Edição nº2504 08.12 Ver edições anteriores

As incontinências de um general

De Mourão a Mourão a mesma história

Sob as botas do general Olympio Mourão Filho, que marchou do IV Exército em Juiz de Fora ao Rio de Janeiro para arregimentar seus pares e desencadear o golpe, teve início o primeiro lampejo da ditadura que castigou o País por mais de duas décadas. Um ultraje às liberdades individuais, lancinante castigo aos perseguidos políticos e à democracia, esse período negro de nossa história deixou chagas irreparáveis na memória nacional. Mourão – o conspirador -, de índole belicosa e temperamento irrefreável, era tido e havido como um comandante fanfarrão às vésperas da aposentadoria, que embora não levado à sério foi o primeiro a mobilizar tropas e setores militares para a derrubada da presidência naquele longínquo ano de 1964. No arco de tempo de lá para cá, a repetir a história como pilhéria, um outro general Mourão, esse burocrata das finanças em Brasília, também nos derradeiros dias antes de trocar a farda pelo pijama e seguir à reserva, decidiu soltar os demônios dias atrás durante uma fala em evento na maçonaria cujo teor deveria servir para, no mínimo, enquadrá-lo no crime de insubordinação, passível de severa punição. Não foi o que aconteceu. O Mourão da vez, general de quatro estrelas, que atende pelo registro de batismo como Antonio Hamilton Martins Mourão e tenta uma candidatura ao comando do Clube Militar, não mediu palavras e nem foi contido ao falar em intervenção pelas armas no caso de a Justiça “não solucionar o problema político”. Alegou contar com o apoio dos “companheiros do Alto Comando do Exército” que, nas suas palavras, compartilham da mesma ideia. Foi (não há dúvida) a maior e mais explícita ameaça à ordem constituída desde o fim dos tempos da tutela armada. Instituições civis e os poderes da República estavam claramente afrontados. O Judiciário submetido a uma chantagem: ou retirava os “elementos envolvidos em todos os ilícitos” ou, nos dizeres do general, “nós teremos que impor isso”. Não existiu margem a interpretações distorcidas sobre as intenções do oficial que, sem qualquer cerimônia, mandou às favas o regulamento disciplinar segundo o qual é vetado a militares da ativa emitir manifestações de cunho político. A tibieza da reação das autoridades surpreendeu até os mais próximos convivas do Planalto. O Ministro da Defesa, Raul Jungmann, limitou-se a um pedido de explicações do chefe do general e deu o caso por encerrado, sem punição ao indisciplinado Mourão. A escalada de inquietação dos brasileiros – que correram às redes sociais para comentar o temor da ameaça – só cresceu. O pior ainda estava por vir. Foi o próprio comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, em programa televisivo, quem reiterou que não se cogitava punir ou repreender o colega de farda pelo ato. Ao contrário, Villas Bôas chegou a elogiar o subordinado: “O Mourão é um grande soldado, uma figura fantástica, um gauchão…”. Deu ainda endosso público às imprecações lançadas ao afirmar que, pela Constituição, as Forças Armadas podem ser empregadas sim para garantir a ordem, numa interpretação muito particular e distorcida do artigo que só aceita tal situação “sob a autoridade suprema do presidente da República”. O comandante do Exército lançou a senha para uma espécie de cordão de isolamento em torno de Mourão na caserna. A reportagem da ISTOÉ levantou as razões. Como relata nesta edição, o próprio Villas Bôas – além de vários outros generais tão drapejados de medalhas e comendas como ele – participou de uma reunião sigilosa dias antes que motivou o discurso na maçonaria. O general Augusto Heleno, que comandou as tropas no Haiti, não hesitou em dar publicamente aval “irrestrito” às ideias de Mourão que, diga-se de passagem, é reincidente e fez no passado duras críticas à classe política, tendo na ocasião perdido o Comando Militar do Sul. Fato recorrente, o flerte com regimes de exceção e ideias de ultradireita acontecem aqui e alhures em tempos de crise. A busca de uma alternativa radical, vendida como solução fácil e eficaz, embute decerto riscos desconhecidos e valores enganosos como o de imaginar que não há malversações ou desvios de qualquer natureza nesses sistemas. Nada mais falacioso. Na ditadura, o estrangulamento da informação, a censura sob diversas formas e o controle violento daqueles que se opõem ou denunciam o regime, escamoteiam as faltas gritantes cometidas debaixo dos panos. Sem liberdade e sob a direção das armas a sociedade perde o controle do próprio destino.


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