Brasil

Ativismo cívico

Inspirados pelas crises políticas da última década, grupos se organizam para liderar uma agenda crítica às lideranças atuais, tanto o bolsonarismo quanto o petismo

Crédito: Marco Ankosqui

“Já conhecíamos o histórico de fanfarronice, incompetência e vagabundagem do deputado Bolsonaro. Não houve surpresa” Leandro Machado, cientista político do Agora (Crédito: Marco Ankosqui)

Nem Bolsonaro, nem Lula: esse é o lema que norteia os grupos cívicos que surgiram na última década no País. Criados principalmente no embalo das manifestações de 2013, movimentos organizados por jovens lideranças viram na política uma forma de buscar soluções para os problemas brasileiros. RenovaBR, MBL, Agora e Livres, os mais populares entre esses novos players, começam a atingir sua maturidade. Hoje a responsabilidade é maior, uma vez que já elegeram prefeitos, deputados e vereadores em todo o território nacional. Todos, no entanto, têm pontos em comum: são signatários do Super Impeachment de Bolsonaro e estarão juntos na manifestação que ocorrerá na Avenida Paulista, em 12 de setembro. Seus líderes falaram com exclusividade à ISTOÉ.

“O presidente da República representa o oposto de liberdade. Tanto na questão econômica, quanto nos costumes” Mano Ferreira, jornalista do Livres (Crédito:Marco Ankosqui)

Houve um momento em que eles se identificaram com o bolsonarismo, mas o estelionato eleitoral do presidente foi logo percebido e houve um recuo. O movimento Agora surgiu de forma embrionária em 2010, lembra o cientista político Leandro Machado, de 43 anos. Ele diz que, à época, se surpreendeu com o amadorismo e a falta de qualidade dos partidos políticos. “Ao conhecê-los por dentro, percebemos que era necessário preparar candidatos para intervir a partir da sociedade civil”. Para o cientista político, o Agora se define ideologicamente como “centro-avante”, ou seja, “progressistas de centro”. A unidade contra Bolsonaro é uma marca do grupo, desde o início. Durante o segundo turno da eleição de 2018, porém, esse posicionamento era interpretado como apoio ao PT. Por isso, preferiram ficar neutros. “Depois de eleito, não esperamos muito para fazer a crítica ao presidente. Bolsonaro baseia seu governo em preconceito. Já conhecíamos o histórico de fanfarronice, incompetência e vagabundagem do deputado Bolsonaro. Não houve surpresa”, afirma Machado.

Incubados no PSL

O movimento Livres já foi próximo de Bolsonaro, ainda que contra a vontade de parte de seus líderes. Criado dentro do PSL, tinham um acordo para ocupar mais espaços na sigla na medida em que iam crescendo. “O PSL naquele momento, em 2016, era uma sigla nanica”, diz o jornalista Mano Ferreira, de 31 anos. Havia um pacto para que a legenda mudasse de nome para “Livres” e que adotasse um novo modelo de governança partidária. Em janeiro de 2018, porém, o combinado foi atropelado pela filiação do ex-capitão. O “conchavo” entre Luciano Bivar e Bolsonaro provocou a saída do movimento do PSL, em 5 de janeiro de 2018. “O presidente da República representa o oposto de liberdade. Tanto na questão econômica, quanto nos costumes”, diz Ferreira. Para o jornalista, a ideia de que a minoria deve se curvar à maioria ou ser extinta, defendida por Bolsonaro, exemplifica quem é o presidente e contraria a ideologia do Livres, que se define como “liberal por inteiro”.

“Rompemos com o governo quando os filhos do presidente começaram a apoiar o fechamento do STF e do Congresso” Kim Kataguiri, deputado federal (Crédito:Kleyton Amorim)

A promessa de privilegiar o liberalismo econômico não foi cumprida por Bolsonaro — isso afastou ainda mais os movimentos jovens, segundo a cientista política Juliana Fratini. “Nenhuma reforma econômica significativa foi realizada, além da evidente negligência na condução da pandemia”. Juliana também elenca posturas contrárias aos ideais do grupo, como o negacionismo, o incentivo ao armamento da população, o ataque às instituições e o questionamento do sistema eleitoral. Bolsonaro, para o Livres, conseguiu superar as piores expectativas a respeito do seu governo.

O MBL foi o grupo que manteve a identidade com o presidente durante mais tempo. Seus líderes chegaram a apoiar Bolsonaro no segundo turno e nos primeiros meses de governo. O apoio logo se deteriorou: o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), de 25 anos, disse que a gota d’água contra o governo aconteceu na condução da pandemia, com incentivo às aglomerações e negação da ciência, além da intervenção na Polícia Federal. A ruptura definitiva, no entanto, aconteceu em 26 de maio de 2019, quando “os filhos do presidente começaram a apoiar o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso”, afirma Kataguiri. O deputado diz que, a partir desse momento, o governo mobilizou a máquina institucional e seus blogueiros para atacar o MBL nas redes sociais.

JOVENS As manifestações de 2013 forjaram novas organizações políticas na sociedade civil baseadas no liberalismo (Crédito:MIGUEL SCHINCARIOL)

Os grupos ouvidos têm em comum uma ideologia que prevê o liberalismo econômico e dos costumes. O mais interessante é que, conscientemente, eles tendem a rejeitar o reacionarismo. Cabe acompanhar de perto esses movimentos para compreender como se dará esse amadurecimento político — a mordida da mosca do poder já mudou muita gente. De qualquer forma, a organização da sociedade em defesa da democracia é um sopro de bom senso muito bem-vindo ao Brasil de hoje.