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Assad envia tropas para norte da Síria após retirada de soldados dos EUA

Assad envia tropas para norte da Síria após retirada de soldados dos EUA

Combatente sírio pró-turco dispara, na cidade de Ras al-Ain, no norte da Síria, em 14 de outubro de 2019 - AFP

As forças do governo Bashar al-Assad entraram nesta segunda-feira (14) na cidade-chave de Minbej, no norte da Síria.

Uma autoridade local desta cidade controlada por um conselho militar ligado às autoridades curdas confirmou à AFP a chegada das tropas e “seu deslocamento para as linhas do front”, informou a agência oficial de notícias Sana.

O governo sírio enviou suas tropas para o norte do país na tentativa de conter a ofensiva turca contra as forças curdas que pediram ajuda, após o anúncio de retirada dos soldados americanos desta região.

Os cerca de mil soldados americanos, que estavam estacionados no norte da Síria para ajudar as forças curdas em seu combate contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), receberam a ordem definitiva de deixar o país, segundo uma autoridade americana.

Segundo a fonte, essa retirada diz respeito a todos os militares mobilizados na Síria, “salvo os que se encontram em Al-Tanaf”, uma base controlada por cerca de 150 soldados americanos no sul da Síria, país devastado por uma guerra complexa, de muitos atores, desde 2011.

Diante do avanço, desde 9 de outubro, das forças turcas e de seus aliados sírios que conquistaram amplos setores fronteiriços no norte sírio, e do anúncio feito no domingo sobre a retirada americana, as forças curdas pediram o envio do Exército de Bashar al-Assad para perto da fronteira.

A ofensiva de Ancara visa a instaurar uma “zona de segurança” para separar sua fronteira dos territórios controlados pelas Unidades de Proteção do Povo (YPGs), uma milícia curda classificada de terrorista por Ancara, mas apoiada pelo Ocidente.

As forças turcas e seus aliados locais conseguiram conquistar uma longa faixa de terra de cerca de 120 quilômetros de extensão, que vai da cidade fronteiriça de Tal Abyad até o oeste de Ras al-Ain.

Para conter o avanço dos turcos, as forças pró-regime foram enviadas para o sul de Ras al-Ain, na periferia da cidade de Tal Tamr, onde sua chegada foi celebrada pelos moradores.

Unidades do Exército Sírio se aproximaram até 6 km da fronteira. Tanques chegaram perto de Minbej e dos arredores das cidades de Tabqa e de Ain Issa.

– ‘Túneis subterrâneos’ –

Os combates continuam intensos em Ras al-Ain entre as tropas turcas e as Forças Democráticas Sírias (FDS), que têm as YPGs como principal componente, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

“Há uma ampla rede de túneis subterrâneos em Ras al-Ain”, afirmou Abu Bassam, um comandante sírio pró-turco. As FDS “se deslocam rapidamente e sob a terra”, completou.

A intervenção do governo é uma reviravolta que ilustra a complexidade da guerra na Síria.

“Entre os compromissos e o genocídio do nosso povo, escolheremos a vida”, disse Mazloum Abdi, o alto comandante das FDS, ao justificar o acordo com o governo Assad que prevê a entrada do Exército em Minbej e Kobane, cidades sob controle curdo, segundo um veículo ligado ao poder.

Desde o início da ofensiva, 128 combatentes curdos e 69 civis morreram, assim como 94 rebeldes pró-turcos, segundo o OSDH.

Já a Turquia anunciou a morte de quatro soldados na Síria e de 18 civis na queda de foguetes curdos sobre cidades fronteiriças turcas.

A ofensiva militar turca na Síria provocou o deslocamento de pelo menos 160.000 pessoas, informou nesta segunda o secretário-geral da ONU, que pediu “uma redução imediata das tensões”.

António Guterres disse em comunicado que está seriamente preocupado pela evolução da situação no norte da Síria.

Durante anos, países ocidentais, entre eles os Estados Unidos, ajudaram as FDS a enfrentar o EI na Síria.

Os curdos mantêm em suas prisões milhares de membros do EI, incluindo um grande número de estrangeiros, além de manterem milhares de familiares em acampamentos.

No meio da crise atual, os curdos e vários países europeus alertaram para um possível ressurgimento do EI diante do caos de segurança deflagrado pela ofensiva turca.

No domingo, as autoridades curdas afirmaram que quase 800 parentes de extremistas fugiram de um acampamento.

O presidente americano, Donald Trump, disse que os curdos podem “estar soltando alguns para nos forçar a nos envolver”. Trump declarou, mais uma vez, que “virão pesadas sanções contra a Turquia”.

A Turquia acusou as forças curdas sírias de esvaziarem uma prisão com detidos ligados ao EI e descreveu como “manobra de desinformação” suas declarações sobre uma fuga em massa de parentes de jihadistas.