Até quando?


Rayssa e Devair votaram em Bolsonaro, porque PT nunca mais, mas aos poucos foram se decepcionando.

As suspeitas sobre os filhos e a mulher do presidente, as decisões ao longo da pandemia só pioraram as coisas.

Para Rayssa, a gota d’água foi à saída do Moro. Se o Moro saiu tem alguma coisa errada, porque ele é um homem muito sério, ela dizia para o marido e para as amigas. Todos concordavam.

O marido desistiu do presidente depois de ver o vídeo da reunião de abril. As coisas que o presidente disse o deixaram até envergonhado.

Segunda-feira, Devair que é gerente de logística de uma multinacional, acordou às 7h como sempre.Mesmo durante a quarentena ele manteve a disciplina de tomar café com a família. Sentava, abria o jornal, e conversavam sobre as coisas do mundo. É uma hora que estão todos juntos, afinal.


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Hoje era o primeiro dia do Devair de volta ao trabalho depois da quarentena. Ele achava cedo demais, com tanta gente ainda morrendo. Mas fazer o que?

Sentado à mesa com a mulher e o filho, Marques, estudante do ensino fundamental de uma escola particular, de uns tempos para cá não conversam de mais nada que não seja o governo.

– Que loucura. — diz o pai.

– Lamentável. — diz a mãe.

– Como você pode? — responde o pai.

– Nunca imaginei. — conclui a mãe.

O filho não fala nada, mas fica angustiado com a preocupação dos pais. Ainda mais porque tem sido assim, todas as manhãs, nos últimos meses…

Clayton é o gerente de almoxarifado da mesma firma do Devair. Casado com o Jailton, que é professor de inglês para executivos de empresas. Os dois se conheceram na firma e moram juntos há dois anos.

Clayton e Jailton são PT desde criança, os dois são filhos de metalúrgicos, difícil ser diferente.

Ficaram, a bem da verdade, meio decepcionados com a postura do Lula diante do Mensalão, mas nunca abandonaram o ideal do partido, mesmo à custa de algumas amizades, votaram no Haddad.

Durante a quarentena os dois resolveram viajar para Santo Antônio do Pinhal porque, como trabalhariam online, podiam estar longe de casa.

Levaram o Paçoca, um labrador filhote.

Agora voltaram, porque a firma decidiu acabar com a quarentena. Acham cedo, mas fazer o que?

Os dois gostam de levar o Paçoca para passear de manhã e sempre param para tomar café na padaria perto de casa.
No caminho, um compra a ISTOÉ, o outro compra o jornal.

Gostam de estar sempre bem informados, os dois.

Sentados na padaria, conversam sobre as notícias.

– Eu avisei. — diz Clayton.

– Tava na cara — diz Jailton.

– Que vergonha — responde Clayton.

– Eu sabia que ia dar nisso — responde o Jailton.

A caminho da firma, Devair e Clayton, cada um num ônibus diferente, escutam as conversas em volta e concordam com a cabeça.

– Não dá mais. — diz uma senhora cheia de sacolas.

– Nunca vi isso. — garante um homem de barba e bermudas.

– Isso é uma palhaçada. — desabafa para si mesmo uma evangélica discreta.

– Achei que já tinha visto de tudo. — comenta uma senhora de uns 80 anos.

Na firma, reunião de gerentes, o assunto é muito menos o trabalho e muito mais a situação do país.

– Como é que chegamos a essa situação? — pergunta o Lima, do financeiro.

– Eu avisei. — responde o Tobias, da expedição.

– Não pode ser. — diz o Costa, do RH.

– E ninguém se mexe. — reclama o Romero, do contas a receber.

Terminada a reunião, todos vão cuidar da vida. Durante o dia não falam de outra coisa. A maioria do país está assim, dizem. Nas casas, nos ônibus, nas ruas, nos trabalhos. Um país decepcionado, revoltado, chocado e inerte.

– Até quando isso, hein? — perguntou o Devair, no boteco depois do trabalho.

Mas ninguém respondeu.

Na firma, reunião de gerentes, o assunto que mais preocupa a todos é a situação do País e não o trabalho diário

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