Especial

As vítimas do poder

No período mais triste e trágico de sua história, o Brasil supera as piores projeções da pandemia, vê milhares de famílias destroçadas pela perda de seus entes queridos e continua desgovernado por um presidente impiedoso, negacionista e sem a mínima capacidade de comandar o País e combater a crise sanitária

Crédito:  Ueslei Marcelino

LUTO Em frente ao Congresso Nacional, homem acende vela ao lado de uma cruz: símbolo das mortes pela Covid-19: (Crédito: Ueslei Marcelino)

Especial – Brasil 400 mil mortos

PERVERSIDADE Bolsonaro faz chacota com a vida das pessoas e subestima os 400 mil óbitos (Crédito:EVARISTO SA)

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro faz piadas sem graça e gargalha diabolicamente, o povo brasileiro morre. No período mais triste e trágico da história do Brasil, o governo federal age com uma frieza perversa e o País afunda numa crise sanitária que contabiliza agora o tenebroso número de 400 mil mortes e dá poucos sinais de arrefecimento. Famílias inteiras estão sendo destroçadas pela pandemia, mães perdem seus filhos de uma hora para outra e a orfandade vira uma condição geral da população. Neste momento, 86% dos brasileiros declaram que conheciam alguém que morreu de Covid-19. Em muitos casos são os próprios pais, a esposa, o marido. Nunca uma doença atingiu a sociedade de maneira tão implacável e generalizada. E tudo se mistura com uma sensação geral de impotência e desproteção, típica de um País amaldiçoado. Por falta de inteligência comercial e logística, o governo brasileiro conseguiu ficar no fim da fila das vacinas e, sem ação, continua na sua discussão negacionista contra as medidas restritivas e o uso de máscara.

LOUCURA Pazuello circula sem máscara em shopping em Manaus: negligência (Crédito:Jaqueline Bastos )

Não era difícil imaginar que a situação da pandemia no Brasil atingiria níveis de destruição duplamente catastróficos. Houve uma sucessão de decisões erradas tomadas por um ministro despreparado que obedeceu cegamente as ordens de um chefe com deficiências intelectuais e problemas de discernimento. Graças a isso, entramos num buraco sem fundo e os dramas humanos se multiplicam. Não é coincidência o fato do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, ser flagrado andando sorridente sem máscara num shopping em Manaus (AM), e do pequeno Joaquim Carvalho, de apenas seis meses, sucumbir à Covid-19 em São Luiz (MA). Tampouco deve se considerar que a morte recente de Alexandre Terra, de 46 anos, filho da artista plástica Wanda Terra, aconteceu por acaso. A relação é direta entre a negligência do governo e cada um dos óbitos que se registra pelo País. Pazuello, ex-ministro e pau mandado de Bolsonaro para boicotar todas as medidas de controle da pandemia e promover o caos, expressava a crueldade do chefe e agora vai ser profundamente investigado em uma CPI no Senado. “O governo acha que a saída para resolver o problema da pandemia é deixar as pessoas terem a doença e morrerem”, afirma Gonzalo Vecina Neto, medico sanitarista e professor da USP. “Infelizmente, sem cuidado com o isolamento e sem cobertura vacinal, corremos o risco de chegarmos a 800 mil mortos”.

A irresponsabilidade é tanta que, contra as estatísticas e diferentemente do que se vê em outras partes do mundo, a mortalidade entre os mais jovens começa a aumentar exponencialmente no Brasil. Não é só o caso do bebê Joaquim, de Alexandre ou do empresário e esportista Leandro Bazaglia de 40 anos, um sujeito saudável, que não apresentava qualquer comorbidade. Morreu rapidamente, dia 24 de março, com os pulmões comprometidos em mais de 90% . Havia recebido cloroquina no tratamento. Nos últimos dias, a maior parte das pessoas internadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), em São Paulo, eram adultas com menos de 50 anos. O que parecia exceção até agora virou regra. Grupos que pareciam menos atingidos pela doença engrossam a lista de casos letais. Em parte isso se deve ao fato dos mais idosos já terem sido vacinados, mas o motivo principal é a propagação desenfreada da doença entre os próprios jovens que não se isolam e nem se cuidam, seguindo o exemplo do desleixo federal. Os últimos dados do Boletim do Observatório Fiocruz Covid-19 mostram que a pandemia “rejuvenesceu”. Entre 4 e 10 de abril, o maior crescimento no número de mortes, 1.081,82%, foi registrado na faixa etária de 20 a 29 anos. Já o maior crescimento no número de casos, que precede o número de mortes, foi de 1.173,75%, na faixa de 40 a 49 anos.

“Esse número é fruto do contrário do acaso. Ele é fruto de diversas ações que deixaram de ser feitas. O Brasil não se preparou para pandemia e depois se seguiram muitos equívocos”, afirma a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo. “Sem dúvida, se tivéssemos começado a vacinar no começo de janeiro e assegurado que as pessoas pudessem manter o isolamento social, teríamos evitado muitas mortes, um terço delas pelo menos”. Não faltam brasileiros que viram sua vida desmoronar de uma hora para outra, mas no governo só ecoam gargalhadas ou análises calculistas e abjetas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, depois de dizer que “o chinês inventou o vírus e a vacina dele é menos efetiva que a americana” dedicou-se a culpar a população por querer viver mais e a dizer que a alta expectativa de vida é a causa dos males da saúde. “Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130 anos, não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar a busca por atendimento médico”, disse, terça-feira 27, criticando o direito à vida numa reunião do Conselho de Saúde Complementar. Para Guedes e seus assessores, a morte de idosos é a solução da crise da Previdência Social. E esse projeto macabro está se realizando. Em 2019, a expectativa de vida no País, que vinha subindo em média quatro meses por ano, chegou a 76,7 anos. Só no ano passado, o brasileiro perdeu quase dois anos de expectativa de vida, que baixou para 74,8 anos e retornou ao patamar de 2013.

“O chinês inventou o vírus” Paulo Guedes, ministro da Economia (Crédito:EVARISTO SA)

Dramas pessoais

ISTOÉ conversou com cinco brasileiros, como a mãe de Leandro Bazaglia, Marylena, de 73 anos, ou com Wanda Terra, mãe de Alexandre, que ficaram sem seus entes queridos por causa da Covid-19 e podem resumir o luto da pandemia. Leandro ficou internado 14 dias na UTI e, ao final, teve dois AVCs e morreu. Com palavras entrecortadas por lagrimas, Marylena disse que pretende guardar todos os objetos do filho e, com a proximidade do Dia das Mães, ela reflete: “Essa data era maravilhosa, ele cantava para me agradar, agora, não sei o que será”. O advogado Elmo D’ávila, 45 anos, perdeu a mãe Almerinda de Souza, 77 anos, em fevereiro, depois de cinco dias tomando cloroquina e dexametasona e de passar 38 dias intubada. “A minha mãe tomou cloroquina, mas não adiantou nada”, afirma. D’Ávila é deficiente visual e só enxerga com 10% do olho direito. “Minha mãe me ajudava muito e me ensinou a ser independente”, conta. “Sinto-me devastado. Todos os objetos e cômodos da casa me lembram dela”.

ATRASO Para a pneumologista Margareth Dalcolmo, se a vacinação tivesse começado no início de janeiro e houvesse isolamento social, um terço das mortes poderia ter sido evitado (Crédito:Divulgação)

Desalento e saudade

O sentimento geral dos brasileiros é de desalento e saudade. Quem vive a perda sofre com insônia, falta de apetite e medo de uma situação inesperada. Com a aproximação do Dia das Mães essas sensações se acentuam. Allane Rodrigues, de 25 anos, definiu a perda de sua mãe, Maria José Rodrigues, 58, para a Covid-19, como uma tragédia pessoal. “Fiquei sem chão, sempre estávamos juntas”, disse. A família é de Macaíba, no Rio Grande do Norte e Maria era conhecida na região como por Maria da Sopa, já que era dona do restaurante especializado no prato. Allane conta que a mãe era uma pessoa muito ativa que trabalhava de sol a sol, mas que de uma leve dor de cabeça e uma tosse seca o vírus acabou com a vida dela causando uma parada cardíaca que levou a morte cerebral. “O que fica, além da tristeza, é a lembrança de que minha mãe era uma referência para família e para a cidade”, conta. Já Wanda Terra, que descreve o filho como alguém que esbanjava alegria, diz que sente “um vazio muito grande”. Wanda usou durante muito tempo o perfume Annete, lançado em 1984 pela marca de cosméticos O Boticário, mas o produto saiu de linha. Como Alexandre gostava que a mãe usasse a fragrância, ela passou a economizar o último frasquinho que lhe sobrou e só usava algumas gotinhas quando o filho ia visitá-la. “Meu filho era sensível e dizia que esse perfume tinha cheiro de mãe”, conta. Sabendo da história, a empresa decidiu produzir algumas unidades da fragrância especialmente para ela.

A distópica e tristemente funesta realidade brasileira parece estar longe de ter um final feliz. É um filme trágico que fica rodando dia a dia sem ter um ponto de virada que permita às pessoas envolvidas prever qualquer desenlace positivo. Muita gente está sendo atingida diretamente pela Covid-19, pela imensa irresponsabilidade do governo federal, e atingida até por aqueles que ao termino do curso universitário juraram salvar vidas, mas que na pandemia prescreveram cloroquina. Quando há um grande número de vítimas de uma doença ou de um desastre, imediatamente se faz a comparação: “Ah, essa quantidade de óbitos poderia encher um estádio de futebol.” Mas os 400 mil mortos pelo coronavírus no Brasil poderiam encher uma cidade, um estado, ou até um país. Além de inundar de tristeza um lugar que outrora era conhecido pela alegria.

Vacinação às escondidas

Divulgação

A situação do governo é tão miserável moralmente que os ministros e servidores de confiança, temendo represálias, são obrigados a tomar vacina contra a Covid-19 escondidos do presidente Jair Bolsonaro. Foi o caso do ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, que admitiu, terça-feira 27, numa reunião do Conselho de Saúde Suplementar, no Palácio do Planalto, que precisou se imunizar em segredo, dia 18 de abril, com a vacina da AstraZeneca. “Não tenho vergonha, não. Eu tomei e vou ser sincero, porque, porra, eu, como qualquer ser humano, quero viver. E se a ciência e a medicina estão dizendo que é a vacina, né, Guedes, quem sou eu para me contrapor?”, disse. Ramos também confidenciou o temor de perder Bolsonaro para o coronavírus e que está tentando convencer o presidente a tomar a vacina.