Medicina & Bem-estar

As armadilhas da diabetes

O número de mortes pela doença subiu 12% no Brasil. Apesar dos avanços em tecnologia e medicação, ainda falta informação entre médicos e pacientes

Crédito: Divulgação

Cerca de 425 milhões de pessoas no mundo sofrem de diabetes. Em torno de 10% apresentam o tipo 1, uma doença auto-imune. Nela, o sistema imunológico ataca as células produtoras de insulina, hormônio que possibilita a entrada, nas células, do açúcar presente no sangue. A maioria dfa população apresenta o tipo 2, relacionado ao acúmulo de peso e caracterizado pela deficiência na produção ou aproveitamento da substância. Na quarta-feira 27, o Ministério da Saúde divulgou um aumento de 12% no número de mortes pela doença entre 2010 e 2016. De 54 mil, passaram a 61 mil. Na origem do crescimento está a desinformação de pacientes e médicos e uma estrutura pública de tendimento longe do ideal.

O diagnóstico preciso do quadro foi feito por especialistas brasileiros que participaram do encontro anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), realizado em Orlando (EUA) e encerrado na última semana. Na opinião do endocrinologista Levimar Rocha Andrade, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, existe entre os profissionais de saúde resistência em prescrever insulina a portadores do tipo 2 assim que a doença se instala. “Antigamente ela era usada como último recurso. Isso mudou”, diz. “Mas os médicos receiam perder o paciente.” Introduzir um pouco do hormônio desde o começo do tratamento preserva a a função original das células. Porém, nem sempre os benefícios são visíveis de imediato, ao contrário do que ocorre com efeitos colaterais como a queda repentina da taxa de açúcar no sangue, a hipoglicemia. “O paciente não vê sentido”, diz a médica Solange Travassos, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes.


Existem opções que driblam a consequência. Entre elas as drogas Toujeo, fabricada pela Sanofi, e a Tresiba, da Novo Nordisk. No encontro da associação americana, foram divulgados estudos demonstrando que as medicações reduzem o risco de hipoglicemia no início do tratamento. Porém, elas custam caro (cerca de R$ 150 por 3 ml) e não estão disponíveis no SUS. Também foram apresentadas combinações de remédios mais eficazes para tratar de condições associadas, como a obesidade, e diversos dispositivos que ajudam no monitoramento dos indicadores da doença pelos próprios pacientes.

O entendimento dos especialistas é de que ao mesmo tempo em que a ciência avança, permanece uma lacuna. “A expectativa de ver novas drogas e tecnologias é grande, mas não podemos nos esquecer do básico”, afirma Levimar Andrade. Por básico inclui-se tempo de consulta suficiente para informar o paciente sobre de que maneira a alimentação e exercícios físicos afetam o manejo da doença. Na rede pública o problema é mais grave, com consultas que, na melhor das hipóteses, duram quinze minutos.

Erika Parente, endocrinologista (Crédito:Divulgação)

“A alimentação é metade do tratamento. A outra é formada pela prática de exercícios e uso de remédios” Erika Parente, endocrinologista

Mudança de hábito
Sem a compreensão não como a enfermidade ser controlada, uma vez que o excesso de gordura e a pouca atividade física estão não só na sua origem como também na sua permanência. Nenhum medicamento sozinho impede sua progressão sem que esteja combinado a uma mudança real de hábitos que envolve a prática de exercícios e a troca de uma alimentação rica em gordura e açúcar por outra, baseada no consumo de frutas, verduras e alimentos integrais. “A alimentação é metade do tratamento. A outra é formada pela prática de exercícios e de medicação”, diz a endrocrinologista Erika Parente, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Reside na questão uma das principais armadilhas no trato da diabetes tipo 2, fator de risco para infarto e acidente vascular cerebral. Seu manejo é, a princípio, simples. Porém, fazer com que as pessoas mudem de hábito é um desafio. “É como educar um filho. Tem que repetir mil vezes”, diz Solange Travassos. Pela urgência na solução do problema, que está associado a diversas outras enfermidades, ganha espaço a área da medicina comportamental. Seu objetivo é incluir no tratamento táticas baseadas nos achados científicos sobre comportamento e tomada de decisões, entre outros aspectos.

* Repórter viajou a convite da Sanofi