que, ao iniciar o diálogo com a sociedade dominante, optaram por começar a falar com educadores e crianças -, hoje vemos pensadores como Ailton Krenak e Davi Kopenawa despertando o interesse do grande público.

Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, lançado por Ailton no ano passado, segue na lista dos mais vendidos e, junto com o lançamento A Vida Não É Útil, do começo do mês, já ultrapassa os 60 mil exemplares vendidos. A edição é da Companhia das Letras, que também publica Kopenawa e lançou, lá em 1997, o primeiro livro de Daniel Munduruku – que foi o primeiro de um indígena para crianças não indígenas. Hoje, Daniel e seus mais de 50 títulos já venderam 5 milhões de cópias.

“Há um tema no mundo que tem favorecido a manifestação da literatura indígena que é uma preocupação coletiva com o meio ambiente – uma preocupação, diga-se, que sempre foi a dos indígenas. Isso tem permitido que esse lugar de enunciação seja mais escutado. Tem sido muito bacana porque a literatura indígena sempre discutiu isso e sempre se posicionou contra o capitalismo e a expansão”, comenta Julie Dorrico.

Para a pesquisadora, “a sociedade tem um papel muito importante na luta contra o racismo e pela desconstrução das hierarquias de opressão” e há muito o que ser repensado. “A literatura indígena tem ensinado o leitor não indígena a repensar a história, a memória, os imaginários simbólicos impregnados no imaginário nacional.” Tem ensinado a escutar.

E sobre o que essa produção fala? “Ela tem duplo aspecto. É de resistência, e essa é uma bandeira importantíssima para as minorias em direito, mas é também de reexistência, como diz Kaká Werá. Existe nela uma indignação em relação à colonização, que é sempre tematizada, e também o orgulho de ser indígena e o sentimento de afeto que existe com relação ao povo”, responde. Os autores são protagonistas e narradores de suas histórias. Histórias que lemos sem mediação ou interpretação, sem os estereótipos que marcaram a figura do indígena brasileiro em outros movimentos literários. E mais: existe a vontade de fazer diferente.

Julie Dorrico é a editora convidada do primeiro número da revista p-o-e-s-i-a, parte integrante de um projeto homônimo idealizado pela poeta Beatriz Azevedo, que foi apadrinhado por nomes que vão de Chico Buarque e Conceição Evaristo a Leonardo Fróes e busca o fortalecimento da poesia brasileira olhando, e cuidando, do poeta e formando públicos. A revista impressa é a contrapartida para quem apoiar uma campanha de financiamento coletivo no Benfeitoria. E esse apoio está sendo transformado em bolsas para poetas em vulnerabilidade. No momento, estão sendo ajudados 5 poetas. Se tiver mais dinheiro, a lista será ampliada.

Uma dessas pessoas é Auritha Tabajara, a primeira e, possivelmente, a única cordelista indígena do Brasil. Contadora de histórias que vivia em São Paulo e tinha trabalho pelo menos até novembro, ela precisou da ajuda de amigos para conseguir embarcar em um ônibus rumo ao Sítio Boa Esperança, no interior do Ceará. Com os contratos suspensos por causa da pandemia, ela já não podia pagar o aluguel nem se manter com a filha na capital. Chegando à casa de Francisca, sua avó, de 91 anos, a quem deve boa parte de suas histórias, soube que ia ganhar os R$ 600 da bolsa por três meses. “Fiquei muito feliz. Isso está me ajudando a comprar comida e a pagar a internet para eu conseguir continuar trabalhando – ou pelo menos divulgar o trabalho.” No dia em que conversou com a reportagem, ela participaria, sem ganhar cachê, de uma live com alunos de uma escola particular de São Paulo.

A vida não tem sido fácil para Aurtitha, de 40 anos, mas, segundo ela, a literatura oferece um caminho e um alívio. Indígena, nordestina, poeta, lésbica. Dois filhos mortos e uma desaparecida. Agora desempregada. “Minha história é muito triste, mas é de superação. Nunca desisti dos meus objetivos e uso essa força na minha escrita.”

Às vésperas de fazer 70 anos, Eliane Potiguara, homenageada na revista, também fez da palavra a sua força. Autora de A Terra é a Mãe do Índio e de Metade Cara, Metade Máscara, ela é ativista e participou, no Brasil e no exterior, dos principais momentos e discussões no que diz respeito aos direitos dos indígenas e, sobretudo, das mulheres indígenas. Foi ameaçada de morte, sofreu violência sexual. Seguiu adiante, lutou, inspirou outros ativistas e escritores. Hoje, ela conta que anda triste, que os cânticos de seus avós adormeceram dentro dela. Cardíaca, ela se afastou dos protestos de rua. Restou a escrita.

“A literatura indígena é um movimento revolucionário, de reação e resistência. Meu movimento político hoje é a escrita, é incentivar os jovens e levar essa história para a frente, contando a verdade de quem somos, para onde queremos caminhar e o que queremos.” E qual é, ainda, o seu sonho? “É ver os direitos dos povos indígenas constituídos verdadeiramente. E é por isso que eu sofro. Somos seres humanos, com coração e alma, e merecemos respeito”, responde a autora que trabalha, com a ajuda do neto, que datilografa para ela, em crônicas para um novo livro. Ainda não há previsão de publicação, e ela conta que duas editoras estão interessadas na obra.

Enquanto cuida do coração na casa da filha, no Rio, ela se sensibiliza pelo avanço do coronavírus nas aldeias, onde o isolamento é mais difícil, e lamenta o retrocesso na questão da demarcação das terras indígenas. “Um indígena sem terra significa um indígena que está predestinado à morte”, conclui. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.