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Entrevista

Isabel Allende

As mulheres despertaram para sempre

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As mulheres despertaram para sempre

Isabel Allende
Edição 09/03/2018 - nº 2516

Aos 75 anos, Isabel Allende poderia se deitar nos louros de uma carreira literária de seis décadas, com prêmios e vendagens milionárias. Sua obra soma 20 romances, um livro de memórias, dois volumes de contos e quatro peças. Mas ela não sossega. Há pouco mais de um ano, para sua surpresa, voltou a se apaixonar. O novo amor — seu terceiro marido — chama-se Roger Cukras, um abastado advogado nova-iorquino que abandonou tudo para viver com ela em uma casinha em São Francisco, nos EUA. Mãe de dois filhos e avó, ela não se sente presa ao passado. Em seu último romance, “Muito Além do Inverno”, lançado no Brasil pela editora Record, ela antecipou sua vida hoje: um amor inesperado, a chegada de uma refugiada guatemalteca em sua casa e a vontade de ajudar os exilados de guerra. Nesta entrevista, por telefone, de seu escritório na Califórnia, Isabel aborda o feminismo, a crise dos refugiados e a ascensão mundial da extrema direita. Sem esquecer de revelar por que amar potencializou sua imaginação.

Você está vivendo uma experiência amorosa extraordinária: apaixonar-se aos 75 anos. Você pode contar um pouco mais sobre ela? O amor é sempre possível?

Sim, é essa a lição do livro, porque o casal de personagem é maduro, tem 60 anos cada um. Quando o escrevi, vivia na Califórnia um longo inverno de solidão emocional porque me separei de meu marido, vendi a casa grande onde vivemos e comprei uma casinha onde fui viver com minha cachorra. Não me sentia sozinha, apenas em termos românticos. Mas, de repente, apareceu um homem em minha vida, com mais ou menos minha idade: eu tenho 75 e ele, 74. Ele ouviu um depoimento meu pelo rádio e escreveu para mim para comentar algo sobre o que eu tinha dito. Eu me viciei nisso. Passei a verificar os e-mails para ver se tinha mensagens, e sempre havia. Em outubro de 2016, fui a Nova York e o conheci. Rapidamente nos conectamos. Ele vendeu a sua casa, deixou tudo o que tinha e veio morar comigo.

Como superar o que você chama de “idade do medo”?

Você não pode viver intensamente e ser feliz se tem medo. O medo paralisa.Mas há pessoas que gostam de viver sem muitas emoções. Algumas se protegem nas redes sociais, em especial nos aplicativos dedicados a encontros amorosos. Sem correr riscos, não há vida. O que acontece com o amor com esses sistemas de internet onde você conhece outras pessoas, em que você precisa criar um perfil e preencher um formulário para que tudo fique seguro e esteja perfeito e não corra riscos?

Não acontece nada. Você precisa correr riscos para que a vida se manifeste — e o amor se realize plenamente.

Você se arriscou nos sites de encontros?

Pense bem: o que vou colocar no formulário do perfil? Avó, latino-americana, de baixa estatura e mandona procura um par? Ninguém vai me escrever.

Mas você pode mentir um pouquinho, dizer que é mais jovem, simpática e carinhosa. Pode funcionar, não?

Todo mundo mente. Dessa forma, você vai acabar encontrando não a pessoa que você esperava, mas uma caricatura.

Como você cria seus personagens? Você é mais realista do que fantasiosa?

Sempre fui realista. Mas me acusam de realismo mágico. A verdade é que meu primeiro livro, o romance “A Casa dos Espíritos” (1982), se baseava na minha família. Todos os personagens são da minha família. Toda vez que escrevo um livro, busco alguém que me sirva de modelo para o personagem. Porque assim crio uma figura tridimensional, complexa e contraditória como são as pessoas.

Muitos críticos acham hoje que realismo fantástico é algo ruim.

Nós, latino-americanos, vivemos com um sentido mágico da vida. Vivemos com o horóscopo, o candomblé. É curioso, mas nos Estados Unidos, a religião também é mágica. Quando se trata dos brancos, é chamada de religião. Quando são os negros e latinos, é superstição. Aqui nos EUA todo mundo consulta horóscopo, lê a sorte, e a religião é uma forma de pensamento mágico.

Sim, e os Estados Unidos são o berço da fake news, uma espécie de literatura fantástica das redes sociais, não?

Isso mesmo. Os fatos alternativos que frequentam o noticiário não deixa de ser realismo mágico.

Você já foi vítima de fake news nos Estados Unidos?

Estamos vivendo um momento péssimo nos Estados Unidos. É um longo inverno político. Mas sei que não pode ser eterno. Vivemos 17 anos de ditadura no Chile. Quando voltou a democracia, veio mais forte que nunca. O fato de Trump ter sido eleito presidente é uma tragédia para os Estados Unidos e para o mundo. Mas governos passam e os povos ficam.

Trump não foi eleito legitimamente pelos americanos?

Trump representa uma porcentagem da população que sempre esteve aí, em geral gente sem educação, racistas e nacionalistas. São messiânicos porque se sentem superiores ao resto do mundo. Isso sempre existiu em todos os países. A humanidade evolui e esses sentimentos, que originaram o nazismo na Alemanha, são superados. Mesmo assim, eles continuam latentes — e emergem quando as más circunstâncias são propícias. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. Trump não representa um terço da população americana. Não fosse pelo sistema eleitoral, com colégios eleitorais, no qual os estados de menor população têm os mesmos representantes que estados populosos, ele não teria sido eleito.

Os democratas teriam vacilado e ajudado Trump?

Eles achavam que tinham ganhado a eleição e se descuidaram. Mas agora ocorre um movimento de resistência política, oposição e ativismo liderado pelas mulheres. As mulheres despertaram para sempre. Elas se deram conta do poder de voto e do poder que elas têm dentro delas ­— e não vão mais recuar.

Você parece entusiasmada pelo novo poder feminino.

Sim, fui feminista minha vida toda. Como não vou gostar do que está acontecendo? Outros movimentos se incorporaram ao feminismo, como os transexuais, homossexuais e todo tipo de militância. As jovens hoje estão mais conscientes. Nos anos 1990 o feminismo parecia adormecido, porque as mulheres mais jovens não queriam mais ser feministas, porque não era sexy. Agora é bacana ser feminista.

Suas netas são feministas?

Sim, elas são educadas e conscientes da necessidade da luta de gênero — não só a luta da mulher, porque hoje há outros gêneros inseridos no mesmo movimento.

Uma das experiências recorrentes em suas hisstórias é o da condição estrangeira. Você continua a se sentir assim ou já está integrada à sociedade americana?

Estou integrada aos Estados Unidos, com minha família, meus amigos e a equipe de pessoas com quem trabalho, que considero como parte da família. Mas sempre serei estrangeira. Falo com sotaque, não me vejo como americana típica e trago fundas raízes da América Latina. Poderia dizer que sou americana porque tenho passaporte americano e moro aqui. Mas sou chilena porque simplesmente me sinto chilena.

Você voltaria a morar no Chile?

Não, porque já estou há 40 anos fora. Seria difícil, seria impossível com Roger. O fato é que até no Chile eu me sinto estrangeira. Em todas as partes do mundo eu me sinto estrangeira. E não importa. Não é um mau sentimento.

As migrações vão mudar a face da humanidade ou a atual crise humanitária é transitória?

Estamos vivendo em um mundo no qual a tecnologia, as drogas, as armas, tudo é global, exceto os seres humanos, que são limitados por fronteiras. Há hoje uma crise migratória porque as pessoas violam as fronteiras e escapam de seus países de origem. Ninguém quer abandonar pátria, casa, língua e família se não for por um motivo forte. As pessoas fogem da miséria, da guerra, dos narcotraficantes, das quadrilhas, dos governos corruptos. Elas escapam de uma situação extrema e fogem para um lugar onde são recebidas com hostilidade e agressão. Só fazem isso porque estão desesperadas. A gente não pode examinar a crise de refugiados pelos números, em termos abstrato. É preciso olhar no rosto de cada pessoa, a história de cada um. Porque cada um carrega uma tragédia e uma história humana.

Como solucionar o drama dos refugiados?

É preciso resolver os problemas nos países de origem, porque todos querem voltar. Há organizações governamentais e sem fins lucrativos, como a que fundei, que trabalham nas aldeias da Guatemala, por exemplo, para ensinar as pessoas a se defender das quadrilhas. O resultado é que elas não vão embora porque não têm motivos para isso. Nunca houve refugiados sírios na Europa até que começou a guerra na Síria. Se ela for resolvida num prazo prudente, os refugiados irão voltar à pátria. O drama deles é que, quando vão embora, eles levam um tempo médio de 17 a 20 anos até poder voltar. Isso significa que têm filhos e vida em outro lugar. Se voltam, não encontram mais espaço. Não se resolve o problema dos refugiados com muros e com balas, mas ajudando-os. Pode faltar trabalho para todos. Mas o mundo tem recursos suficientes para que ninguém passe fome.

Como você vê esse fenômeno da repulsa ao estrangeiro, sobretudo nos últimos dois anos, com a ascensão de partidos políticos extremistas?

A Ku Klux Klan está desfilando pelas ruas. A extrema direita, o racismo e a xenofobia estão emergindo. Antes, era um vexame pertencer a esse tipo de organização. Hoje em dia, elas não têm mais vergonha. Pessoas como Trump têm permissão e um palanque para divulgar suas ideias com a maior desenvoltura.

Você tem esperança no futuro da literatura, diante das transformações tecnológicas e o encolhimento da imaginação?

Sempre haverá espaço para todas as formas de arte. O que irá mudar é a forma. Já não vamos ler em um livro. Os livros vão virar objetos de coleção e só os antiquários vão conservá-los. As pessoas comuns vão ler em uma tela — ou mesmo por meio de um chip inserido no cérebro e lerão à noite, enquanto dormem. Vai mudar a forma, mas não o conteúdo e a necessidade que as pessoas têm de que contar, ouvir ou compartilhar histórias.

Você e seu marido moram hoje na casa pequena ou em uma maior?

Moramos na casinna. Em nossa idade, é muito melhor viver com menos coisas para não complicar a vida com coisas materiais. Para ele, que era como Richard no romance, com uma vida perfeita e organizada, uma vida segura, de trabalho, de ir à academia, abandonar tudo como um passo na direção de outra vida, foi um desafio. É uma prova de juventude de espírito. Foi uma mudança grande. Para ele, a Califórnia é como um país estrangeiro. Está se acostumando aos poucos… Ele era cheio de manias, mas foi só se apaixonar para deixar de lado seus hábitos arraigados. A única coisa que ele quer é começar uma vida nova.

De que modo esta frase de Albert Camus explica o conteúdo do seu novo romance, “Muito Além do Invenro”: “No meio do inverno aprendi, finalmente, que havia em mim um verão invencível”?

É o resumo do livro. Ouvi a frase em uma conferência há muito tempo. Gostei tanto dela que anotei em um caderno. Quando comecei a escrever o romance, eu estava confusa e resolvi consultar velhas anotações e me deparei com a frase. Foi como se ela me lançasse uma luz e imaginei que o livro iria ser a história de pessoas que vivem em um inverno emocional. Se elas correm o risco e abrem o coração, aparecem a amizade, a solidariedade, a compaixão e o verão invencível, que estava esperando abaixo da superfície. Como eu estava vivendo um inverno porque morreram três amigos, minha agente Carmen Balcells e uma de minhas cachorras, lembrei que havia passado por outros invernos na minha vida, o mais duro deles foi o inverno da morte de minha filha [Paula, morta em 1995). Sempre existe a possibildiade de sair do inverno, encontrar luz, alegria e calor de novo. E se eu tinha superado o inverno da morte da minha filha, poderia sair desse último – e livro me ajudou muito.

São assim os personagens de “Muito além do Inverno”?

Sim. Uma das personagens, Evelyn Ortega, é imigrante da Guatemala. Eu tenho uma fundação que cuida de imigrantes sem documentação, entre outras coisas. Há casos iguais ao de Evelyn na vida real. Por isso, não precisei inventá-la, não fiz nada mais que trocar o nome. Eu me apoderei da história dela, mudando-a um pouco. Eu a tornei menos trágica, porque uma história tem que ser crível. Às vezes a realidade é incrível. Outro personagem, Richard, é inspirado parte em meu irmão Juan, parte em um amigo meu. Juan é professor de Ciência Políticas, vegano e tem quatro gatos como Richard. Meu amigo é pessimista, sempre vendo o lado negativo da vida – o que me provoca muitos risos. No caso de Lucia, ela tem muito de mi e muito de duas amigas jornalistas chilenas, que passaram pela ditadura, pelo exílio, escreveram sobre o isso. Modelos não faltam.

É preciso lembrar que há um aspecto fantástico em “A Casa dos Espíritos”.

A personagem de Clara é fantástica – minha avó Isabela, que passou a vida mexendo com telepatia, evocando os espíritos em uma mesa de três pés e falando esperanto. Minha avó era um personagem pronto.

Que história você está imaginando agora?

Tenho um lugar e um tempo, mas ainda não sei o que vai ser porque tudo muda na escritura. Às vezes começo a escrever uma coisa, mas acabo escrevendo outra.  Pensei em escrever um romance sobre os piratas do Caribe, mas isso foi antes da série de filmes. A situação me interessava porque os piratas fundaram a primeira democracia. Então foi a Nova Orleans e lá o livro mudou completamente, e terminei escrevendo sobre a revolta dos escravos no Haiti, nada a ver com o que tinha pensado antes. Nunca digo nada do que escrevo porque não sei o que vou escrever. O livro a gente descobre pelo caminho, não sei o que vai acontecer. E quando os personagens se tornam pessoas e começam a agir sozinhos, aí então o livro surge e eu sei que vai terminar bem.

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