Semanal

As bravatas do general

Crédito: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Que Bolsonaro seja irresponsável ao ponto de pregar abertamente um golpe caso não tenhamos o voto impresso nas eleições de 2022 é uma coisa, pois ninguém mais leva a sério o que ele diz. O grave é quando um general de quatro estrelas, como o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, ameaça as instituições democráticas pelo mesmo motivo, assegurando que se o voto de papel não voltar a ser instituído, os militares asseguram que não teremos eleições.

De duas, uma. Ou o militar é um bravateiro, desmerecedor de reverência da sociedade, ou é um vassalo do presidente, aquele que coloca interesses pessoais acima dos anseios da Nação, que exige o respeito à Constituição e à manutenção da democracia e do Estado de Direito. Se forem as duas coisas associadas, então teremos um caldo de cultura para a volta aos tempos de chumbo que nos fizeram tanto mal.

A nós, que sofremos com os horrores da ditadura de 1964, resta esperar que tudo não passe de bravatas de um general atordoado pelas asneiras do capitão abestalhado. Até porque, parece cada vez mais claro que os militares no poder hoje se comportam mais como um cão que só ladra e não morde. Ninguém fica anunciando diariamente que vai dar um golpe caso seus pleitos não sejam atendidos.

De pouco vale o ministro da Defesa desmentir agora que tenha dito o que disse ao presidente da Câmara, Arthur Lira: se não tivermos o voto impresso, não teremos eleição no ano que vem. Afinal, o estrago já foi feito. Quando o militar fez essa ameaça, há 15 dias, estava acompanhado pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Portanto, a intimidação não foi feita banalmente. Foi feita com o propósito inequívoco de pressionar o Congresso a aprovar o voto impresso, medida, porém, que será rejeitada no próximo dia 5, com a volta do recesso. A não ser que a pressão de Bolsonaro e dos militares surta efeito e os congressistas afinem.

Para o bem da democracia, é de se esperar que as ameaças não surtam efeito. Afinal, a maioria dos partidos já disse que não deseja mudar a estrutura da votação, baseada hoje nas seguras urnas eletrônicas. Elas nos tiraram da escuridão do voto de cabresto e da corrupção da venda de votos.