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Entrevista

Hildegard Angel, jornalista

As Forças Armadas erram em não admitir a verdade

Felipe Varanda

As Forças Armadas erram em não admitir a verdade

Eliane Lobato
Edição 18/05/2018 - nº 2526

Durante muito tempo, a jornalista Hildegard Angel, 68 anos, lutou para que a morte de sua mãe não fosse considerada acidente e, sim, um assassinato. Na madrugada de 14 de abril de 1976, a estilista Zuleika Angel Jones, a Zuzu, então com 54 anos, dirigia seu Karmann Ghia perto do túnel Dois Irmãos, que liga a zona Sul do Rio de Janeiro ao bairro de São Conrado, quando o carro capotou. Ela morreu. Não foi a única vítima da ditadura na família de Hilde, como é conhecida. Em 1971, foram assassinados o irmão, Stuart, e a cunhada, Sonia, ambos militantes do MR-8 (Movimento Revolucionário de 8 de outubro). Seu pai, o americano Norman Angel Jones, também foi torturado e perdeu os dentes devido à brutalidade. Agora, com a revelação recente de documentos da agência de inteligência americana, a CIA, nos quais o ex-presidente Ernesto Geisel (1974/1979) autoriza execuções de pessoas que se opunham ao regime militar, ela diz ter a comprovação de que partiu dele a ordem de matar sua mãe. “O reconhecimento público é uma forma de justiça”, disse nesta entrevista à ISTOÉ. O túnel Dois Irmãos foi rebatizado de Zuzu Angel.

Quem matou Zuzu Angel?

Geisel assassinou a minha mãe. Agora eu posso dizer, há documentos da CIA que provam. O Cláudio Guerra (ex-delegado do Dops) escreveu um livro (“Memórias de Uma Guerra Suja”, 2012) contando sobre vários assassinatos, inclusive o da minha mãe. Ele relata como foi engendrada a emboscada pelo coronel Freddie Perdigão (ex-chefe do SNI), que se reportava diretamente ao gabinete do Geisel. Agora, são os relatórios da CIA que comprovam isso. Ele (Freddie), inclusive, foi fotografado no local do crime por um repórter do jornal O Globo, que chegou imediatamente após o carro dela capotar. Quando eu soube dessa foto, procurei amigos que tiveram um parente casado com uma filha dele e fui atrás do álbum de casamento para encontrar o rosto dele. E aí, eu soube que ele tinha mandado destruir todas as fotos em que aparecia. Nada ficou. Exceto, a foto do Globo, esses documentos da CIA, e eu, que sobrevivi.

Por quê?

Porque eu era uma boa menina. Eu era dócil, meiga, não era perigosa, era uma colunista social no mundo encantado cor-de-rosa. Eu era uma besta quadrada.

Era sua opção?

Era um bloqueio. Tão grande, tão grande, um medo que me congelava. Eu não conseguia sequer assistir a um filme que tivesse a tortura como tema. Me lembro que estava passando um longa no cinema do meu bairro — acho que era “Pra Frente, Brasil” (1982) — e eu do outro lado da rua tentando ter coragem para atravessar e assistir, mas não consegui. (Chora)

Mas a senhora frequentou um grupo de teatro de resistência, não?

Contraditoriamente, sim. Aos 19 anos, mamãe ainda era viva e o Stuart estava foragido. Fui com um grupo para Porto Alegre para fazer uma revolução cultural, mas a censura proibiu todas as nossas peças. Um dia, meu pai apareceu de Kombi para me buscar. No meio da viagem, disse que me deixaria na rodoviária de São Paulo, onde eu deveria pegar um ônibus para o Rio. Muitos anos depois, eu encontrei um meio irmão, que me revelou: “Nosso pai viu que vocês estavam sendo seguidos, por isso ele deixou você na rodoviária. Mas não conseguiu escapar.” Assim, eu soube que pegaram o papai e levaram para um sítio onde ele foi torturado barbaramente. E eu nunca soube disso! Lembro que quando vi o meu pai novamente, após essa viagem, ele não tinha mais dente algum na boca. Quis saber o motivo e ele deu uma resposta qualquer. Era resultado da tortura. Triste. (Chora). Ele foi a Porto Alegre me buscar porque tinha ouvido falar que o Stuart estava indo para o Sul e ficou com medo de agentes da repressão irem atrás de mim, supondo que o Stuart me procuraria lá. Nunca me contou nada disso.

Continuou fazendo teatro como forma de luta?

Fiz um espetáculo realmente político do Teatro Oficina, numa época em que o teatro foi importante politicamente. Era “Gracias Señor” (1971), uma peça muito dura, de resistência mesmo, com o Zé Celso à frente. Mas quando mataram a mamãe — e já tinham matado meu irmão —, eu senti que, ou eu sobrevivia ou continuava a fazer teatro. Decidi ficar só no jornalismo. Um dia, me disseram para me esconder porque iriam me pegar. Eu falei: “Não vou me esconder, vou continuar entrando e saindo todo dia no meu horário. A minha proteção é eu estar no Globo.” Recentemente, o Fernando Morais (jornalista e escritor) me ligou dizendo que o Paulo Coelho, de quem ele estava fazendo a biografia, tinha dito que era fichado no Dops. O Fernando foi atrás dessas fichas e me disse, rindo: “Hilde, quem era seguida pelo Dops era você. Mas como o Paulo era muito seu amigo e vocês viviam juntos, o nome dele entrou nas fichas.” Eu era seguida? Não sabia.

O que muda na imagem após os relatórios da CIA?

Acho que muda muito. Me parece que vários setores, entre os quais a imprensa, ficaram impregnados de uma verdade difundida pelo (jornalista) Elio Gaspari em sua coleção de livros sobre a ditadura, em que o Geisel aparece como uma espécie de ‘ditador bom’. Essa versão agora caiu por terra. Está lá nos documentos da CIA, Geisel era um torturador e um assassino.

O candidato Jair Bolsonaro (PSC/RJ) homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar brasileiro a ser reconhecido como torturador pela Justiça. O que diria para ele?

O Brasil é muita areia para o seu caminhão, Bolsonaro. Ele é um desqualificado, se tivesse uma ditadura, com ele voltaríamos ao terror. Mas não estamos. Olhe, não sou contra a direita. Acho que tem de existir a direita e a esquerda. Assim o Brasil vai chegando a um ponto melhor, debatendo as razões de cada lado. Mas este candidato não representa a direita. E também acho que estamos com dois pesos e duas medidas, e isso precisa ser explicado. O Paulo Preto (Paulo Vieira de Souza, tido como operador do PSDB), com U$ 200 milhões em conta na Suíça, fica preso só uns dias; o João Vaccari (ex-tesoureiro do PT), não tem dinheiro em banco estrangeiro e está preso preventivamente desde 2015. E considero que os governos de centro-esquerda e de esquerda foram pusilânimes, não quiseram enfrentar a verdadeira história para não ferir suscetibilidades.

Enfrentar como?

Dos governos de direita a gente não podia esperar nada mesmo. Mas do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de Lula (Luis Inácio Lula da Silva / PT) e de Dilma (Rousseff/PT) esperávamos mais ações. FHC criou a Comissão dos Desaparecidos, e isso foi importante; a Dilma fez a Comissão da Verdade, igualmente importante. Mas tudo ficou pelo meio do caminho. Eles não foram até o fim. As Forças Armadas erram em não admitir a verdade. Os documentos da CIA deixam a instituição mal. Todos os países da América Latina reconheceram as suas ditaduras, as torturas, os assassinatos, os desaparecimentos. Só o Brasil insiste nessa Lei da Anistia (1979), que foi uma chantagem, um “dá ou desce”. Os exilados queriam voltar, estavam desesperados; os que ficaram aqui, precisavam voltar a trabalhar. E todos tiveram que aceitar essa lei que garantiu a impunidade de quem cometeu crimes lesa-humanidade, como a tortura. Quando estes documentos chegarem no Brasil e forem oficializados, os movimentos organizados têm que agir para retirar o nome de Ernesto Geisel de homenagens públicas pelo País afora, e também corrigir os livros de história.

A senhora vê similaridade entre as execuções de sua mãe e a de Marielle Franco (vereadora do PSOL, há dois meses). Quais?

As forças do poder são diferentes, mas estão aí. No caso da Marielle, está parecendo ser milicianos, ou seja, gente ligada ao poder oficial já que muitos são ex-policiais, ou mesmo da ativa. No caso da Zuzu, foi por ordem direta do presidente da República. Ambas foram emboscadas. Ambas eram mulheres frágeis mas combativas, legítimas, e incomodavam com um discurso articulado, vigoroso. A Zuzu foi calada em nome da perversidade, do poder tirânico. A Marielle, para que não se desenvolvesse na política, porque o horizonte dela era muito amplo. Na terça-feira 15, houve uma homenagem para marcar o aniversário de morte de Stuart, e a mãe da Marielle, a Marinete, foi lá. Ela sabe que estamos falando da mesma coisa nestes casos. Estavam lá antigos companheiros que militaram com meu irmão no MR-8 e eu soube que o Stuart estava escondido na casa de um gráfico do “Jornal do Brasil”, o Sebastião Brás, de onde pegou um ônibus, foi emboscado e começou sua via crucis.

Acha que a sociedade apoia essas vítimas?

Em minha aula de hidroginástica, outro dia, vi uma pacata senhora bradar, enfurecida, contra os direitos humanos defendidos por Marielle. E, de repente, me vi não mais em uma piscina azul mas em uma imensa poça de sangue. O sangue que o pensamento fascista já verteu no Brasil e poderá fazer jorrar mais, como fez este ano com a Marielle. O sangue da minha mãe, do meu irmão, Stuart, da minha cunhada, Sônia, e de tantos outros. Não é toda a sociedade, mas ainda tem quem aprove esses métodos fascistas.

Como é a sua vida já que essa página não vira nunca?

O que sempre me salvou foi o trabalho. Estou viva graças ao meu trabalho. Não fui assassinada pelo golpe de 1964 por causa da minha dedicação ao meu trabalho, ele me botou dentro de um mundo que não era meu e eu soube atuar profissionalmente e, assim, conseguir uma couraça para me proteger. Eu trabalhei no dia que a minha mãe morreu e em todos os outros da minha vida. Hoje, além da coluna no Jornal do Brasil, trabalho no Instituto Zuzu Angel de Moda e na Casa Zuzu Angel, com acervo dela, da Carmen Mayrink Veiga etc.

Se considera uma militante?

Não, me considero uma implicante.

A revelação da CIA trouxe alívio?

De certa forma, o reconhecimento público é uma maneira de ter justiça. Eu sabia que eram forças de estado que tinham mandado matar minha mãe, mas não sabia que tinha vindo diretamente da sala do presidente da República. Agora eu sei, todos sabem.


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