Economia

As torres adormecidas do La Défense de Paris, o maior bairro de negócios da Europa

As torres adormecidas do La Défense de Paris, o maior bairro de negócios da Europa

Arranha-céus no distrito financeiro de La Défense, em Paris, 16 de outubro de 2020 - AFP

Um andar parcialmente vazio e um espaço aberto na quarentena por causa da pandemia. Este é o duro novo normal de uma nova empresa no La Défense, o maior bairro de negócios da Europa, às portas de Paris, que se vê obrigado a se reinventar.

Após fechar a porta de um espaço de trabalho com 25 postos atualmente isolado, depois que um membro da equipe testou positivo para a covid-19, Laurent Levy, diretor-geral do Freelance.com, percorre os 1.200 m2 parcialmente desertos de sua empresa com cerca de 200 funcionários no 18º andar do Arco do La Défense.

“Agimos sem poder antecipar”, diz, alertando para o “impacto sistêmico que acontecerá no ano de 2021”.

Da janela, as imensas torres futuristas nos arredores apenas atravessam o céu carregado deste dia de outono na capital francesa, quase um ano depois de o coronavírus aparecer no mundo.

Mais abaixo, diretores de terno continuam ziguezagueando entre os arranha-céus do quarto centro financeiro do mundo. As grandes marcas e o impressionante centro comercial de 4 Temps monopolizam o fluxo diário de consumidores. Como de hábito, adolescentes de tênis ocupam as escadarias do Arco e, acima de suas cabeças, técnicos consertam o elevador vertiginoso.

“Visto de fora, parece que voltamos à normalidade”, afirma Cyril de Thoury, gerente de um grande banco no La Défense.

Os acessos do metrô e do RER – o trem do subúrbio -, lançam diariamente ao amanhecer enxames de trabalhadores, silenciosos atrás de suas máscaras. Não há espaço livre nos terraços dos restaurantes na hora do almoço e os 564 hectares do distrito financeiro parecem palpitar.

Mas por trás das paredes das 59 torres de aço e vidro, nada lembra muito o mundo de antes.

Segundo a entidade pública Paris-La Défense, que administra este bairro construído nos anos 1960, desde que o primeiro ‘lockdown’ foi suspenso na França no mês de maio, a presença dos cerca de 180.000 funcionários da região caiu 40%. Boa parte dos 3,7 milhões de metros quadrados de escritórios das 500 empresas estão desocupados.

O La Défense era um burburinho de bancos, sedes de empresas do CAC 40 (índice de referência da Bolsa de Paris) e de grandes empresas internacionais. “Não resta mais nada”, suspira Rabah Kidri, chefe da equipe de um grande banco da região.

Esta semana, o presidente Emmanuel Macron anunciou um novo ‘lockdown’ que entra em vigor partir desta sexta-feira (30) para conter a segunda onda de covid-19 que atinge o país.

– Sentido único –

No escritório de Kidri, um rapaz na faixa dos 30 anos, entre o ‘home office’, as medidas preventivas, e o sentidos de circulação únicos, os funcionários não estão “nunca no mesmo lugar ao mesmo tempo”, e por isso os vínculos sociais que os uniam desmoronaram e o trabalho perdeu intensidade.

“Para ver Antoine, que está três cadeiras atrás de mim, tenho que dar a volta em duas salas”, explica o jovem, que vai trabalhar dois ou três dias por semana na sede de sua empresa.

“Você só vai ver alguém por necessidade absoluta (…) Antes ia várias vezes ao dia, mesmo que fosse para ver como está ou cumprimentar”, continua.

Em outra torre, sede de uma empresa de energia, Mohamed, que trabalha na limpeza de escritórios no La Défense há 17 anos, viu o ambiente mudar radicalmente.

“Antes da covid, os funcionários podiam tomar um café conosco, riam. Agora é só trabalho, trabalho, e nada mais. Mesmo quando cruzamos na cafeteria, nos olham com receio: se usamos máscara, de que empresa somos… As pessoas desconfiam!”.

Para os funcionários da manutenção, a pressão é máxima. “Estamos na linha de frente. Não podemos errar. Se esquecemos de colocar sabão nos banheiros, o caso chega à direção” da empresa, relata Mohamed, que prefere não revelar o sobrenome. Assim como seus colegas, ele tem medo de pegar o vírus, mas é taxativo: “Não temos escolha, temos que trabalhar”.

Seu lema é “tranquilizar”, embora represente mais trabalho. “As pessoas têm que ver que estamos em todas as partes, que desinfetamos os elevadores, os escritórios, assim quando tocam em algo, sabem que está limpo”.

Durante o horário de almoço, Mohamed corre para desinfetar tudo: os teclados dos computadores, as mesas e as placas de acrílico instaladas entre as mesas dos escritórios para evitar o contágio.

Rabah Kidri prefere evitar a cantina, que deixou de ser um lugar de convivência: é preciso reservar o lugar com uma semana de antecedência para um prazo de meia hora.

Esse dia ele acompanhou os colegas do trabalho na “gestão de ativos” degustar um hambúrguer pedido por QR code para não tocar nos cardápios em um bar-restaurante próximo.

Antes da pandemia, eles se reuniam ali nas chamadas noites de integração ou em festas de despedida, que agora estão proibidas.

“Tentamos comer juntos”, sobretudo “em restaurantes, (…) para não ficar de máscara e conversar um pouco”.

Até isso é complicado: agora, as autoridades francesas recomendam usar a máscara à mesa quando não se está comendo e não se reunir com mais de seis pessoas.

Sair para beber com os colegas depois do trabalho – que para alguns serve para reduzir o estresse – é cada vez menos frequente, sobretudo por causa do fechamento parcial dos bares e do toque de recolher.

“Era um bairro muito animado, eu montava grandes ‘afterworks’ com shows, animações, mas hoje tudo acabou”, lamenta José Luque, gerente do bar-restaurante Histoire De, onde os dois andares não lotam mais.

Ele calcula ter 50% menos clientes do que antes. “E às segundas e sextas, são os 50% dos 50% do que costumamos ter”. Montar os horários dos garçons é um quebra-cabeça. “Às vezes fazemos as pessoas virem para nada e depois de uma hora, os mandamos para casa. Não conseguimos prever nada”.

“Temos a impressão de que o bairro está morrendo”.

– Ver a cara –

No La Défense, o ambiente é “taciturno”, “tenso”, contam os funcionários.

“Todo mundo espera com impaciência para poder tirar a máscara, eu sou o primeiro, para respirar um pouco e, mesmo que seja só pra ver a cara do outro”, diz Laurent Lévy, do Freelance.com.

A crise econômica se agrava com a segunda onda, que atinge a França em cheio. Para este ano, o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee) prevê uma recessão de 9% e a destruição de 840.000 empregos no país.

As grandes empresas das torres do La Défense parecem bastante sólidas, mas se ressentem.

O preço das ações da Société Générale quase se dividiram em três desde fevereiro. Em outros grupos, a atividade caiu tanto que os funcionários estão inativos. “Os chefes tentam ocupar as pessoas, dando-lhes tarefas adicionais”, conta o funcionário de uma pequena instituição financeira.

As lojas, sem a presença diária dos funcionários, e os turistas (8,4 milhões ao ano em tempos normais), se arrastam: a U Arena, a maior sala de concertos da Europa, registrou 28 milhões de euros (33 milhões de dólares) em perdas financeiras. O sofisticado restaurante La City, com sua galeria de arte no teto do Grande Arco, fechou temporariamente por falta de rentabilidade.

“Tudo se tornou mais pesado”, diz, suspirando, Chantal Raisséguier, diretora de uma consultoria imobiliária especializada em hotelaria. “Enquanto as coisas se mexem um pouco, temos a sensação de que haverá anúncios negativos, freios que voltam (…) Dá a sensação de que nunca vai parar”, lamenta.

E o que dizer das condições de trabalho?

No Freelance.com, assim como em muitas companhias do La Défense acostumadas a ferramentas digitais, o ‘home office’ é a norma. Foi imposto maciçamente e de forma repentina. Na maior parte das vezes, as pessoas se comunicam por e-mail, vídeo e telefone.

Neste contexto, a integração dos “novatos” é um quebra-cabeça. À distância “é muito mais complicado entender o que fazemos, quem é quem, os segredos da organização”, explica Claude Tempe, vice-presidente da empresa.

“A linguagem corporal, as relações humanas, as fofocas nos corredores, tudo isso constrói a forma como as pessoas se comunicam entre si”, enumera.

Cyril de Thoury, que chefia um grupo de nove pessoas em seu banco, diz que recrutou um jovem aprendiz sem ter se reunido com ele. Sua integração com equipes que estão presentes apenas 50% do tempo trouxe dificuldades enormes.

– Reinventar o escritório –

Mas além disso, tanto no Freelance.com quanto em outras empresas, o trabalho remoto não trouxe grandes problemas logísticos. “Conseguimos manter um nível de atividade e de serviço quase equivalente ao que se fazia quando todos estavam no escritório”, constata Claude Tempe.

Muitos trabalhadores se deram conta de que a era da presença no escritório chegava ao fim. O La Défense não é mais “o futuro” porque a pandemia demonstrou “que se pode trabalhar muito bem de qualquer lugar da França com uma eficácia quase equivalente”, afirma Rabah Kidri, disposto a “ir trabalhar em outro lugar com um salário talvez um pouco mais baixo, mas com uma qualidade de vida maior”.

Uma forma de economia para as empresas que vão se sentir tentadas a alugar salas menores na região, como consideraram fazer algumas grandes companhias da City de Londres ou em Manhattan.

No La Défense quatro novas torres estão em construção, duas delas com mais de 200 metros de altura.

A entidade Paris-La Défense é otimista: “Sabemos que o setor imobiliário funciona por cilos há 60 anos. O La Défense teve muitos”.

Christophe Burckart, diretor-geral da IWG, empresa que aluga espaços de trabalho compartilhado (coworking) e que dispõe de 18.000 m2 no bairro, não prevê uma volta ao passado. “O contrato de aluguel convencional, em que as empresas devem se comprometer a alugar por 6, 9 ou 12 anos vira uma rigidez muito restritiva para as companhias”, afirma.

Convencida de que “o escritório terá que se reinventar”, Raisséguier fala no passado deste polo econômico “muito vivo” no qual trabalhou por cerca de 20 anos.

“Se o bairro voltará a ficar cheio como antes? Não tenho certeza”, diz, no primeiro dia do novo ‘lockdown’.

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