Um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos estima que a incorporação de apenas 10 minutos diários de atividade física pode prevenir cerca de 420 mil casos de demência no país até 2050. A medida traria uma economia de R$ 16 bilhões em custos relacionados à doença, conforme a análise publicada em 2025 no Brazilian Journal of Psychiatry.
- A inclusão de 10 minutos de atividade física diária pode prevenir 420 mil casos de demência no Brasil até 2050.
- A inatividade física está diretamente ligada a 14,9% dos casos de demência no país, aponta estudo.
- Especialistas ressaltam a importância do exercício para a saúde cerebral e a necessidade urgente de políticas públicas de incentivo.
Num cenário otimista em que a inatividade física fosse completamente eliminada, a economia potencial para o Brasil poderia alcançar R$ 23 bilhões. Os autores do estudo combinaram dados de 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com informações do Global Burden of Disease, conduzido nos EUA.
Os resultados da pesquisa são alarmantes e apontam que 14,9% dos casos de demência no Brasil estão associados à inatividade física. É crucial diferenciar inatividade física de sedentarismo: a primeira refere-se à prática de menos de 150 minutos semanais de exercícios, tempo mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Já o comportamento sedentário descreve o tempo que uma pessoa passa sentada, deitada ou reclinada, com baixo gasto energético.
Qual a diferença entre inatividade física e sedentarismo?
“Do ponto de vista populacional, sabemos que um em cada 15 casos de demência no mundo pode ser atribuído à inatividade física, o que equivale a um caso novo a cada 42 segundos que poderiam ser prevenidos com a atividade física”, relata o profissional de educação física Natan Feter, um dos autores do estudo.
O artigo projeta que o número de brasileiros vivendo com demência pode triplicar, saltando de aproximadamente 1,9 milhão em 2019 para 5,7 milhões em 2050. Esse aumento é impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional e traz consigo um impacto econômico significativo. Sete anos atrás, o custo estimado da doença no país já atingia US$ 35,3 bilhões, com a maior parte desse valor relacionada aos cuidados informais prestados por familiares.
Como a atividade física protege o cérebro?
A ciência tem acumulado evidências importantes nas últimas décadas sobre o papel fundamental do exercício na saúde cerebral. A prática regular de atividade física não só melhora a função cognitiva, como também reduz o risco de eventos cerebrovasculares, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), e estimula mecanismos cruciais ligados à criação e sobrevivência de novos neurônios. “Tudo isso ajuda a entender o papel protetor da atividade física no risco de demência”, observa Feter, que atua como pesquisador associado no departamento de Ciências Biológicas da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA.
O comportamento sedentário também se revela como um fator de risco relevante, elevando a probabilidade de desenvolver demência entre 17% e 30%. “Pessoas que passam mais de dez horas por dia nesse tipo de comportamento têm risco aumentado de demência”, alerta a geriatra Thaís Ioshimoto, do Einstein Hospital Israelita.
Contrariamente, atividades realizadas sentado que estimulam o cérebro, como leitura ou jogos de memória, não parecem ter a mesma associação negativa com a doença. “Na prática clínica, observamos que idosos mais ativos têm menor incidência de demência. Isso reforça a ideia de que tudo o que faz bem ao coração também faz bem ao cérebro: alimentação saudável, atividade física regular e controle da pressão e do colesterol”, explica Ioshimoto.
A meta dos 10 minutos diários
No estudo, observou-se que os maiores benefícios ocorrem justamente quando a pessoa sai da inatividade completa e passa a fazer algum nível de atividade. “Cada minuto que a pessoa consegue adicionar na rotina diminui o risco de demência”, frisa Natan Feter.
A ideia de trabalhar com pequenas doses de atividade física surgiu da percepção de que metas mais ambiciosas, como atingir os 150 minutos semanais recomendados pelas diretrizes internacionais, podem ser inviáveis para grande parte da população. Dez minutos por dia podem significar uma caminhada no bairro, ir à academia, realizar exercícios de fortalecimento muscular em casa ou, simplesmente, optar por ficar de pé por 10 minutos ao dia.
Na avaliação de Thaís Ioshimoto, a meta é realista para a maioria das pessoas. E, entre idosos que começam a se exercitar, os ganhos vão muito além da aptidão física. “Qualquer atividade física é válida, o importante é se movimentar. O exercício melhora o humor, aumenta a socialização e muitas vezes acaba estimulando outras mudanças positivas, como melhorar a alimentação”, afirma.
Políticas públicas para a atividade física
Apesar de os resultados reforçarem o papel das escolhas individuais, os pesquisadores destacam que a prática de exercícios também depende de condições sociais. Grande parte da população trabalha o dia inteiro e passa horas em deslocamento. Quando sobra tempo, muitas vezes não encontra ambientes seguros ou infraestrutura adequada para se exercitar.
“Precisamos entender a atividade física como um direito humano. Por isso, além de incentivar pequenas mudanças de comportamento, é fundamental investir em políticas públicas que ampliem o acesso a oportunidades”, conclui Feter.
Da IstoÉ com Agência Einstein.