Atriz e diretora, Paula Cohen defende o teatro no combate à violência contra a mulher

Vencedora do Prêmio APCA de Melhor Atriz de Teatro por 'Finlândia', artista destacou papel de produções artísticas na conscientização da sociedade

Júlio Arakack
Paula Cohen Foto: Júlio Arakack

Vencedora do Prêmio APCA de Melhor Atriz de Teatro por “Finlândia”, montagem que aborda temas como machismo e desafios emocionais, Paula Cohen falou abertamente sobre o papel fundamental de artistas em frear a crescente onda de violência contra a mulher no Brasil.

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No início de março, a diretora compartilhou um desabafo no Instagram sobre os casos de feminicídio que tomaram conta dos noticiários neste ano.

Ao comentar sobre seu posicionamento, ela explicou que participou de produções que contribuíram para o processo de descontrução na sociciedade anos atrás, e que está muito assustada com o avanço de movimentos como Redpill e Incel entre os brasileiros.

“Isso se espalhou e ganhou seguidores”, afirma, em entrevista à IstoÉ Gente. “A gente precisa ir nas bases desses movimentos. Eu tenho que falar sobre isso.”

“Essa luta é minha há muito tempo, e eu acho que vai ser até o meu último suspiro.”

Paula explica que produções como “Carne de Mulher”, monólgo que protagonizou em 2017 e retrata uma mulher que sofreu diferentes violencias ao longo da vida, são peças-chave para que outras vítimas se identifiquem e busquem ajuda. Segundo a autora, a arte é passível de fazer consciência. “Ela traz o despertar. Seja no drama, seja na comédia”.

Ao comentar outras possíveis ações para frear casos como o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, no inico de março, ela citou a necessidade da educação de meninos ainda no desenvolvimento infantil.

“É estrutural do masculino. Depende muito também de onde você é criado e o pensamento da sua família: ‘menino não pode chorar’, ‘menino não pode ouvir não'”, desabafa. “Frente a uma mulher falando ‘não’, é como um despeito para o masculino violento e perverso”.

‘Finlândia’ e ‘Mulheres em Chamas’

Para a atriz, pisar no palco do teatro é como estar em sua segunda casa. Aos 51 anos, a diretora experimentou a euforia de participar de uma montagem pela primeira vez ainda na adolescência, quando tinha 16.

Após dedicar “uma vida” à essa arte, Paula Cohen explica que é impossível mensurar a felicidade ao conquistar o Prêmio APCA de Melhor Atriz de Teatro por “Finlândia”, obra que produziu, captou e atuou ao lado do marido, Jiddu Pinheiro.

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“É quase como que validar um pouco”, brinca. “Ser premiada por ‘Finlândia’ tem um sabor especial, porque ela serve como um espelho de uma relação que está em uma fase ruim”.

De acordo com a autora, o título retrata dificuldades que não são mais tão representadas em nossa atualidade, além de abordar temas sensíveis, como a toxicidade das relações e o fim do casamento de casais com filhos. “Se você vai levantar um espetáculo, é para divertir, para conscientizar ou para pensar. Mesmo na comédia ou no drama.”

“Às vezes, você transforma poucas pessoas, mas faz uma revolução. A gente tem uma missão: Eu, como atriz, sou proponente. Eu sou olho d’água. Eu quero fazer a coisa acontecer e reverberar mesmo.” 

Paula Cohen e Jiddu Pinheiro – Crédito: José de Holanda

“Mulheres em Chamas” também é um reflexo dessa ânsia de mudar a realidade da sociedade. Criado por Camila Raffanti, Juliana Araripe e Miá Mello, a produção retrata três mulheres prestes a entrar na meia idade, presas em um elevador e com apenas uma coisa em comum: a menopausa.

Convidada para dirigir a montagem, ela relembra que o tema principal da obra foi tratado como “algo” clandestino no passado. Em 2002, uma pesquisa “afirmou” que a reposição hormonal em mulheres poderia influenciar no desenvolvimento de câncer.

“Foi um atraso, porque as mulheres apavoraram e jogaram tudo fora. Elas voltaram a sofrer os calores, as insônias e as angústias”, explica. Por isso, ela assume que se surpreendeu com o sucesso da produção.

“Isso, ficou muitos anos encruado. Então, é muito bonito de ver, sabe? As mulheres vão e voltam. Elas se reconhecem. Agora, as amigas poderem se falar entre si.” 

*Estagiária sob supervisão