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As mulheres e o vinho

A atividade de sommeliére no Brasil é marcada por profissionais em grandes restaurantes e distribuidoras do País. As poucas mulheres que chegam ao topo da profissão, no entanto, enfrentam diariamente os fantasmas do machismo

Crédito: Eduardo Matysiak

EXPERIÊNCIA Alexandra Corvo: carreira como sommelière desde 1996 e episódios pouco profissionais (Crédito: Eduardo Matysiak)

Você vem junto com a garrafa?” A cantada direcionada a quem trabalha profissionalmente com vinhos é barata — ou seja, inversamente proporcional ao preço das bebidas em questão. É também apenas uma das frases mais ouvidas pelas mulheres que atuam como sommelières — responsáveis pela carta de vinhos de um estabelecimento ou sugestão de harmonização para um cliente. “Nós não estamos sempre bêbadas ou bebemos o dia inteiro em uma festa infinita, como alguns imaginam”, explica Cibele Siqueira, sommelière da Wine, clube de assinaturas de vinhos. O trabalho é sério, mas ainda dominado pelos homens em todo o mundo. No Brasil, foi no final da década de 1990 que as mulheres começaram a surgir e se destacar nesse mercado. A demora é decorrência da complexidade do cargo — e do investimento em tempo de estudo e alto custo da preparação. “Os cursos e as certificações são caros. Quando comecei, precisei me mudar para São Paulo para estudar”, afirma a curitibana Debora Breginski, sommelière que começou a carreira aos 18 anos no restaurante Fasano. Uma das pioneiras no País, ela foi diretamente guiada pelo maior profissional brasileiro e um dos melhores do mundo, o sommelier Manoel Beato.

Debora conta que tem um paladar aguçado desde pequena. Quando a avó pedia para buscar temperos na horta da família, reconhecia as plantas somente pelo olfato. “No começo pensei em ser perfumista, mas só existiam cursos na França. Daí um amigo disse que existia a profissão de sommelier”, diz. Ela conta que teve uma educação bastante feminista e não pensou que a escolha da profissão seria um problema, mas a primeira barreira veio do pai, que não queria bancar aquele tipo de educação. Já em São Paulo, não conseguiu se inscrever em um curso de formação da Associação Brasileira de Sommeliers do estado e recebeu uma dica: “Se você estiver trabalhando em algum restaurante e for recomendada, quem sabe conseguimos te incluir na turma”, relembra.

“Nós não estamos sempre bêbadas nem bebemos o dia inteiro em uma festa infinita, como alguns imaginam” Cibele Siqueira, sommelière do clube de assinaturas Wine

Cantadas

 

RECEIO Ana Carla Wingert: especialista
evita postar fotos pessoais nas redes sociais (Crédito:Eduardo Matysiaki)

Foi assim que ela apareceu na porta do restaurante Fasano em São Paulo e deu de cara com o sommelier Manoel Beato. Contou sobre o seu olfato apurado e sobre esse sonho. “Acho que ele ficou chocado com essa abordagem. Eu tinha acabado de completar 18 anos e não tinha nenhuma formação”, lembra. Com a conquista do estágio garantido, passou a trabalhar de smoking, peça que conseguiu em uma alfaiataria após adaptar uma peça infantil masculina. Demorou até poder usar vestido no trabalho. Ouviu piadinhas e sofreu com as cantadas. “Eu era uma menina na época, não tinha maturidade ou jogo de cintura”, diz. A paciência chegou ao limite quando um cliente a chamou de “fogosa”. “Quero que você guarde essa garrafa aqui no restaurante, porque a sua temperatura deve ser mais alta do que a minha”, teria dito o homem.


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Quando é convidada para realizar um trabalho, sua expertise é sempre comparada a de homens com menos experiência e estudo. Com mais de vinte anos de Fasano, centenas de certificados, vivências no exterior e o cargo de professora no Centro Europeu, Debora diz que pode se dar ao luxo de recusar trabalhos, mas não é isso que acontece com profissionais que estão começando. É o caso de Ana Carla Wingert de Morais, advogada que começou a falar de vinhos nas redes sociais por hobby há cerca de quatro anos. Hoje, como sommelière, decidiu lançar um espumante próprio. Jovem e atraente, ela evita publicar fotos de si mesma no Instagram e foca nos rótulos das garrafas para evitar o assédio. “Tenho medo de perder o controle sobre a minha marca”, diz. Ela conta que começou na profissão graças a uma confraria de vinhos só para mulheres, mas nem a exclusão do sexo oposto foi sinônimo de liberdade. Seu namorado na época tinha ciúmes e dizia que os outros homens não estariam interessados em ouvi-la sobre vinhos, e que iriam ao seu local de trabalho apenas para seduzi-la. As mulheres que participavam do grupo também tinham que ser “autorizadas” por seus maridos a freqüentá-lo. “Achei estranho porque quando comecei a fazer eventos para ambos os sexos, o grupo feminino não compareceu”, explica.

TALENTO
Debora Breginski: início aos 18 anos e cantadas de clientes (Crédito:Eduardo Matysiaki)

A grande preocupação das profissionais é sofrer algum tipo de represália ou divulgar o assédio dando nome aos seus agressores — uma grande parte é de profissionais que as empregam. Uma das mais famosas e importantes sommeliéres do País, Alexandra Corvo, revela que já sofreu diversos tipos de assédio, tanto moral como sexual de “praticamente todos os locais em que trabalhei” e ouvia sempre a frase: “Concordo com você porque você é bonitinha”. A invalidação da profissional é frequente. Já Gabriela Monteleone, responsável pelas bebidas do Grupo DOM, diz que a dúvida sobre sua capacidade profissional vem de homens e mulheres, mas que acontece pouco e não é explícita. “Sei que acontece, mas nunca aconteceu comigo”, afirmou. Para Debora Breginski, a falta de apoio entre as próprias profissionais também é um problema. “Percebo que há uma rixa entre as mulheres”, diz. Cibele Serqueira defende ainda união para defender a categoria. Ela diz que não é “normal” passar por esse tipo de situação e que é preciso denunciar os culpados. “As coisas mudaram, agora nós podemos falar”, diz. Um brinde a essas mulheres cada vez mais poderosas.

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