Saúde da mulher

Autismo não é doença: tudo o que você precisa saber sobre a condição

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Apesar de estar ganhando cada vez mais representantes na mídia, o autismo ainda é um assunto pouco discutido. A prova disso é que, no Brasil, não existem dados oficiais sobre a condição — eles serão coletados somente a partir de 1 de agosto de 2022, durante o Censo Demográfico. Isso significa que não se sabe, exatamente, quantas pessoas com autismo existem no país, apesar de as estimativas circularem em torno de 2 milhões de indivíduos.

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O descaso e a falta de informações concretas têm como resultado concepções erradas sobre a condição, bem como o preconceito e a dificuldade de se criar ambientes inclusivos. Abaixo, tudo o que você precisa saber sobre o autismo com informações do “Healthline”.

O que é autismo?

Transtorno do espectro autista (TEA) — ou simplesmente autismo — é um termo amplo usado para descrever um grupo de condições do neurodesenvolvimento. Essas condições são caracterizadas por diferenças na comunicação e interação social, e pessoas com TEA geralmente demonstram interesses ou padrões de comportamento restritos e repetitivos.

Em 2016, um estudo feito nos Estados Unidos com crianças de 8 anos descobriu uma proporção de 4,3 meninos com TEA para 1 menina com TEA. Na mesma pesquisa, 1 em cada 54 crianças era autista.

Sintomas de autismo

Geralmente, os sintomas de TEA se tornam evidentes entre os primeiros 12 a 24 meses de uma criança. No entanto, eles também podem aparecer mais cedo ou mais tarde. Existem duas categorias de sintomas de TEA:

• Problemas de comunicação e interação social;

• Padrões restritos ou repetitivos de atividades ou comportamento.

Para ser diagnosticado com autismo, uma pessoa deve apresentar sintomas em ambas as categorias.

Problemas de comunicação e interação social

Muitos desses sintomas aparecem antes dos 5 anos. Confira a linha do tempo:

• A partir do nascimento: dificuldade em manter contato visual;

• Aos 9 meses: não “responder”, visualmente, ao seu nome e não exibir expressões faciais que reflitam suas emoções;

• Aos 12 meses: não se envolver em jogos interativos básicos e não usar (ou usar apenas alguns) gestos com as mãos;

• Aos 15 meses: não compartilhar seus interesses com os outros (mostrando um brinquedo a outra criança, por exemplo);

• Aos 18 meses: não apontar ou olhar para onde os outros apontam;

• Aos 24 meses: não perceber quando os outros parecem tristes ou magoados;

• Aos 30 meses: não se envolver em brincadeiras de “faz de conta”, como cuidar de uma boneca ou brincar com figurinhas;

• Aos 60 meses: não jogar jogos de revezamento.

Crianças autistas podem ter problemas para expressar seus sentimentos ou entender os sentimentos dos outros a partir dos 36 meses.

À medida que envelhecem, eles podem ter dificuldade em falar ou ter habilidades de fala muito limitadas, além de desenvolver sua linguagem em um ritmo irregular. Se houver um tópico específico que seja muito interessante para elas, por exemplo, pode ser muito mais fácil desenvolver um vocabulário forte para falar sobre o assunto, mas pode haver dificuldade em se comunicar sobre outras coisas. Crianças com autismo também podem falar em um tom de voz incomum.

Elas podem, ainda, mostrar sinais de hiperlexia, que envolve ler além do esperado para sua idade. As crianças no espectro autista podem aprender a ler mais cedo do que seus colegas neurotípicos, mas tendem a não compreender o que estão lendo. Embora a hiperlexia nem sempre acompanhe o autismo, pesquisas sugerem que quase 84% das crianças com hiperlexia estão no espectro.

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À medida que interagem com os outros, as crianças no espectro podem ter dificuldade em compartilhar suas emoções e interesses ou achar difícil manter uma conversa. A comunicação não-verbal, como manter contato visual ou linguagem corporal, também pode ser um desafio. Todos esses obstáculos de comunicação podem persistir ao longo da vida adulta.

Padrões restritos ou repetitivos de atividades ou comportamento

Além das questões de comunicação e sociais, o autismo também inclui sintomas relacionados a movimentos e comportamentos corporais, como: 

• Movimentos repetitivos, como balançar, bater os braços, girar ou correr para frente e para trás;

• Alinhar objetos em ordem estrita e ficar chateado(a) quando essa ordem é perturbada;

• Apego a rotinas rígidas;

• Repetir palavras ou frases;

• Ficar chateado(a) com pequenas mudanças;

• Concentrar-se intensamente em partes de objetos, como a roda de um caminhão de brinquedo ou o cabelo de uma boneca;

• Reações incomuns à entrada sensorial, como sons, cheiros e sabores;

• Interesses obsessivos;

• Habilidades excepcionais, como talento musical ou capacidades de memória.

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Outras características

Algumas pessoas no espectro podem apresentar sintomas adicionais, incluindo:

• Movimentos, linguagem ou habilidades cognitivas atrasadas;

• Convulsões;

• Sintomas gastrointestinais, como constipação ou diarreia;

• Preocupação excessiva ou estresse;

• Níveis incomuns de medo (mais altos ou mais baixos do que o esperado);

• Comportamentos hiperativos, desatentos ou impulsivos;

• Reações emocionais inesperadas;

• Hábitos ou preferências alimentares incomuns;

• Padrões de sono incomuns.

Autismo e estereotipias

Um sintoma de TEA amplamente conhecido são as estereotipias — ou stimming. Esse é um termo usado para descrever comportamentos autoestimulantes, muitas vezes envolvendo movimentos ou falas repetitivas.

O stimming pode atrapalhar a vida cotidiana ou causar danos físicos às pessoas com autismo, mas também pode servir como um mecanismo de enfrentamento útil para lidar com a sobrecarga sensorial ou navegar em situações desconfortáveis.

Tipos de autismo

Publicado em 2013 e utilizado por médicos para diagnosticar diversos distúrbios psiquiátricos, o  Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) reconhece cinco subtipos de TEA:

• Com ou sem deficiência intelectual concomitante;

• Com ou sem comprometimento de linguagem concomitante;

• Associado a uma condição médica ou genética conhecida ou fator ambiental;

• Associado a outro transtorno do neurodesenvolvimento, mental ou comportamental;

• Com catatonia.

Uma pessoa no espectro pode receber um diagnóstico de um ou mais especificadores.

Antes do DSM-5, pessoas com autismo poderiam receber os seguintes diagnósticos:

• Transtorno autista;

• Síndrome de Asperger;

• Transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação (PDD-NOS);

• Transtorno desintegrativo da infância.

Quem já recebeu um desses diagnósticos não precisa ser reavaliado. De acordo com o DSM-5, o diagnóstico mais amplo de TEA engloba condições como a síndrome de Asperger.

Causas do autismo

A causa exata do TEA é desconhecida. Pesquisas mais atuais, entretanto, demonstram que não há uma causa única. Alguns fatores de risco incluem:

• Ter um membro imediato da família no espectro;

• A presença de certas mutações genéticas;

Síndrome do X frágil e outros distúrbios genéticos;

• Nascer de pais mais velhos;

• Baixo peso no nascimento;

• Desequilíbrios metabólicos;

• Exposição a metais pesados ​​e toxinas ambientais;

• Infecções virais na história materna;

• Exposição fetal aos medicamentos ácido valpróico ou talidomida.

De acordo com o Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrame (NINDS) dos Estados Unidos, tanto a genética quanto o ambiente podem determinar se uma pessoa desenvolve TEA. É importante pontuar, inclusive, que estudos já concluíram que vacinas não são capazes de causar TEA.

Diagnóstico

Um diagnóstico de TEA envolve testes de triagem (screenings), testes genéticos e avaliações. A recomendação da Academia Americana de Pediatria (AAP) é que todas as crianças sejam submetidas à triagem de TEA aos 18 e 24 meses.

A Lista de Verificação Modificada para Autismo em Crianças (M-CHAT) é uma ferramenta de triagem comum. Responsáveis preenchem a pesquisa de 23 perguntas, e pediatras usam as respostas para ajudar a identificar crianças com maior chance de desenvolver TEA.

É importante pontuar, entretanto, que a triagem não é um diagnóstico, e as crianças que são positivamente “rastreadas” para TEA não necessariamente o têm. Além disso, os exames nem sempre identificam todas as crianças autistas.

Outros exames e testes

• Teste de DNA para doenças genéticas;

• Avaliação comportamental;

• Testes visuais e de áudio para descartar quaisquer problemas de visão e audição que não estejam relacionados ao TEA;

• Triagem de terapia ocupacional;

• Questionários de desenvolvimento.

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Formas de suporte

Não há cura para o autismo. No entanto, algumas terapias e outros métodos podem ajudar a aliviar alguns sintomas. São elas:

• Terapia comportamental;

• Terapia lúdica;

• Terapia ocupacional;

• Fisioterapia;

• Fonoaudiologia.

Massagens, roupas e cobertores pesados e técnicas de meditação também podem ajudar. No entanto, os resultados podem variar. 

Inclusão

Segundo o “Autism Speaks”, de onde são as informações a seguir, a inclusão é feita quando se oferece as mesmas atividades para todos, ao mesmo tempo em que se fornece suporte e serviços para acomodar as diferenças. As organizações inclusivas alcançam ativamente as pessoas com deficiência e procuram compreender e apreciar as suas diferenças, ao mesmo tempo que promovem um sentimento de pertencimento.

A inclusão de pessoas com autismo pode ser feita das seguintes formas:

• Tornar acessíveis, para pessoas com autismo, atividades e programas em que pessoas neurotípicas participem;

• Desenvolver programas comunitários para indivíduos com autismo;

• Incluir pessoas com autismo nos mesmos programas que seus pais escolheriam para eles caso elas não estivessem no espectro;

• Proporcionar oportunidades para relacionamentos sociais entre indivíduos neurotípicos e dentro do espectro;

• Ensinar todos os jovens a compreender, aceitar e valorizar as diferenças humanas.

Benefícios da inclusão

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Para pessoas com autismo

• Podem participar de programas em sua comunidade com seus irmãos, amigos e vizinhos;

• Aprendem com seus colegas, que servem como modelos para ajudá-los com habilidades sociais e comunicação;

• Recebem preparação para a vida adulta na comunidade.

Para pessoas neurotípicas

• Aprendem empatia e são expostos à diversidade;

• Sentem-se à vontade para interagir com pessoas com deficiência (PcD);

• Percebem que as pessoas com deficiência são como elas em muitos aspectos, e que têm pontos fortes únicos junto com seus desafios.