A execução de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo e um dos principais ‘inimigos’ do PCC (Primeiro Comando da Capital), refletiu a falta de investimento do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) na corporação responsável por desarticular o crime organizado no estado.
Essa é a avaliação de Jacqueline Valadares, delegada da Polícia Civil desde 2010 e presidente do Sindpesp (Sindicato dos Delegados do Estado de São Paulo). Nesta entrevista à IstoÉ, ela afirmou não haver justificativa para que o ex-delegado não tivesse proteção após a aposentadoria e disse esperar que o atentado seja um “divisor de águas” na gestão de Tarcísio e Guilherme Derrite (PP), secretário estadual da Segurança Pública.
O que se sabe sobre a execução
Fontes dirigia um Fiat Argo no final da tarde de segunda-feira, 15, quando passou a ser perseguido por criminosos em uma Toyota Hilux na Vila Caiçara, bairro da litorânea Praia Grande, onde atuava como Secretário municipal de Administração Pública.
Segundo a SSP, o ex-delegado ainda disparou contra os perseguidores antes de seu veículo colidir com um ônibus e a execução acontecer, por volta das 18h20.
O delegado assassinado era especialista em PCC. Investigava há 25 anos os terroristas.
Tentou fugir, capotou o carro.
Os caras chegaram só pra finalizar com TIRO DE FUZIL.
O Brasil foi tomado.
Quem pensa por um minuto, tira os filhos desta várzea. pic.twitter.com/9nV3HjmtgP
— Rafael Gloves (@rafaelgloves) September 16, 2025
Uma das suspeitas dos policiais é que a ação tenha sido obra da Sintonia Restrita, grupo de pistoleiros do PCC responsável no passado por planos para sequestrar o ex-juiz Sérgio Moro e o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado).
Para promotores do Gaeco ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, “tudo indica que foi um crime de máfia”. Com histórico de combate à facção criminosa, Fontes já havia escapado de uma tentativa de execução em 2010.
Após o atentado, equipes da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), tropa de choque da Polícia Militar, foram enviadas ao litoral como parte de uma “força-tarefa” para localizar os responsáveis. Há expectativa de uma resposta dura dos policiais ao ocorrido.
Delegada espera que caso seja ‘divisor de águas’; leia entrevista
IstoÉ Semanas antes da execução, o ex-delegado relatou que não contava com proteção do Estado. Dado seu conhecido histórico de investigação do PCC, houve omissão?
Jacqueline Valadares Sem dúvida. Um delegado com esse histórico deveria ter um aparato de proteção sólido, mesmo após a aposentadoria. Acontece que há um padrão dispensado à Polícia Civil de São Paulo em que mesmo os agentes que estão na ativa do combate ao crime organizado não recebem aparato específico de proteção ou andam em carros blindados. O Estado parte do pressuposto de que, por seu ofício, eles devem fazer essa autopreservação.
Fontes era um policial extremamente operacional e, como as imagens da perseguição mostram, percebeu o perigo, mas não teve condição ou instrumentos suficiente para se proteger ou despistar os criminosos, que estavam em maior número. É triste que, depois de décadas investigando o PCC, policiais fiquem tão vulneráveis.
IstoÉ Com as informações disponíveis sobre o caso, a senhora interpreta a execução como uma resposta direcionada à atuação do ex-delegado ou um ato mais amplo?
Jacqueline Valadares A carreira de Fontes foi marcada pelo trabalho de desarticulação do PCC, o que faz desse um atentado contra a própria ideia de Justiça. É um crime que escancara, ao mesmo tempo, a realidade de falta de estrutura, investimento e valorização dos policiais civis de São Paulo.
IstoÉ A Secretaria estadual da Segurança Pública anunciou uma força-tarefa para identificar os responsáveis pelo atentado e enviou um efetivo policial robusto à Baixada Santista com esse objetivo. A julgar pelo histórico de execuções de agentes, uma apuração rápida do ocorrido é esperada?
Jacqueline Valadares A execução de um policial representa um rompimento do Estado Democrático de Direito e, portanto, demanda uma resposta célere. Quando uma facção criminosa tem a audácia de tirar a vida de um ex-delegado geral, ela demonstra a intenção de afrontar e ocupar o lugar do Estado. A força-tarefa deve ter a dimensão suficiente para recuperar esse espaço.
Mas é importante que a resposta não seja isolada. O governador tem de enxegar que onde há Polícia Civil enfraquecida, há fortalecimento do crime organizado, dado que a corporação é responsável por investigar e desarticular as facções, que estão tendo muitas brechas para atuar no estado.
IstoÉ É possível, a partir desse raciocínio, concluir que a execução foi um reflexo direto da falta de investimentos do governo estadual em investigação policial?
Jacqueline Valadares Sem dúvida. Onde há uma polícia investigativa valorizada, forte e estruturada, o crime organizado não consegue ocupar os espaços. É importante que o governo entenda isso e valorize essa instituição, ou teremos o risco de voltar a presenciar afrontas diretas ao poder do Estado.
IstoÉ Com as atividades faccionais como um dos problemas mais graves do estado, o secretário Derrite tem como principais bandeiras as operações truculentas da Polícia Militar, enquanto o governador Tarcísio tem se ocupado da defesa política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Há alguma perspectiva de que as prioridades mudem?
Jacqueline Valadares A razão é a pior possível, mas expectativa é de que esse caso seja um divisor de águas na percepção de Segurança Pública do governador. Enquanto o discurso de combate à criminalidade for meramente midiático e houver investimento em apenas um pilar da segurança, voltaremos a perder espaço para o crime organizado.
A Polícia Civil enfrenta dificuldades para manter seus agentes no cargo. Policiais que se destacam pedem exoneração e migram para estados que oferecem melhor remuneração e condições de trabalho. A execução do delegado escancara a inefetividade de ignorar o policiamento repressivo e investigativo. Sem esse trabalho, é impossível desarticular as grandes organizações criminosas.