Cultura

Arte e inteligência artificial, uma combinação cada vez mais apreciada

Arte e inteligência artificial, uma combinação cada vez mais apreciada

Duas obras realizadas com técnicas de inteligência artificial serão leiloadas em 15 de novembro de 2019 na Sotheby's, em Nova York

A venda de uma pintura por US$ 432.500 surpreendeu o mercado em outubro de 2018. Um ano depois, duas novas obras chegam a leilões em Nova York, sinal de um interesse crescente pela aliança entre arte e inteligência artificial.

A Sotheby’s leiloará neste 15 de novembro duas obras do coletivo francês Obvious, cujo quadro “A baronesa de Belamy”, da mesma série do “Retrato de Edmond Belamy”, foi vendido há um ano por um preço 60 vezes maior que o estimado na Christie’s.

Uma obra foi criada no estilo do retrato clássico europeu, a outra da estampa japonesa. Mas ambas foram realizadas por meio de redes generativas antagônicas (GAN). Esta técnica baseada na inteligência artificial gera imagens até o programa considerar o resultado suficientemente próximo ao estilo original.

O mundo da arte ainda não se recuperou da comoção de outubro de 2018 e se pergunta hoje por que preços serão vendidos a baronesa e “Katsuwaka of the Dawn Lagoon”.

As estimativas são modestas, de 20.000 a 30.000 dólares para o primeiro, e de 8.000 a 12.000 para o segundo.

“Não esperamos um resultado tão grande como no ano passado”, adverte Pierre Fautrel, um dos três membros do Obvious. “Só queremos ver se há pessoas que estão dispostas a comprar por esses preços, se o mercado vai continuar crescendo”.

“Estamos apenas começando”, afirma Max Moore, responsável de vendas de arte contemporânea da Sotheby’s em Nova York. A venda do “Retrato de Edmond Belamy” mostrou “que havia um mercado para esse tipo de obras”, disse, “mas sua profundidade não foi verdadeiramente testada”.

O Obvious, que já não é proprietário das duas obras que serão leiloadas na Sotheby’s, poderia ter vendido todos os quadros que já produziu, alguns pelo preço de 100.000 euros, mas rejeitou várias ofertas.

“Preferimos vender menos caro com possibilidades de que a obra seja exposta e que possa beneficiar o maior número de pessoas, do que saciar um prazer apenas pessoal”, explica Fautrel.

– “Não é para todo mundo” –

Na nova categoria “inteligência artificial”, o Obvious não é a empresa mais cotada.

Segundo Steven Sacks, proprietário da Galeria bitforms em Nova York, o mexicano-canadense Rafael Lozano-Hemmer, que ele representa, já recebeu 600.000 dólares por uma obra.

Diferentemente do coletivo francês, a maioria das obras deste artista que utiliza a inteligência artificial não são fixas, e muitas vezes interagem com o espectador.

Outros artistas, como o alemão Mario Klingemann, com uma obra que foi vendida por 40.000 libras em março em Londres pela Sotheby’s, e Refik Anadol, de origem turca, estão também em alta e expõem mundo afora.

Sacks e vários artistas entrevistados pela AFP não apreciaram a venda do “Belamy” no ano passado, que segundo eles consistiu em um golpe de marketing.

“O fato de que tenha sido isso o que foi eleito para representar a inteligência artificial (na arte) é um problema”, disse Sacks, e ressaltou que muitos artistas já produziam obras de inteligência artificial antes do nascimento do Obvious, há dois anos.

Muitos também reprovam a operação porque acreditam que deu a impressão de que a inteligência artificial podia criar uma obra sem assistência humana, com o único objetivo de imitar a arte produzida por humanos.

“Um artista escolhe. Aligeira, agrava. Um computador pode fazer isso?”, pergunta Ronan Barrot, que colaborou com o artista digital britânico Robbie Barrat em uma exposição em forma de diálogo em Paris, “Infinite Skulls” (Caveiras infinitas), no início do ano.

Há um grande debate, mas o Obvious garante que vê a inteligência artificial como “uma ferramenta”, não como um fim em si.

Todo mundo concorda, no entanto, que o mercado está crescendo. Sacks reconhece que o leilão de outubro de 2018 “atraiu a atenção para este tipo de obras”.

“Não acho que este estilo seja para todo mundo”, opina Max Moore, da Sotheby’s. “Mas começa a atrair muitas pessoas que não são obrigatoriamente colecionadoras, mas que se interessam muito pela tecnologia por trás da inteligência artificial”.

Com suas telas, o Obvious se inscreve na tradição de objeto físico, à qual são adeptos muitos colecionadores tradicionais. Mas muitas obras de inteligência artificial são virtuais e acessíveis apenas através de uma tela digital.