Até tu, Moro

Não dá para competir. Esculhambação fica pequeno. Nem mesmo a pandemia global da Covid consegue se equiparar à força devastadora do Planalto. Quem ama o Brasil sofre, ajoelha e chora. Tudo é mau. Mau de mais para ser verdade.

Quando em outros os países, partidos e políticos inimigos se unem, solidários, contra o inimigo comum, o Brasil consegue quebrar todos os limites de civilidade e abrir uma ferida política insanável, bem no meio da maior crise sanitária da humanidade. É triste de ver. Mas infelizmente é a verdade.

Os fatos são graves, mas teriam de esperar a crise estar terminada. Querendo afastar o diretor da Polícia Federal o Presidente encontra a oposição do de Moro e os dois se incompatibilizam, os dois arrastando o Brasil para um pântano ainda mais fundo e fedido.

Bolsonaro pede ao Ministro que arrume um diretor da Polícia Federal com quem ele possa falar, alguém que lhe dê acesso a informações. Alguém que talvez lhe obedeça. Bolsonaro não acredita na Democracia e por isso age como se tivesse poder absoluto.

Moro não aceita nem o pedido nem a intromissão que considera uma quebra de promessa feita e se demite. Pede desculpa pelo momento, condena Carbonárias em momentos difíceis, mas invocando valores mais altos, quebra a presidência.

O herói do povo, justiceiro da Lavajato convoca uma coletiva e acusa o presidente de mentir. Acusa Bolsonaro de uma ingerência nos assuntos judiciários ainda maior que nos governos do PT

Mas esta não é uma crise qualquer. Porque Moro não é Mendetta, nem Regina Duarte nem Guedes. Moro é o ícone que representa a luta contra a corrupção, em torno da qual o próprio presidente montou seu discurso e sua estratégia. Ele não era apenas um ministro, ele era a alma do Presidente.

Bolsonaro não perde aquele ministro da Justiça que abandonou 22 anos carreira na magistratura para se dedicar à política, ele perde o apoio do homem em quem — com ou sem razão — os Brasileiros mais acreditaram nos últimos anos.

O dia 24 de abril de 2020 ficará na história do Brasil porque representa o fim do Bolsonarismo. Na coletiva de resposta, de novo cheia de confrangedoras confissões de impreparação política, é verdade que os ministros acompanharam o presidente em palco, mas não porque o apoiarão até ao fim, mas apenas porque no meio da pandemia os militares não permitirão que o Brasil fique sem Governo.

Errático, o discurso de Bolsonaro teve de tudo. Traição, mentira, família e até Deus. Só não teve uma palavra sobre o vírus que amedronta o povo.

Vivendo numa bolha, Bolsonaro é caricatura de si próprio. Jair já é uma ficção.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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