Atletas de países tropicais e desérticos buscam glória nos Jogos de Inverno

ROMA, 5 FEV (ANSA) – Países sem neve natural, montanhas ou qualquer tradição em esportes de inverno também marcarão presença nas Olimpíadas de Milão e Cortina d’Ampezzo, que terão um recorde de 94 nações participantes, incluindo os tropicais Benin e Guiné-Bissau, na África, e os desérticos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio.   

Uma das narrativas mais fascinantes é a do esquiador Muhammad Karim, em sua quarta edição de Jogos Olímpicos. Nascido em 1995, em um vilarejo nas montanhas do Paquistão onde as temperaturas baixas são a regra, ele treina na neve artificial de Dubai. “Não importa de onde você vem. Se há uma montanha à sua frente, você pode escalá-la”, afirmou certa vez.   

Na juventude, diante da falta de equipamentos em sua terra natal, ele compactava a neve manualmente para depois descer com um par de esquis de segunda mão. Posteriormente, mudou-se para Dubai para treinar, e hoje frequenta a Turquia para praticar na neve natural.   

A Ski Dubai, pista indoor no deserto emiradense, também trouxe sorte a outro atleta: Alex Astridge, dos próprios Emirados Árabes Unidos, que terão um competidor nas Olimpíadas de Inverno pela primeira vez.   

“Nunca imaginei que um garoto crescido esquiando em um shopping center pudesse chegar às Olimpíadas”, comentou recentemente Astridge, que será acompanhado por Piera Hudson, esquiadora neozelandesa que agora defende as cores dos Emirados.   

“Não importa qual bandeira eu visto: quero apenas esquiar da melhor forma e inspirar quem vem de países sem neve”, disse ela.   

O Haiti, um dos países mais pobres do planeta, retornará aos Jogos com Richardson Viano, já presente em Pequim 2022. Criado em um orfanato da capital Porto Príncipe, ele foi adotado ainda bebê por um casal italiano residente nos Alpes franceses, onde se apaixonou pelo esqui alpino. O fundista Stevenson Savart tem história parecida: nascido no Haiti, mas adotado por franceses aos três anos, ele venceu até o prestigioso Challenge Vincent Vittoz, prova tradicional do esqui cross-country, e pode surpreender em Milão-Cortina.   

Ainda no Caribe, não se pode deixar de citar a Jamaica.   

Décadas se passaram desde a histórica primeira participação em Calgary 1988, e agora o país se apresenta em três modalidades: bobsled quádruplo e em duplas no masculino e monobob feminino, com a atleta ex-britânica Mica Moore.   

No Benin, o inverno não existe (há apenas a estação seca e a das chuvas), e, ainda assim, esta pequena nação africana terá seu primeiro esquiador olímpico: Nathan Tchibozo, de 21 anos.   

Sua trajetória esportiva está ligada à França, para onde se mudou muito jovem com a família. É no país transalpino onde ele treina e conquistou os primeiros pontos para a classificação olímpica.   

Outro país tropical fará sua estreia na neve das Dolomitas: a Guiné-Bissau anunciou a presença de um atleta, Winston Tang, nascido e criado nos Estados Unidos, onde treina em Utah. Com 19 anos, ele compete no slalom e no slalom gigante do esqui alpino e é um expoente da diáspora guineense, tendo obtido sua cidadania em 2025.   

Já o Brasil tem sido presença frequente nas Olimpíadas de Inverno, porém agora almeja conquistar sua primeira medalha, com o esquiador alpino Lucas Pinheiro Braathen, que antes competia pela Noruega e é um dos melhores do mundo no slalom e no slalom gigante, e a piloto de skeleton Nicole Silveira. (ANSA).