Internacional

Ataque à democracia

Mais uma vez a postura do presidente Donald Trump altera as relações políticas dentro dos EUA. Uma multidão de apoiadores radicais foi ao Congresso com a intenção de impedir a certificação da vitória de Joe Biden nas eleições de novembro

Crédito: Leah Millis

ATAQUE Manifestantes cercam o Capitólio que parece tomado pelas chamas: Trump tenta impor sua vontade autoritária (Crédito: Leah Millis)


INCITAÇÃO Donald Trump discursa na Casa Branca e estimula os manifestantes a investirem contra o Capitólio (Crédito:Evan Vucci)

O presidente Donald Trump e seus apoiadores ultrapassaram todos os limites da civilidade e foram responsáveis por um dos maiores ataques à democracia americana em toda sua história. Na quarta-feira 6, dia em que o Congresso se reuniu em sessão conjunta para contar os votos e ratificar a vitória do novo presidente, Joe Biden, o que deveria ser uma obrigação protocolar se transformou num verdadeiro pandemônio. Insuflada por declarações antidemocráticas de Trump, uma multidão de radicais, já acostumados a protagonizar situações de embate, agressões físicas e xingamentos, promoveu, do lado de fora do parlamento, uma guerra campal contra policiais e agentes de segurança que se posicionavam em frente ao prédio. O objetivo era questionar o resultado das eleições e resistir à vitória de Biden, com base em alegações de Trump, já amplamente negadas, de que houve fraude na votação. Dezenas de pessoas foram feridas no conflito. Imagens de manifestantes e policiais sangrando correram o mundo. Nunca os Estados Unidos se pareceram tanto com uma República das Bananas, onde um governante ensandecido tenta destruir instituições sólidas usando a violência.

Tratou-se claramente de uma tentativa de golpe de Estado. Os apoiadores de Trump conseguiram invadir o prédio para interromper a sessão no parlamento e depredaram as dependências do Capitólio, um dos símbolos do poderio americano, que só havia sido ocupado uma vez, no século XIX. Para dominar a situação, os policiais retiraram os congressistas do plenário e usaram bombas de gás lacrimogêneo para conter os manifestantes. Pelo menos cinco manifestantes armados foram detidos pela polícia. Com revólveres em punho, dentro e fora do prédio, os policiais colocaram algumas pessoas no chão e impuseram a ordem. Uma mulher, ex-militar e seguidora de Trump, foi baleada e morreu. Treze pessoas foram presas. A situação dentro do parlamento chegou ao ponto de um manifestante sentar-se na cadeira da presidente da Câmara, Nancy Pelose. Antes da invasão, os republicanos se dividiam no apoio a Trump. Alguns de seus aliados se opuseram ao resultado da eleição no Arizona, onde Biden ganhou. Nada, porém, justificava a reação selvagem que se viu em seguida.

VANDALISMO Manifestantes reunidos diante do Capitólio (Crédito:Cheriss May/Getty Images/AFP)

O dia foi repleto de confusão. A sede do Comitê Nacional Republicano foi evacuada por causa de um pacote suspeito de conter uma bomba. Outro embrulho do mesmo tipo foi encontrado dentro do Capitólio. A instabilidade obrigou a prefeita de Washington, Muriel Bowser, a decretar toque de recolher de doze horas na capital. A postura antidemocrática do presidente Trump foi determinante para a insurreição dos manifestantes. Foi ele que pediu para seus apoiadores marcharem em direção ao parlamento. Na mesma noite, o presidente eleito Joe Biden repudiou os atos violentos dos manifestantes, da mesma forma que fizeram seus colegas de partido. “Nossa democracia está sob um ataque sem precedentes, diferente de tudo que vimos nos tempos modernos. Um ataque à cidadela da liberdade, o próprio Capitólio. Um ataque aos representantes do povo e à polícia do Capitólio, que jurou protegê-los, e aos funcionários públicos que trabalham no coração da nossa República. O que estamos vendo é um pequeno número de extremistas dedicados à ilegalidade”, afirmou Biden. “Isso é insurreição, não protesto”. Já Trump, cinicamente, pediu paz e disse que as pessoas deveriam voltar para casa. Mas manteve a mentira de que as eleições foram fraudadas. “Conheço sua dor. Tivemos uma eleição que foi roubada de nós. Vocês têm que ir para casa. Precisamos de paz, precisamos ter lei e ordem. Não queremos ninguém ferido”, declarou Trump pelas redes sociais. Sua filha Ivanka declarou apoio aos protestos em seu Twitter, mas depois apagou. Mesmo alguns parlamentares republicanos criticaram o ato. “Esta é uma tentativa de golpe”, afirmou o deputado Adam Kinzinger. Diante de postagens ofensivas e mentirosas, o Twitter bloqueou a conta de Trump por 12 horas.

Vergonha histórica

A tentativa de Trump de melar a eleição e o episódio de violência no Congresso motivaram duras críticas de ex-presidentes. O primeiro a se manifestar em uma rede social foi o republicano George W. Bush. “Foi uma visão doentia e de quebrar o coração. É assim que os resultados são contestados em uma república das bananas”, afirmou Bush. Já o ex-presidente Barack Obama disse que o momento é de “grande desonra e vergonha” para a Nação. “A história lembrará a violência de hoje no Capitólio, incitada por um presidente em exercício que continua a mentir sem provas sobre o resultado de uma eleição legítima, mas estaríamos nos enganando se tratássemos isso como total surpresa”, escreveu Obama. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, aliado dos EUA, classificou como “cenas vergonhosas no Congresso americano” e disse que seria fundamental que a “transferência de poder fosse pacífica”.

A tentativa de subverter a democracia começou no sábado 2, quando Trump teve a audácia de tentar subverter o resultado das eleições no estado da Georgia por fora do rito legal. Nem o mais nostálgico amante do período Richard Nixon na presidência americana, de 1969 até 1974, quando se tornou o primeiro e único presidente a renunciar do cargo, poderia ter imaginado que em 2021 o presidente Trump tentaria rebaixar os Estados Unidos a uma posição desonrosa e humilhante. Naquele dia, por meio de uma ligação ao secretário Brad Raffensperger, republicano e autoridade política do estado da Geórgia, responsável pela lisura da eleição, contagem de votos e pela ratificação do resultado local, Trump tentou coagi-lo a reverter o resultado das urnas. Foram várias investidas do presidente, “Veja, tudo o que eu quero fazer é isso: só quero encontrar 11.780 votos, um a mais do que nós temos (de diferença para Biden). Porque nós ganhamos o Estado (da Geórgia)”, disse.


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Sua estratégia persuasiva foi de elogios a Raffensperger. Trump disse, por exemplo, que se o secretário topasse revisar e reverter os votos ele seria uma pessoa respeitada pelo povo do estado. Durante o papo, Trump chamou Raffensperger pelo primeiro nome, algo íntimo, meticulosamente pensado para convencê-lo. Mas a resposta do secretário foi enfática, “Senhor presidente, o senhor tem pessoas que lhe enviam informações e nós temos nossas pessoas. Então, isso chegará ao tribunal, que terá que se manifestar. Nós temos que ficar com os nossos números. Nós acreditamos que nossos números estejam corretos”, disse. E parou por aí. Quando percebeu que seu assédio não surtiria efeito, Trump apelou para a intimidação. “Vencemos a eleição e não é justo tirar isso de nós assim. Isso vai sair muito caro de muitas maneiras”, afirmou Trump. Mais uma vez Raffensperger não se submeteu, “Bem, senhor presidente, o desafio que o senhor tem é que seus dados estão errados”, respondeu. Mais uma vez ficou claro que Trump não se conforma, absolutamente, em ser um dos poucos presidentes da história americana recente a não exercer um segundo mandato.

O jornal The Washington Post foi o responsável por trazer luz a mais uma tentativa de interromper a democracia americana, com na ocasião da renúncia do presidente Nixon, que se deu depois de uma reportagem do periódico, que desvendou o caso Watergate, denunciado pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward. Bernstein, inclusive, afirmou categoricamente, segunda-feira 4, que os escândalos do governo Trump são piores do que Watergate. “Isso não é um déjà-vu, é algo pior do que aconteceu no Watergate. Essa gravação evidencia o que esse presidente está disposto a fazer para enfraquecer o sistema eleitoral. Ilegalmente, inapropriadamente e imoralmente, ele tenta incitar um golpe para continuar como presidente dos EUA”, afirmou Bernstein à CNN americana. Para Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP, o telefonema de Trump configura-se em abuso de poder. “O presidente tenta manipular as eleições, mas não há provas”, disse.

RETOMADA O vice-presidente Mike Pence reinicia a sessão que confirmou a vitória de Joe Biden nas eleições de novembro (Crédito:HOGP)

Trump e o Partido Republicano apelaram à Justiça por 60 vezes e todos seus pedidos foram negados. No caso do Estado da Geórgia, historicamente um cabedal político dos republicanos, já houve duas recontagem de votos. Mas quem levou a melhor foram os democratas. Tanto na eleição presidencial, com Biden e Kamala, quantocna disputa pelo Senado, com as vitórias de Raphael Warnock, primeiro senador negro eleito no estado sulista, e do diretor de documentários, Jon Ossoff, Biden levou a melhor. A conquista do Senado vai beneficiar o governo Biden nas votações do Congresso. Os Democratas detêm agora a maioria nas duas casas. Segundo Fernanda, durante quatro anos de mandato, Trump tentou fazer com que a democracia americana derretesse por dentro. “Sua atitudes abalaram a confiança da opinião pública”, disse.

A professora de Relações Internacionais da Unifesp Caroline Pedroso compartilha da mesma opinião. Ao questionar o sistema eleitoral americano, vigente desde o século XVIII, o presidente plantou a dúvida na cabeça das pessoas sobre o processo democrático. Segundo a especialista, Trump reforçou a divisão da sociedade. “O trumpismo vai além da figura do presidente”, diz. Mesmo não sendo um modelo tradicional de político do partido Republicano, Trump conseguiu rachar o partido. Segundo Másimo Della Justina, economista e professor da Escola de Negócios da PUC do Paraná, que acompanha Trump e a política americana há 40 anos, por mais que a personalidade narcisista do presidente influencie o comportamento das pessoas, o resultado eleição não pode mais ser questionado, pelo menos dentro da lei, Biden venceu no Colégio Eleitoral por 306 contra 232. Além disso, a tradição construída pelos pais fundadores da Nação não será destruída e o sistema de pesos e contra-pesos continuará vigente. “O poder vigia o poder e o eleitor vigia a todos”, afirmou.

O ataque terá repercussões no país e no exterior. Pode, por um lado, favorecer a implantação da agenda política de Biden, pois a campanha de Trump contra o democrata passa a ter coloração puramente golpista. Também tem o potencial de enfraquecer a influência do atual presidente no Partido Republicano. O senador Ted Cruz e outros radicais que cerraram fileiras com Trump em suas mentiras contra o resultado eleitoral podem ficar constrangidos em seguir o trumpismo, ou tentar substituir a liderança do presidente. Já que este agora está claramente associado à incitação da violência e a uma tentativa de punch, os conservadores precisarão se reinventar e reafirmar o compromisso com a Constituição. Os EUA são a grande referência para as democracias liberais. O enfraquecimento de suas instituições bicentenárias pode ser um mau sinal em um momento em que as democracias pelo mundo estão à prova. Os candidatos a autocrata que seguiam Trump poderão se inspirar. Isso afeta o Brasil. No dia em que o Congresso americano foi atacado, Jair Bolsonaro reafirmou que “houve muita fraude na eleição americana” e disse que ligou para Trump. Os acontecimentos em Washington são uma espécie de prévia do que o bolsonarismo prepara para 2022 — deslegitimar o processo eleitoral e envergar a democracia para se perpetuar no poder.

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