Brasil

As trapalhadas do secretário da Pesca

Jorge Seif Júnior gosta mais de ostentar viagens internacionais do que resolver os problemas da pasta que dirige: enquanto os pescadores estão em crise, ele passeia com dinheiro público

Crédito: Divulgação

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A pandemia e a crise hídrica estão causando enormes prejuízos aos 800 mil pescadores profissionais brasileiros, muitos deles com dificuldades para sobreviver, mas o secretário da Aquicultura e da Pesca do governo Bolsonaro, Jorge Seif Júnior, prefere ignorar os problemas do setor e usar a pasta, que tem status de ministério, para curtir a vida em viagens nababescas de turismo internacional, pagas pelos cofres públicos e que ele mesmo faz questão de enaltecer em suas mídias sociais. A mais recente mordomia postada por ele no seu perfil no Instagram, uma viagem de doze dias a Dubai, indignou a todos. O secretário integrou uma comitiva do governo brasileiro que viajou para os Emirados Árabes a título de “promover o turismo” brasileiro no exterior e transformou o evento em um agradável passeio de férias.

Júnior saiu do Brasil no dia 26 de setembro ao lado do amigo Gilson Machado, ministro do Turismo, do vicepresidente Hamilton Mourão e do presidente da Embratur, Carlos Brito, hospedando-se em hotéis de luxo. Não há informações do quanto essa viagem custou aos cofres públicos. O que se sabe é que parte dela foi feita em voos de carreira. Em média, uma passagem, ida e volta para Dubai, custa pelo menos R$ 5 mil por pessoa. Ele retornou ao Brasil na madrugada da quinta-feira, 7.

Nas redes sociais, Junior ostentou uma programação vazia de compromissos oficiais e repleta de passeios, com direito até a banhos de mar – tudo devidamente registrado pelas lentes do seu próprio celular e em vídeos postados no Instagram. “Estamos trabalhando, não estamos passeando, promovendo o turismo da Amazônia. Lógico que isso aqui, naturalmente, é um trabalho-passeio, né? Não adianta negar e ficar de sacanagem. Tu vem para um lugar desse, vê um lugar desse… É top demais”, disse Seif em um dos vídeos. Na série de gravações, o secretário fez piadas com tubarões e participou de uma brincadeira com o lutador de MMA Renzo Gracie, com quem se encontrou na viagem. Ele se dizia feliz por sua nova dieta. O mestre de jiu-jitsu, porém, fazia referência à ingestão de cerveja.

O fato é que muitos trabalhadores do setor não concordam com a atuação de Júnior à frente da secretaria. Eles acusam o secretário de usar o cargo para favorecer os negócios de seu próprio pai. Jorge Seif é dono de uma das maiores companhias de pesca industrial do Brasil. Sediada em Itajaí, em Santa Catarina, a JS Manipulação de Pescados foi beneficiada por uma decisão tomada por Júnior à frente da Secretaria. Ele editou uma norma do órgão dobrando o número de espécies de peixes que poderiam ser capturadas dentro de uma modalidade específica de pesca industrial, praticada apenas por duas embarcações no País. Uma delas, obviamente, é de propriedade do seu pai. Antes de ingressar no governo, Júnior também trabalhava na empresa do genitor.“Ele é odiado no setor da pesca, porque só pensa nos negócios da família. Sem contar que o secretário libera as licenças das suas próprias embarcações”, afirmou um político próximo aos pescadores catarinenses.

Empreguismo

Júnior, no entanto, tem costas largas. Desde o início do governo, ficou próximo do mandatário com a ajuda de Geralda Gonçalves, conhecida como Geigê, uma ex-faxineira radicada nos EUA e que também é muito ligada ao clã. Sua influência é tamanha que tornou-se madrinha de diversas indicações para cargos no governo, entre elas a de Júnior. Graças a Geigê, Seif também conseguiu arranjar um emprego para a sua mulher, Catiane dos Santos Monteiro Seif, que é gerente de Integridade e Integração da Embratur, com salário de R$ 25,7 mil. Uma vez no governo, Júnior propagava em Santa Catarina, onde mora, que se sentia parte integrante da família presidencial. Ele mesmo se deu o título de filho 06 do presidente. A proximidade entre os dois é tão grande que desde que assumiu a Presidência, Bolsonaro fez várias visitas ao amigo e chegou a pescar com ele no litoral catarinense. Seif Júnior, inclusive, tinha lugar de destaque nas lives semanais do mandatário. Nos últimos meses, no entanto, a frequência de suas aparições ao lado do presidente diminuíram, já que o comportamento de Júnior começou a incomodar os filhos do ex-capitão. “Jorge tinha uma brincadeira de beijar o presidente sempre que o via, levando os filhos Flávio e Carlos a ficarem incomodados com isso. Hoje, Seif Júnior aparece menos nas lives de Bolsonaro”, disse um antigo colega do secretário. Nos bastidores do Planalto, comenta-se que ele pode ser candidato ao Senado por Santa Catarina, mas isso estaria desagradando os bolsonaristas que defendem a candidatura do empresário Luciano Hang para a vaga. Seja como for, é consenso que ele precisa trabalhar mais e passear menos.