Cultura

Arte pós-pandêmica

Artistas se reinventam em formatos criativos e linguagens originais para continuarem a se expressar diante da nova realidade

Crédito: Divulgação

LIVESTREAM NICK CAVE: show virtual com ingresso pago (Crédito: Divulgação)

TEATRO Irene Ravache: monólogo de hóspedes de casa para mais de 35 mil pessoas em todo o mundo (Crédito:Divulgação)

A transformação que a pandemia causou na cultura só será compreendida de forma definitiva no futuro. Projetos de artistas visionários, porém, indicam tendências do que pode vir a ser essa tal arte pós-pandêmica. São novos formatos criativos, linguagens e temáticas adequadas ao isolamento social e a um mundo onde cada indivíduo tem uma plataforma de distribuição global de conteúdo a partir da sala de sua casa.

As lives foram a primeira manifestação dos novos tempos. Deve-se tirar o chapéu (de caubói) para os sertanejos, que viram rapidamente no novo formato um filão não apenas de modelo para atingir o público, mas de ganhar dinheiro.
O fenômeno é global, mas os brasileiros se destacam: das dez lives de maior audiência no mundo, oito foram brasileiras.

EXPOSIÇÃO Drive-in de artes visuais: galpão em São Paulo exibe 18 obras entre pinturas, colagens e fotografias (Crédito:Divulgação)

A campeã, a cantora Marília Mendonça, reuniu 3,3 milhões de pessoas em 8 de abril, e 2,2 milhões em 9 de maio. Jorge & Mateus, Gusttavo Lima, Sandy & Junior, Leonardo, Henrique & Juliano e Bruno & Marrone completam a lista, todos com mais de dois milhões de visualizações. O ranking tem ainda o tenor italiano Andrea Bocelli e o grupo de K-pop sul-coreano BTS.

Nas grandes lives brasileiras, a renda vem de patrocinadores e da publicidade comercializada nos canais. Mas há outra forma de apresentação virtual que surge como provável tendência: os shows virtuais pagos, os livestreams, com ingresso pago.

O australiano Nick Cave apresentou o show “Idiot Prayer” na quinta-feira 23, um filme-show gravado no Alexandra Palace, em Londres. A exibição ocorreu a portas fechadas e sem público. Pela internet, o ingresso custou cerca de R$ 100 por aparelho (celular ou computador). Segundo pesquisa da empresa Ticket360, 75% das pessoas gostam mais da experiência de eventos ao vivo – o que revela, por outro lado, um dado surpreendente: 25% já preferem as lives. Pelo levantamento, 38% pagariam para ver uma live – o número cresce para 84,5% no caso de lives com ingressos até R$ 10.

A comunicação pelas telas é algo que veio para ficar. O ator e comediante Fábio Porchat, integrante do Porta dos Fundos, vai aposentar as reuniões de roteiro do grupo. “Os calls por vídeo substituem perfeitamente os encontros presenciais e são bem mais produtivos, uma vez que não exigem a locomoção”, diz. Outra experiência inovadora pelas telas foi realizada pela atriz Irene Ravache, que interpretou direto da sala de sua casa a peça “A Alma Despejada” no projeto #EmCasaComSesc.

A atriz se surpreendeu com a experiência. “Não é teatro e nem teleteatro, onde você contracena com outros atores. É outra linguagem que eu ainda nem sei o nome. Uma nova forma de se comunicar por meio de um texto teatral”, diz a atriz.

“Quem vai dar a resposta, se gostou ou não, é o público. Antes, o sucesso de uma peça era medido pelo boca a boca, agora é pelo dedo a dedo. A pessoa clica no site ou não, dá like ou não.” No caso de Irene, a apresentação foi um sucesso: mais de doze mil pessoas assistiram à peça virtual ao vivo.

Em apenas cinco dias, o vídeo sob demanda, no Youtube, ultrapassou as 35 mil visualizações – mais de 100 vezes a capacidade da plateia do Teatro Folha, onde estava em cartaz antes da pandemia. Apesar de a peça ter sido transmitida de graça, a atriz não vê problema na eventual cobrança de ingressos para o teatro online. “É um negócio. Assim como fazemos compras pela internet, podemos pagar para ver um espetáculo.” Irene ficou atraída pelo fim das fronteiras para o conteúdo. “Teve gente de diversos países. Será uma opção para quem mora em cidades onde não há teatros ou simplesmente para quem não quer se locomover.” Para a autora da peça, Andréa Bassitt, o formato valorizou o texto: “Muitas pessoas que já tinham visto no teatro disseram que a proximidade da tela foi melhor para observar a história e a interpretação”, explica Andréa. “Achei emocionante a força que a palavra ganhou ao vivo, sem cortes e edições televisivas. Foi na raça, como costumamos dizer.”

Teatro mágico

Divulgação

O músico Fernando Anitelli, do Teatro Mágico, criou um modelo ainda mais inovador para os shows de sua banda. Por um ingresso de R$ 50, o público pode participar de uma vídeoconferência com o artista via Zoom, plataforma em que todos os participantes podem interagir entre si.

INTERATIVIDADE A experiência de Fernando Anitelli: videoconferência com participação do público e cobrança de ingresso (Crédito:Divulgação)

“As lives normais são apenas shows pela internet. Criamos a ‘Experiência – Teatro Mágico’, uma apresentação onde a platéia pode fazer perguntas, pedir músicas e até mesmo colaborar com o cenário, uma vez que projetamos os participantes na parede.” Ao comprar o ingresso, o público recebe uma mensagem com instruções para o show, que inclui sugestões de maquiagem e decoração para suas “janelas”, a tela em que cada um dos 20 indivíduos é projetada e vista por todos os outros. “Sem a pandemia eu não teria criado esse projeto”, conclui o músico, que já vendeu mais de mil ingressos para a temporada que acontece toda semana, de quinta a domingo. A pandemia também criou opções culturais curiosas. Ressuscitou os cinema drive-ins, que proliferaram pelo País. Em São Paulo, a novidade foi a transposição desse modelo para as artes visuais. O “Drive.Thru.Art” é uma exposição onde os espectadores vêem um circuito de 18 obras de dentro dos carros. Artistas como Felipe Morozini, Nathalie Edenburg e Cranio assinam grandes painéis expostos em um galpão de 9.000 m2. Como todo movimento artístico, há muitas novidades e poucas certezas sobre os cenários que se desenham. A pergunta inevitável é: a arte pós-pandêmica sobreviverá aos tempos do coronavírus? Só o futuro dirá.

ENTREVISTA
Marcelo Adnet

Humor feito na pandemia é diferente? O que ela trouxe em termos de linguagens e formatos?
O ator precisa participar de outras fases da produção e assumir papéis que não tinha antes. O processo trouxe aprendizado sobre direção, iluminação, áudio, fotografia, edição, tudo. Até atuar como contra-regra, carregar cenários e móveis de um lado para o outro. Isso faz a gente aprender e valorizar os profissionais que fazem parte do mundo audiovisual junto com o ator, mas que ficam atrás das câmeras. A pandemia ensejou novos formatos, mais simples, pessoais, caseiros, reduzidos. E aí a gente percebe que nem toda queda de produção acarreta queda de qualidade. Muitas vezes você acaba ganhando em originalidade, linguagem e rapidez.

Divulgação

A pandemia vai deixar alguma marca na forma de atuar ou fazer humor? O que vai permanecer?
O legado é descobrir que dá para fazer, mesmo quando as condições são adversas. E como fica tudo mais interessante quando perdemos alguns recursos. Somos obrigados a fazer adaptações para compensar e isso gera coisas bem bacanas. O legado da pandemia é o home office, a história de fazer todas as funções, empenhar-se para além da sua função específica, entender o que o seu companheiro de equipe está fazendo. Compreender toda a sabedoria que circula nesse pequeno espaço. Há uma separação entre o humor e a dramaturgia, que exige cenários mais reais, situações realistas. O humor não perde por ter um formato mais mambembe. Acho até que ganha, porque ele se afirma como um formato independente de toda a estrutura realista que a dramaturgia necessita.

Se os cientistas descobrissem uma vacina hoje e voltássemos ao normal, o que iria mudar?
Acho que a volta ao normal é relativa. Estávamos em uma situação de anormalidade, desconforto social, uma crise em diversos sentidos no nosso País. Estávamos desconfortáveis como nação quando a pandemia começou. É difícil falar sobre a volta ou se teremos alguma capacidade e sabedoria para mudar de fato. Vamos voltar todos ao trânsito? Vamos voltar a uma rotina viciada, doente e sem sentido? Tem muita coisa para ser repensada. O movimento anti-racismo é um marco em uma sociedade que finalmente assume o seu passado escravocrata. Não entendo o termo “volta ao normal” porque não havia nada normal acontecendo. Será uma “volta ao anormal”. É bom para as emissoras poderem absorver esse conteúdo porque ele é o futuro, a maneira nova de fazer, encarando possíveis limitações.

Há uma linguagem própria nesses tempos de pandemia?
Sim, é a videoconferência travando, alguém caindo, a comunicação truncada. A gente sobrevive, o ser humano é forte. Tem gente passando por coisas tão difícieis… a gente estava acostumado a uma zona de conforto. A linguagem própria da quarentena é a dificuldade em lidar com limitações técnicas e até físicas.

Os seus vídeos têm sido um sucesso. É pelo momento do mundo? Pelo conteúdo? Pelo formato? Tudo junto?
Tudo junto em uma junção de jornalismo com humor, o fato de ser uma crônica em cima do lance. O conteúdo que gravo até 17h já está no ar às 19h. É uma janela muito rápida entre o “corta” aqui em casa e o momento em que a edição termina o trabalho. Minha esposa me filma com o celular e temos mais três pessoas trabalhando remotamente, em casa, os editores Jessica Goulart e Diogo Ribeiro e a coordenadora Daniela Ocampo. O elemento mais importante que trago é dialogar com aquilo que está quente, o mais comentado no momento. A própria pandemia traz uma linguagem que te desafia a resolver, com elementos da sua casa, grandes produções. Pode ser criar uma ema ou fazer o jet-ski do Bolsonaro na piscina. O desafio acaba sendo engraçado porque produzimos de forma mambembe o cenário a partir do nosso próprio sonho.

 

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