As pedaladas fiscais e o cinismo de Arthur Lira

Crédito: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

(Crédito: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)


Diz o Estadão na edição desta quinta-feira que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), não abrirá um processo de impeachment contra Jair Bolsonaro caso ele sancione o Orçamento de 2021 tal como votado pelo Congresso, cheio de pedaladas e maquiagens. Segundo o jornal, Lira acha que falar nessa hipótese é “terrorismo”.

Lira é um cínico, como tenho repetido aqui. Se alguém ainda precisava de prova, aí está.

As pedaladas fiscais foram o motivo jurídico para o início do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Um motivo absolutamente correto do ponto de vista técnico.

Como então isentar de responsabilidade um presidente que se torna cúmplice do mesmo tipo de cambalacho fiscal, passados não mais de quatro anos?

Ah, mas impeachment não depende só de causa técnica, depende também de ambiente político. É verdade. Os brasileiros aprenderam isso nos últimos anos. E isso torna as coisas um pouco mais complicadas.


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Dirão os cínicos, como Lira: mesmo servindo de pajem da Morte, com tudo que fez e deixou de fazer na pandemia; mesmo com sua incompetência administrativa para lá de comprovada; mesmo com seu vício incorrigível em causar atritos e instabilidade no país; mesmo com tudo isso, Jair Bolsonaro ainda conta com apoio de vinte e tantos porcento da sociedade, bem mais do que a popularidade de Dilma às vésperas do impeachment. E isso lhe serve de escudo.

Mas escudo para tudo? Até mesmo para cometer o mesmo crime que já causou a queda de uma presidente?

Em dois anos, Bolsonaro pisoteou a Constituição diversas vezes e cometeu crimes de responsabilidade à mancheia. Mas concedo um ponto: nunca houve casos semelhantes julgados pelo Congresso.

É diferente com as pedaladas fiscais. O processo de Dilma Rousseff as transformou num precedente. Só mesmo um cínico para defender, sem a mínima vergonha, o uso de dois pesos e duas medidas.

Lembremos também o que disse Arthur Lira em 2016, na admissão do impeachment da petista. Ele votou pelo “sim”, em nome do desenvolvimento. “O desenvolvimento é o grande trabalho deste Congresso”, disse ele. “O Brasil está parado, e nós temos de encontrar essa saída.”

Ora, o Brasil continua parado.

Antes da Covid-19, não havia sinal de crescimento robusto induzido pelas ações do governo. Em março do ano passado, o país tinha os mesmos 13 milhões de desempregados (12,9 milhões, para ser exato) que o PT nos havia legado.

Em meio à tragédia causada pela doença, Bolsonaro combateu as medidas de distanciamento social e deixou de comprar vacinas no momento certo, alongando em muito, desnecessariamente, o retorno do país à normalidade (a normalidade verdadeira, não esse simulacro que o facínora deseja impor, no qual todos agem como se nada houvesse, enquanto os mortos se empilham nos hospitais).

E quando sairmos destas catacumbas? A receita de Arthur Lira para promover o desenvolvimento é um orçamento fictício. Não tem a menor chance de dar certo, e ele sabe disso.

Quem tem dinheiro para investir no Brasil está farto de governo mentiroso, gastador e irresponsável. Manter o orçamento como está só vai aumentar a nossa desmoralização – que já não é pequena, depois de tudo que se fez de errado na pandemia.

Mas e daí?

Arthur Lira está pouco se lixando para o “desenvolvimento”. Quer o dinheiro das emendas parlamentares que o Orçamento multiplicou, assim como um vírus se multiplica no hospedeiro.

Ele não liga a mínima para as pedaladas fiscais. Quer mesmo um presidente fraco, para chamar de seu.

É que Arthur Lira, adivinhe, é um cínico.

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